(pt) www.anarkismo: Moro condena Lula, a disputa pela agenda pré-2018 e o múltiplo conflito by BrunoL

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Quarta-Feira, 26 de Julho de 2017 - 07:13:07 CEST


O juiz Sérgio Moro condena ao ex-presidente Lula em primeira instância e lança a 
social-democracia em campanha antecipada. ---- Introdução deste cenário complexo ---- O 
relatório na CCJ terminou reprovado por 40 a 25, com o governo emplacando o substitutivo 
por placar de 41 a 24. Considerando que o Jaburu trocou 20 membros ao longo da montagem da 
Comissão para apreciar a denúncia, então está parelha a coisa em plenário. Assim, durante 
o curto recesso do Congresso nesta segunda quinzena de julho, observamos as manobras de 
aproximação e afastamento entre Michel Temer e o deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ). 
Simultaneamente, o racha da direita aumenta, com a base de Temer apontando as baterias 
contra a Globo e apoiando, tacitamente, a correta ofensiva da Record. No caminho inverso, 
o ex-secretário de Segurança de Quércia e Fleury Filho, é o alvo permanente da emissora 
líder. As razões - ou as possíveis motivações - constam de tese desenvolvida por Luis 
Nassif, a qual este analista corrobora. O alvo simultâneo do telejornalismo em rede 
nacional, aborda tanto o ex-presidente Lula e a condenação sem provas cabais por Sérgio 
Moro, como termina fazendo discurso de apoio às leis regressivas e retirada de direitos 
através da contrarreforma ou restauração burguesa levadas a cabo no Brasil pós-golpe. São 
rodadas múltiplas de um cenário que ultrapassa o binarismo.
Moro deu um nó na política nacional

No dia de julho de 2017, o país assistiu a já esperada condenação do ex-presidente Luiz 
Inácio Lula da Silva. O feito veio de Curitiba e pode ser inserido na guerra 
jurídico-política midiática instaurada no Brasil através da Operação Lava-Jato. Sérgio 
Moro é um magistrado de primeira instância e se revelou o senhor do tempo. No momento 
perfeito - maquiavelicamente perfeito como este analista afirmou nos instantes após a 
sentença - condena o ex-presidente Lula em uma sentença de 238 páginas. Logo, uma peça 
jurídica desta envergadura, não foi feita às pressas, pela lógica isso seria impossível. 
Quando a sentença foi preparada, quando a mesma foi concluída? Quanto tempo as páginas 
ficaram na gaveta (linguagem figurada antes que me chamem de antiquado) antes de seguir o 
caminho processual? Vamos supor que foi tudo coincidência - supondo com vontade de 
suposição para não arriscar uma ilação que venha a me processar - logo, foi uma combinação 
perfeita, embora probabilisticamente improvável. Sendo ou não um "acaso", o momento 
preciso levou Moro para o epicentro da política nacional. Novamente.

Um dia após o esquartejamento dos direitos do mundo do trabalho (o óbio foi assinado pelo 
Senado em 11 de julho e sancionado na íntegra pelo presidente ilegítimo Michel Temer no 
dia seguinte), simultaneamente a longa sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) 
da Câmara cujo relator tem vínculos familiares históricos com as Organizações Globo, o 
juiz que representa a mentalidade da UDN do Paraná e o emprego de Lawfare no Brasil, 
condena o fiador do pacto de classes. De imediato, pela afirmação acima, a bandeira de 
defesa incondicional dos direitos conquistados - essa unitária das esquerdas e 
centro-esquerdas - se vê contra a parede. Em 1954, o varguismo hegemonizava o imaginário 
popular. No século XXI, o lulismo o substitui.
Lula é a representação do modelo de crescimento com distribuição de renda sem mudança na 
correlação de poder e força na sociedade. Logo, é o único que poderia "pacificar" o país, 
especialmente na liderança do bloco de interesses populares, mesmo que sob a condução 
ex-reformista e social-democrata. Assim, através da condução política de seu partido e com 
a brilhante defesa de seus advogados, o calendário eleitoral de 2018 se impõe - ou vem 
tentando ser imposto - sobre as demais pautas.

Por obviedade, observamos a indignação com pesos distintos. A defesa de Lula mobiliza mais 
suas bases sociais do que a defesa do direito coletivo. Ao afirmar que uma eleição 
presidencial sem a possibilidade de Luiz Inácio concorrer é uma eleição ilegítima, seus 
apoiadores têm razão. Se todas as esperanças forem colocadas no pleito presidencial do ano 
que vem, como lutar para garantir o que resta - como a Previdência em seu regime geral - 
sem reproduzir o reboquismo que tanto mal já fez ao povo em momentos anteriores. Vale 
observar momentos de nossa história política assim como de um país hermano.
Cada vez mais observo analogias com o interregno de democracia liberal limitada do Brasil 
entre 1945 e 1964, ou o período da Argentina após a derrubada de Perón, em 1955. No país 
vizinho, o peronismo era proibido de concorrer após sua derrocada (com a "revolução" 
Libertadora dos militares gorilas, em setembro de 1955) e os mandatos presidenciais nunca 
terminavam. Nem por isso houve fechamento de entidades de base ou sindicais ligadas ao 
Justicialismo. Nem no regime militar inaugurado em junho de 1966 com o general Onganía 
como seu primeiro presidente. A repressão generalizada foi decorrência também da guerra 
civil peronista, entre 1972-1976, concluindo já na ditadura genocida de Videla e a Junta 
Militar (1976-1983). Com a licença da comparação histórica, entendo que vivemos momentos 
de democracia liberal contida, limitada, cujo Poder Moderador - não sei por quanto tempo - 
é o aparelho Judiciário (em franca disputa interna, tanto de controle como de doutrina).

Ao condenar Lula no epicentro do terremoto político e social do país, Moro deu um nó na 
política nacional. Com isso escanteou ainda mais a esquerda restante - eleitoral ou não - 
e coloca o reboquismo como a bandeira a ser debatida ou derrotada no embate - saudável e 
não sectário - para com o bloco da centro-esquerda. O momento realmente é muito difícil.

Jogos simultâneos e a tarefa mais urgente

A prepotência dos paladinos de toga é tamanha que, de forma astuta, a defesa do presidente 
- perfeita na sua argumentação - colocou Temer e Lula como alvos do arbítrio. A defesa do 
residente no Jaburu aponta o inimigo comum, o MPF - Força Tarefa de Curitiba - tendo Lula 
como alvo; e a PGR com Janot à frente, tendo como alvo ao ex-vice de Dilma, Michel Temer. 
Reconheço o talento do advogado, mas repudio a comparação. Mesmo entendendo a necessidade 
do Fora Temer, até frear momentaneamente o golpe parlamentar-institucional - taticamente e 
interromper a cessação de direitos, taticamente também - vejo que o defensor Antônio 
Cláudio Mariz faz a manobra perfeita. Traz para o seu argumento o Judiciário X o MPF, e 
entra na guerra da doutrina Romano-Germânica X o Anglo-saxão e a cultura punitiva e 
negocial. A argumentação de Mariz é direta, mas sem memória. Seu cliente usou e abusou 
desta para derrubar Dilma e agora se apavora porque Janot quer lhe pegar também. A crítica 
aos grupos de mídia também acerta no alvo, mas obviamente fora de lugar, no simples uso do 
oportunismo.

O país está na grelha e a massa vai sendo incinerada ainda em fogo alto. Temos uma coleção 
de ataques de todas as dimensões: há subordinação geopolítica - não mais projeção 
geoestratégica - risco de massificação dos interesses externos e o reboquismo que acua a 
esquerda restante diante da cruzada da UDN contra Lula. Os tempos são duros, está difícil, 
mas entendo que é preciso fortalecer o que existe à esquerda do lulismo, preferencialmente 
passando distante dos arranjos pré-eleitorais. Não tem sentido algum, agora, publicamente, 
ficar se batendo com a social-democracia (não que não mereça, ou ainda o stalinismo 
restante), mas temos de nos concentrar no que é central. Se o líder carismático é chave 
para os partidos de centro-esquerda apoiadores do governo deposto, a perda de direitos e a 
resistência para retomar ou perder menos é central para quem luta socialmente.

A condenação de Sérgio Moro foi de um tempo perfeito, cronometrada, no meio da votação da 
CCJ, logo após a perda de direitos duramente conquistados após mais de 40 anos de 
ilegalidade (1889-1932). É assim mesmo, quem sabe controlar a agenda de seus tempos e 
processos se antecipa na luta de classes e popular. Vamos como sempre, paciência 
histórica, convicção ideológica, lealdade para com a maioria e trabalho de inserção com 
debate e difusão ininterruptos.

Temos muito a fazer, incluindo redescobrir o nós. Se a social-democracia, os 
liberais-democratas e os stalinistas querem reconquistar o centro da política, tudo bem. 
Esta é sua coerência interna. E a coerência interna das esquerdas, eleitorais ou não? Por 
aí seguimos no debate.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais
(www.estrategiaeanalise.com.br / estrategiaeanaliseblog.com / blimarocha  gmail.com para 
E-mail e Facebook)

http://www.anarkismo.net/article/30399


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