(pt) [Equador] Os Shuar contra o Estado e o Capital By A.N.A. (en)

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Terça-Feira, 7 de Março de 2017 - 09:44:37 CET


Para o filósofo equatoriano Bolivar Echeverria a vida moderna se sustenta em um absurdo: 
---- "[...]um modo de vida no qual, em meio da possibilidade da abundância, se reproduzir 
é ao mesmo tempo se mutilar, se sacrificar, se oprimir e explorar uns aos outros". ---- É 
dizer, as possibilidades técnicas e sociais atuais são tais que nos permitem alcançar o 
tão ansiado Sumak Kawsay (a vida plena de todos os seres que habitamos este planeta). Mas, 
"a maldição da abundância" é que, apesar disso, a sociedade atual gera, consome, reproduz 
a riqueza social destruindo suas duas principais fontes: os seres humanos e a natureza. 
---- Historicamente nos constituímos em povos e culturas cada um com características 
particulares fruto de diversas formas de relacionar o trabalho humano com a natureza e de 
significar essa experiência, ou seja, de criar um certo tipo de sociedade. Mas, ademais, 
como povos e indivíduos, somo possuidores de uma característica particular: o "Ruray - 
ushay", a capacidade de fazer, de construir, criar, tanto individual, mas sobretudo 
coletivamente. Esta, para muitos, seria a capacidade ou característica que nos faz humanos 
e nos afasta do animal (ainda que nunca totalmente). Por outro lado, está a natureza - 
Allpamama - como sustento material da reproduçã;o dos povos e culturas, mas também como 
fonte de significações e saberes que tem acompanhado o longo processo de produção das 
diferentes socied ades humanas na história, e que agora está ameaçada pelos efeitos da 
cobiça e do egoísmo.

Estas duas fontes originárias da riqueza social são destruídas sob o capitalismo para 
acumular valores. Se destrói a natureza e as culturas do mundo para sustentar a vida 
opulenta de um grupo reduzido de pessoas no mundo. Este absurdo, como diz Echeverria, se 
observa quando olhamos a atual ofensiva da mineração transnacional em vários territórios 
da nacionalidade Shuar, a agressão aos povos, a seus modos de vida, e seu meio de 
reprodução social: a selva amazônica.

Mas a história da expansão do capitalismo nunca esteve isento de sua correspondente 
resistência, pois o que gera riqueza (o fazer) e os que se apropriam estão necessariamente 
unidos: "não há capital, não há acumulação possível, sem seres humanos criadores, 
fazedores". Os Shuar, povo guerreiro, tem habitado soberanamente o sul da Amazônia 
equatoriana e nordeste do Peru há séculos, muito antes de que os estados nacionais se 
construíram desconhecendo, como em todas partes de Abya Yala, a presença de nações 
originárias. O papel que o governo está fazendo ao apoiar frontalmente as t ransnacionais 
mineiras chinesas mostram a atualidade do racismo e a colonialidade de um Estado que 
despreza a presença imemorial dos povos indígenas. Quando o presid ente Correa diz que 
nesses territórios não existiam povos ancestrais não faz mais que verbalizar uma antiga 
ideologia segundo a qual a Amazônia era território baldio, e, portanto, disponível de 
exploração. Ao mesmo tempo, Correa fala por essa histórica missão dos estados coloniais da 
América: construir uma só nação passando por cima a presença dos povos originários.

Neste sentido, a luta da nação Shuar é diretamente contra o Estado colonial, contra essa 
estrutura de dominação que tem servido para subjugar aos povos indígenas em nome do bem de 
uma nação que nunca reconheceu na prática a pluralidade histórica desse país. Sua luta 
mostra a violência que este Estado colonial deve exercer contra os diferentes povos para 
tratar de se consolidar e culminar esse processo inconcluso, e inevitável que diz: "um 
Estado - uma Nação". Ao mesmo tempo, sua luta, mostra a "atualidade da pluralidade", como 
projeto de superação dessas estruturas políticas que não permitem a autodeterminação 
territorial das nacionalidades indígenas e de sua própria historicidade. O 
Estado-plurinacional - como sugere a antropóloga Rita Segato, deve ser uma garantia de 
reestruturação e autodeterminação dos povos, da "devolução da história, da capacidade de 
cada povo de desdobrar seu próprio projeto histórico". E isto é justamente o que está em 
jogo na luta do povo Shuar contra a política extrativista deste governo.

Mas, além do mais, a agressão das transnacionais mineiras chinesas em território Shuar 
mostram outra dimensão da luta, desta vez contra o capitalismo selvagem. No mundo 
capitalista, segundo Bolívar Echeverría, a reprodução da vida social de todo povo se faz 
possível de forma subordinada à lógica de acumulação do capital. Os seres humanos, como 
indivíduos e povos, não logram autodeterminar totalmente seu modo de reprodução social, 
senão que o vivem de forma alienada.

"[...]porque seu processo natural de reprodução não obedece a um télos próprio capaz de 
sintetizá-lo, senão a um alheio que é o télos ‘cósico' do valor instalado como sujeito que 
se autoafirma, que se valoriza: o télos da acumulação capitalista".

Em palavras mais simples, a lógica do capital não permite aos povos decidir livremente sua 
forma de vida coletiva, mas sim lhe impõe uma vida que serve majoritariamente à acumulação 
de riqueza para uns poucos. Nessa lógica, a natureza e os seres humanos se tornam coisas, 
mercadorias que se compram, vendem, consumem, exploram. A luta do povo Shuar contra a 
grande mineração capitalista é também contra essa lógica coisificadora, é uma luta por 
manter aberta a possibilidades de ser sujeitos, de poder decidir os termos de convivência 
histórica por fora das coerções do capital, de poder seguir construindo sua hist& 
oacute;ria junto à Sachamama (selva). A resistência Shuar à grande mineração chinesa 
desafia portanto o controle do capital sobre o ser humano, o s povos e a natureza. Mostra 
que os povos ao longo do tempo não só somos vítimas da agressão capitalista e do estado 
colonial, senão que no fundo somos - apesar dos efeitos da dominação - sujeitos que lutam 
diariamente por construir um caminho que nos permita concretizar nossos próprios projetos 
de sociedade. É uma aposta pela possibilidade de ser livres.

Inti Cartuche Vacacela

Fonte: 
https://periodicoacracia.wordpress.com/2017/02/08/acracia-62los-shuar-contra-el-estado-y-el-capital/

Tradução > KaliMar

https://periodicoacracia.wordpress.com/2017/02/08/acracia-62los-shuar-contra-el-estado-y-el-capital/


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