(pt) Coordenação Anarquista Brasileira [CAB]: Nós anarquistas saudamos o 8 de março: dia internacional de luta e resistência das mulheres!

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Segunda-Feira, 6 de Março de 2017 - 10:28:46 CET


As mulheres da Coordenação Anarquista Brasileira aproveitam a data de 8 de março para 
lembrar uma vez mais que tal dia é um dia de luta e memória; assim como tem sido todo o 
tempo, mulheres se rebelam! Contra o patriarcado, contra o machismo, contra a falta de 
direitos, contra o Estado, contra o capitalismo, mulheres têm se revoltado sempre! ---- De 
8 de março de 2016 para 8 de março de 2017, travamos muitas e muitas lutas, nas mais 
diversas barricadas. Dentro dos limites de nosso país, vivenciamos uma série de ataques 
que se interligam por um mesmo centro, o projeto da direita para o Brasil. ---- governo do 
PT e sua consequente derrocada, golpeando o povo com sua política de pacto social; o 
impeachment e o novo golpe que colocou Temer no poder para dar vazão aos retrocessos que 
temos visto; as várias investidas da direita, que agora se organiza, também, no hipócrita 
MBL (Movimento Brasil Livre); compõem a força motriz dos de cima para massacrar os de 
baixo. Por outro lado, a essa força, o povo tem respondido com mais força e organização; 
muitas vezes, reaprendendo, na prática, o caminho da luta e seus novos desafios. Caminho 
que tem apontado, cada vez mais, para a ação direta, organização, autogestão, unidade. Aos 
ataques dos de cima, as mulheres de baixo responderam com protagonismo, ao comporem todas 
as frentes de batalha: no movimento estudantil, no sindical, nos de bairro/comunitários, 
nas periferias, no campo e na cidade; e ao encamparem lutas específicas em torno de seus 
direitos de reprodutivos e de sexualidade e contra todos os tipos de violência contra a 
mulher.

A luta das meninas nas ocupações das escolas

             Nos ataques contra a educação, as estudantes secundaristas foram as que mais 
reagiram, ocupando escolas, fazendo atos públicos, recriando os mecanismos de luta da 
esquerda. As mulheres, garotas, meninas, estão se colocando nesse processo como 
protagonistas da luta secundarista, apartidária e autogestionária. Vimos em várias 
escolas, no cotidiano das lutas que travamos juntas, nas reportagens e gravações, a 
participação feminina e o quão isso é importante para manter as ocupações ativas. Além 
disso, vimos a abertura para o debate das opressões de gênero e machismos nas próprias 
ocupações, nas escolas e num projeto de educação que vem sendo secularmente implementado, 
algo que não tem muito espaço nas salas de aula.

              Foi essa participação que garantiu o debate em torno das questões de gênero 
dentro das ocupações, demonstrando, ainda, que estudantes têm interesse em debater e 
aprender sobre a questão, possibilitando a desconstrução dos padrões normativos. Tal fato 
é mais importante ainda quando essas desconstruções são atacadas todos os dias nas escolas 
e, agora mais sistematicamente, pelo governo e pela bancada religiosa, buscando 
classificar como "ideologia de gênero" toda e qualquer abordagem crítica de temas e 
assuntos que se refiram às mulheres e à sexualidade. Esses ataques estão incorporados ao 
Projeto Escola Sem Partido, que tem se espalhado pelo Brasil via Projetos de Lei nos 
níveis municipal, estadual e federal.

             O Escola Sem Partido tenta colocar uma mordaça em professores da Rede Básica 
de Ensino, cerceando o debate crítico dentro das escolas públicas. Visam perseguir 
professores, retirando a sua autonomia de ensino, a liberdade de pensamento na escola, 
contribuindo com a manutenção de uma sociedade racista, machista, homofóbica e desigual. 
Trabalhadoras da Educação e de outros setores e estudantes manifestaram sua resistência ao 
Escola Sem Partido nas fileiras de luta Brasil à fora; onde existe projeto de lei com esse 
teor, existe resistência e existe resistência das mulheres!

A luta das mulheres no campo

No campo, observamos o aumento dos conflitos fundiários provocado pelo avanço do 
Agronegócio. O governo Dilma foi fechado com um saldo negativo para os movimentos sociais 
do Campo, ao contrário do que querem fazer parecer atualmente. Ele assentou menos famílias 
do que os governos Lula e FHC (segundo dados do INCRA). Os acordos com a bancada ruralista 
fizeram com que o governo sacrificasse o assentamento de famílias sem-terra, a demarcação 
de terras indígenas e a regularização de áreas de comunidades remanescentes de quilombos. 
A Medida Provisória 759 / 2016 de Michel Temer, que altera as regras relacionadas à 
reforma agrária no país, vem para aumentar o retrocesso.

             Mulheres camponesas, agricultoras, arrendatárias, meeiras, ribeirinhas, 
posseiras, bóias-frias, diaristas, parceiras, extrativistas, quebradeiras de coco, 
pescadoras artesanais, sem-terra, assentadas - que se organizam em movimentos auto 
organizados - como o Movimento de Mulheres Camponesas - ou movimentos mistos camponeses - 
como o Movimento de Pequenos Agricultores - lutaram e conquistaram o reconhecimento da 
profissão de trabalhadora rural, o salário maternidade, a aposentadoria da mulher da roça 
aos 55 anos, entre outros. Nesta conjuntura de avanço de um projeto conservador e de 
direita sobre nossos direitos sociais, temos o desafio de proteger os direitos que 
conseguimos até aqui, bem como continuar na luta por outros.

A conjuntura de ataque aos nossos direitos

             Esses meses também marcaram a tentativa de impor retrocesso ainda maior às 
políticas públicas que se referem à mulher. Em 2016, essa tentativa ficou simbolizada por 
Cunha e o seu Projeto de Lei 5069 / 2013. O PL 5069 dificulta o atendimento às mulheres 
vítimas de estupro e ataca seu direito ao aborto, por meio, principalmente, de uma 
burocratização desse atendimento; burocratização que coloca em risco nossa vida. Em, 
praticamente, todos os estados do país, mulheres se levantaram contra Cunha e o PL, 
reivindicando, mais uma vez, a autonomia sobre seu corpo e de suas escolhas, reivindicando 
o direito primário de atendimento humano e digno nos casos de estupro. Lembramos que a 
Cunha e a esse projeto, bem como aos muitos ataques da direita, tem se atrelado o MBL; o 
mesmo MBL que, recentemente, publicou um texto querendo propagar a ideia mentirosa de que 
não existe cultura de estupro no Brasil. Além de nossas diversas lutas, temos agora o 
desafio de fazer frente aos ataques dessa direita organizada no MBL, que falta somente 
querer dizer que também não existem estupros e machismos em nossa sociedade. Compomos, sem 
dúvidas, essa frente!

             Neste exato momento, enfrentamos uma série de ataques aos direitos 
trabalhistas e previdenciários da classe trabalhadora. Em meio a eles, nós mulheres temos 
ameaça maior, ao vermos o direito à aposentadoria diferenciada ser colocado em xeque pelo 
Governo e o Senado. A reforma da previdência anunciada vem para atender os interesses dos 
de cima e colocar a conta, novamente, nas costas dos de baixo. Essa avalanche vai cair 
diretamente sobre as mulheres. No caso das professoras, duplamente, pela ameaça à retirada 
de aposentadoria especial para sua profissão (que prevê aposentadoria com 25 anos 
trabalhados e contribuindo) e pela ameaça da aposentadoria diferenciada das mulheres em 
geral. É tempo de resistência das mulheres trabalhadoras, das de baixo; e elas estão 
respondendo com toda força! O apelo por uma greve geral de mulheres no 8 de março de 2017 
simboliza bem essa necessidade! É assim que entendemos também o apelo "Por uma greve 
internacional militante no 8 de março", lançado no manifesto assinado por Angela Davis e 
Nancy Fraser. Os chamados internacionais, protagonizados inicialmente pelas mulheres na 
Argentina (Ni una menos) e nos EUA (Marcha das mulheres contra Trump), adaptam-se bem à 
conjuntura brasileira de ataque aos direitos da classe trabalhadora e, em maior medida, 
das mulheres (direitos trabalhistas, previdenciários, reprodutivos, à não-violência...). 
Entendemos que o chamado é internacional, mas a mobilização deve ser por meio de trabalho 
social cotidiano, desde baixo!

Opressões que caminham juntas

             Na intersecção entre classe, raça e gênero, as mulheres negras da periferia 
são atingidas pelo extermínio do povo preto. Suas filhas e filhos, sobrinhas, sobrinhos, 
vizinhas e vizinhos estão sob constante ameaça do braço armado do Estado e, a cada dia, o 
medo de morrer ou perder uma filha ou um filho é maior. A insegurança, medo e indignação 
fazem com que essas mulheres lutem cotidianamente pelo seu povo e unam suas forças nessa 
campanha em grupos como o Mães de Maio e o REAJA. Também lidam com o apoio e sustento 
familiar muitas vezes sozinhas, mostrando o quão são fortes e o peso que recai sobre suas 
costas.

             Na intersecção entre classe, gênero e sexualidade, vivenciamos, ainda, a 
dificuldade nas condições precarizadas de vida e trabalho das mulheres. No Brasil, a 
expectativa de vida de uma travesti e transexual brasileira é aproximadamente 35 anos, 
enquanto a expectativa de vida de um brasileiro médio é 74,6 anos. O Brasil lidera o 
ranking de violência transfóbica, sendo o país no qualmais se mata travestis e transexuais 
no mundo. Soma-se a isso, a dificuldade da realização de cirurgias de transgenitalização. 
A mesma dificuldade existe para a redefinição de nomes nos documentos essenciais ou a 
utilização do nome social em instituições.

Organização das mulheres anarquistas nas lutas das de baixo

             E nós, mulheres anarquistas, queremos dizer que estaremos sempre na luta, 
lado a lado com as diversas mulheres que são atingidas no dia a dia pelo machismo, 
sexismo, capitalismo e pelo Estado. Não daremos nenhum passo atrás nessa luta! Também 
estamos presentes e combatentes contra o machismo dentro da própria esquerda, dos 
movimentos sociais e do próprio anarquismo. Somos solidárias a toda e qualquer companheira 
que venha a sofrer opressões, a cada companheira que queira nos dar a mão. Estamos de olho 
e rediscutindo o anarquismo a partir de um feminismo que atenda as demandas da nossa 
formação social e racial, na busca por uma proposta não só de classe, mas também de gênero.

Estamos aqui para buscar o espaço das mulheres na luta e de forma igualitária, afinal, a 
revolução será feminista, ou não será! A exemplo das lutas internacionais, mulheres 
curdas, zapatistas, argentinas etc., nós, mulheres brasileiras, também estamos em luta! E 
nós, mulheres anarquistas, nos colocamos, sempre ombro a ombro, ao lado das de baixo, 
nessa luta!

Coordenação Anarquista Brasileira

  Nota publicada em: https://anarquismo.noblogs.org/?p=616

https://anarquismorj.wordpress.com/2017/03/03/cab-nos-anarquistas-saudamos-o-8-de-marco-dia-internacional-de-luta-e-resistencia-das-mulheres/


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