(pt) [25 de julho] DIA DA MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA by Coordenação Anarquista Brasileira CAB

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Sábado, 29 de Julho de 2017 - 08:14:46 CEST


TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO! ---- "[...]. É preciso compreender que classe informa a 
raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como 
a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente 
precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe, gênero, de 
forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que 
são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre a outra." ---- Ângela 
Davis. ---- Nós Negros e Negras e a condição de escravidão. ---- A estimativa é que, ao 
longo de 400 anos, tenham sido retirados da África 12,5 milhões de pessoas, em uma das 
maiores migrações forçadas da história. O Caribe e a América do Sul receberam 95% dos/as 
negros/as que chegaram às Américas. O Brasil recebeu quase a metade dos 11 milhões de 
pessoas escravizadas desembarcadas nas Américas.

O comércio da escravidão serviu como sustentáculo para a criação do capitalismo, quer pela 
acumulação de riquezas nas metrópoles - uma vez que o tráfico transatlântico foi o que 
gerou receitas para a criação das indústrias na Europa -, quer pelo próprio mercado da 
escravidão, que foi o negócio mais rentável nas Américas e que possibilitou a feitorização 
das colônias ameríndias para os séculos de exploração brutal e desenfreada das nossas 
"veias abertas": as empresas negreiras eram altamente sofisticadas do ponto de vista 
empresarial, trabalhavam com altíssimas taxas de lucro - cerca de 20% líquidos por viagem*.

A colonização não teve apenas um sentido econômico central, possuiu também outros sentidos 
condicionantes, como o político e o social. Durante a colonização, houve um contato 
violento entre as culturas negras, indígenas e europeias, envolvidas em um projeto racista 
da elite brasileira, que investiu em um embranquecimento gradual e silencioso, mascarado 
de "democracia racial". Moramos num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil, feito de 
três raças tristes como já disse Belchior, mas esse mito das três raças que geram pela 
harmonia delas uma nova etnia, a brasileira, não é mais do que pura mentira, esconde toda 
a violência que sofreram as raças subjugadas nesse processo de dominação. É desse mesmo 
mito que surge as pérolas que dizem: "no Brasil não existe racismo", "eu não sou racista" 
e que não conseguem enxergar que mesmo não havendo uma política de diferenciação, como foi 
o aparthaid dos EUA e da África do Sul, a integração brasileira foi tão sangrenta quanto. 
A verdade é que a formação do povo brasileiro surgiu de um estupro colonial, sagrado e 
paternal: a supremacia branca através do poder do Estado provocou um genocídio do povo 
negro e indígena, explorando nosso povo para a produção de riquezas. A palavra "estupro" é 
fundamental na descrição: concebido com a intenção de intimidar e aterrorizar as mulheres, 
os proprietários de escravos encorajavam seu uso terrorista para colocar as mulheres 
negras em posição de inferioridade. Praticamente todas as narrativas sobre a escravidão no 
século XIX trazem relatos de violência sexual sofrida pelas mulheres nas mãos de senhores 
e feitores, a conjugação da supremacia branca e masculina. Os portugueses já eram um povo 
mestiço antes da chegada ao Brasil, devido seu contato histórico com sarracenos, árabes e 
africanos. Por isso, não detinham o medo de "poluir-se" como tinham os dominadores 
norte-americanos e sul-africanos. Logo, parte do projeto de embranquecimento das nossas 
elites vinham pela prática do estupro. Já a palavra "sagrado" coloca-se em questão, pois 
tudo isso foi feito com as bênçãos de uma igreja branca e patriarcal (papa), de imagem e 
semelhança de seus deuses brancos, na qual proliferava aos quatro ventos e em favor dos 
ricos, que negros e negras não tinham alma à serem salvas.

Com a abolição formal da escravidão, não houve a tão sonhada integração do negro à 
sociedade de classes, o que gerou criminalidade e encarceramento. A opção por imigrantes 
não foi só uma opção de trabalho, mas de branqueamento da população, em uma "segunda fase" 
do projeto das elites brancas. Vivemos em uma sociedade racista, que explora e maltrata 
nosso povo negro desde violências policiais nas periferias urbanas e nas comunidades 
quilombolas, a violências simbólicas e institucionais.

Violências de gênero, classe e raça.

O racismo brasileiro encontra na misoginia um mecanismo eficiente de opressão. O racismo 
institucional atinge as mulheres negras assustadoramente, tendo em vista que são as mais 
afetadas pelas desigualdades socioeconômicas de um país ainda escravocrata e que vive um 
retrocesso dos direitos conquistados com muita luta pelos/as de baixo. Todas as reformas, 
Propostas de Emenda Constitucional e Medidas Provisórias arquitetadas pelos de cima vêm 
para atingir todos/as os/as de baixo, mas que terão impacto diferenciado sobre grupos 
historicamente esquecidos como as mulheres negras que são as que menos terminam o Ensino 
Fundamental e Médio, tampouco o Ensino Superior. São também as que mais trabalham, porém 
com rendimento mínimo e em condições de subemprego. São as que menos recebem assistência 
do SUS (como menor tempo de atendimento, maior mortalidade infantil e por doença 
falciforme etc.), o saneamento básico não chega em todas as nossas comunidades, fazendo 
com que sejamos as mais atingidas por doenças. De acordo com o mapa da violência (2015) o 
homicídio das mulheres negras cresceu em 54,2%. Em relação a violência doméstica 58,86% 
são de mulheres negras. A mortalidade materna das mulheres negras também é a maior com 
53,6% e são as que mais precisam abdicar de algum aspecto de nossas vidas para dar conta 
de todas as barreiras colocadas pela supremacia branca e patriarcal - seja o trabalho que 
se quer, o lazer que se gosta, a família unida, dentre tantos outros.

Nos centros penitenciários femininos, segundo o Levantamento Nacional de Informações 
Penitenciárias (Infopen) de 2014, duas a cada três detidas eram negras (68%). Das detidas, 
57% eram solteiras, 50% tinham o Ensino Fundamental Incompleto e 50% tinham entre 18 e 29 
anos. O Brasil é o 5º maior com população carcerária feminina. Esse é só um retrato do 
extermínio e da criminalização da população pobre, negra e periférica que tem suas vidas 
ceifadas através do braço armado do Estado - a polícia. Ainda de acordo com o Infopen, o 
tráfico de drogas é o crime que mais prende mulheres no Brasil. Esse número chega a 68%, 
seguido por roubo (10%) e furto (9%).

A guerra às drogas justifica a morte do povo negro nas favelas. E são as mulheres negras 
que mais sofrem com o extermínio de seus filhos/as, tendo em vista que os pais abandonam 
as crianças mesmo até antes de nascer.

A mídia contribui para a sensualização do corpo da mulher negra, o que é determinante para 
os casos de estupros. Como exemplo típico, é a mulher negra e jovem (e por que não dizer, 
nordestina no caso do Brasil?) que é a mais objetificada no Carnaval. Sem falar nas 
propagandas de cerveja, carro e outras mercadorias que, para serem vendidas, têm seu valor 
adjetivado pelo corpo feminino, na maioria, corpo de mulheres negras. A mídia reforça e 
naturaliza a concepção de que "a carne mais barata do mercado é a negra" e serve para 
apreciação e uso pelo homem.

As mulheres negras também sofrem quando não podem manifestar sua espiritualidade, cultura 
e religiosidade. São inúmeras as violências contra a umbanda e o candomblé - religiões de 
matriz africana - além da criminalização. Em 2015, casos como o da menina Kaylane Campos, 
atingida com uma pedrada na cabeça, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, 
quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas, e 
de um terreiro de candomblé que foi incendiado em Brasília nos mostra o quanto a 
intolerância aliada à supremacia branca e cristã produz racismo e violência, disseminando 
o ódio.

Negras Resistências

Cada mulher negra que se mantém caminhando e enfrenta o racismo e o machismo em sua rotina 
diária é um ícone de força e celebração da negritude.

Desde o início da escravização no Brasil as mulheres negras permanecem firmes em 
resistências. Quer por meio de ação direta, como faziam as nossas velhas pretas nas 
cozinhas dos brancos, quer por meio da resistência organizada nos quilombos. Em muitos 
casos, a resistência das mulheres negras envolvia ações mais sutis do que revoltas, fugas 
e sabotagens, incluía por exemplo aprender a ler e a escrever de forma clandestina, bem 
como repassar para as mais novas conhecimentos tidos como subversivos pelos senhores.

Atualmente, a organização em movimentos sociais mistos, porém auto-organizados por 
identidade de gênero ou racial, são nossas ferramentas de luta. Só a organização e a 
autodefesa das mulheres negras contra o machismo, a supremacia branca, o capitalismo e o 
Estado podem nos libertar. Temos ciência que a luta parlamentar não nos trará frutos de 
resistência, pelo contrário, fortalecerá as novas correntes de escravidão.

O silenciamento de Tereza de Benguela - mais uma mulher negra negligenciada pela história 
brasileira - representa uma forma de fazer história para a qual não podemos nos curvar. 
Uma história branca, machista e eurocêntrica, que entoa muitos feminismos, mas que não 
cabe nas nossas fileiras. Grita a necessidade de construirmos um feminismo nosso, não 
eurocêntrico, com nossas raízes indígenas e quilombolas.

Viva Dandara!

Viva Tereza de Benguela!

Viva Negra Bonifácia!

  https://anarquismo.noblogs.org/?p=784

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[1] * http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252011000100021&script=sci_arttext

https://anarquismo.noblogs.org/?p=784


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