(pt) A grande greve de 1917: Levante anarquista By A.N.A.

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Terça-Feira, 18 de Julho de 2017 - 09:09:47 CEST


Há 100 anos, imigrantes encabeçavam um dos maiores levantes de trabalhadores da história 
do país ---- Por Márcio Sampaio de Castro ---- Na virada do século 20, o Brasil havia se 
tornado o novo lar de cerca de 1 milhão de italianos. Fugindo de uma severa crise 
econômica no país natal, a grande maioria chegava para tentar a sorte nas fazendas do 
interior paulista ou nas fábricas de São Paulo. Alguns, entretanto, atravessavam o oceano 
Atlântico com uma outra missão: difundir o anarquismo. Enquanto seus conterrâneos sonhavam 
em enriquecer, os imigrantes anarquistas queriam mesmo era derrubar o capitalismo. Como 
sabemos hoje, eles não conseguiram. Mas deixaram aos trabalhadores brasileiros uma lição 
importantíssima: sem organização e luta, ninguém conquista seus direitos.

A palavra "anarquia" vem do grego e significa, literalmente, "sem governo". A ideia de 
viver sem ter que obedecer a alguém talvez seja tão antiga quanto a própria obediência. 
Mas foi só em meados do século 19 que o anarquismo se tornou uma corrente de pensamento. 
Conforme a indústria se desenvolvia na Europa, essa ideologia se espalhava entre os 
trabalhadores. No Brasil, a industrialização era novidade - e os anarquistas italianos 
queriam, desde o começo, contagiar o operariado daqui com suas ideias revolucionárias.

Um desses anarquistas foi Oreste Ristori. Ele desembarcou no porto de Santos, no litoral 
paulista, em 1904, depois de uma rápida passagem pela Argentina. Nascido 30 anos antes, na 
região da Toscana, ele passara um bom tempo nas cadeias de seu país. O motivo foi seu 
envolvimento com ações como o incentivo a greves e a distribuição de panfletos contra a 
autoridade do Estado. A vinda ao Brasil era uma ótima oportunidade para fazer tudo isso de 
novo.

Ristori seguia os passos de um ex-companheiro de prisão: o também anarquista Gigi Damiani, 
que chegara a São Paulo em 1897. Naquele início de século, vários militantes da causa já 
estavam estabelecidos na capital paulista. Seu principal campo de atuação eram os bairros 
operários, como o Brás, a Mooca e o Belém, onde viviam e trabalhavam milhares de 
imigrantes. Submetidos a jornadas exaustivas, que muitas vezes alcançavam 16 horas por 
dia, os operários da indústria paulistana formavam o público ideal para o discurso 
anarquista. Segundo ele, os operários de todos os países deviam lutar, juntos, contra a 
opressão. Trabalhar para um patrão, obedecer a um governante, confessar-se a um padre: 
tudo isso acabaria quando o anarquismo conquistasse sua vitória.

Os donos das grandes indústrias paulistas sabiam que, cedo ou tarde, teriam que enfrentar 
as greves de operários, já comuns na Europa. Antecipando-se a isso, eles passaram a dar 
preferência a mulheres e crianças na hora da contratação. Além de ganhar menos, eles eram 
considerados mais fáceis de ser controlados. Mas isso de nada adiantaria para conter o 
movimento que estava por vir.

Lições libertárias

Os ideais anarquistas circulavam em diversos panfletos e jornais. Muitos deles eram 
escritos diretamente em italiano. Esse era o caso de La Battaglia, o periódico que Oreste 
Ristori e Gigi Damiani fundaram, ao lado de outros anarquistas, em 1904. Impresso em São 
Paulo, ele muitas vezes cruzava as fronteiras do estado. Ristori costumava viajar para 
divulgar o La Battaglia, percorrendo o interior paulista, o sul de Minas Gerais e o Rio de 
Janeiro. Sua fama de grande orador precedia sua chegada. Sério, bradava contra a opressão 
dando baforadas no cachimbo. Mas, ao fim de cada discurso, Ristori se descontraía: 
arrumava um violão e abria uma roda para entoar cantos revolucionários.

Influenciados pelos italianos, os brasileiros também produziam periódicos anarquistas. Em 
1905, Edgard Leuenroth botou nas ruas o jornal Terra Livre, feito em parceria com o 
português Neno Vasco. O editorial do primeiro número dizia: "Tomamos o nome de anarquistas 
libertários porque somos inimigos do Estado. Somos anarquistas porque queremos uma 
sociedade sem governos".

Outro veículo importante para a propaganda anarquista eram peças de teatro, com textos 
vindos da Europa ou escritos aqui mesmo. A crítica social estava por todos os lados. "É 
claro que havia um certo maniqueísmo, pois o trabalhador era sempre bom e o patrão era 
sempre o vilão. E as peças anticlericais mostravam a Igreja defendendo os interesses do 
capitalismo explorador", disse o anarquista Jaime Cubero à pesquisadora Endrica Geraldo, 
da Universidade Estadual de Campinas, num depoimento dado em 1994. O palco preferido para 
essas montagens, que ocorriam semanalmente, era o Teatro Colombo, que ficava no Brás.

A disseminação das ideias anarquistas também acontecia nas salas de aula. Numa época em 
que o governo brasileiro mantinha pouquíssimas instituições de ensino, surgiram as 
chamadas Escolas Modernas. Inspiradas no método do anarquista espanhol Francisco Ferrer y 
Guardia, elas misturavam meninos e meninas (então uma inovação), defendiam o fim dos 
exames e dos castigos e, principalmente, uma educação científica, em oposição ao ensino 
religioso.

A primeira escola moderna de São Paulo, a Escola Nova, foi criada no Brás em 1909. Na 
década seguinte, outras surgiram - na capital, no interior e em outros estados. "A 
ignorância era vista como um dos principais inimigos dos anarquistas", diz a historiadora 
Edilene Toledo, autora do livro Anarquismo e Sindicalismo Revolucionário. "Estender a 
ciência aos pobres significava prepará-los para construir a sociedade futura."

Parar para lutar

Em 1905, em boa parte graças à luta dos anarquistas, foi criada a Federação Operária de 
São Paulo, que reunia as associações de trabalhadores da cidade. Em abril do ano seguinte, 
o Rio de Janeiro recebeu o 1º Congresso Operário Brasileiro, encontro que é considerado a 
origem do sindicalismo no Brasil. Lá foram erguidas bandeiras como o fim do trabalho 
infantil e a diminuição da jornada de trabalho para oito horas diárias.

Reunidos no Rio, os anarquistas tiveram oportunidade de traçar planos para o futuro. O 
resultado não demorou a aparecer: no dia 1º de maio de 1907, eclodiu a primeira greve 
geral da história do Brasil. Os primeiros a parar foram os metalúrgicos da empresa 
americana Lidgerwood, que exigiam redução da jornada de trabalho. Operários de diversas 
áreas foram paralisando suas atividades e fazendo reivindicações semelhantes.

A reação das autoridades viria 14 dias depois, com a polícia invadindo a sede da Federação 
Operária. Documentos foram apreendidos e militantes que haviam participado da greve foram 
presos. Para punir os que eram imigrantes, o governo tinha uma nova arma: a recém-aprovada 
Lei Adolpho Gordo, que previa a extradição dos operários estrangeiros envolvidos com 
tumultos. Apenas no ano de 1907, cerca de 130 trabalhadores foram expulsos do Brasil.

A greve, que durou até meados de junho, conseguiu fazer com que muitas empresas adotassem 
as oito horas de trabalho. Mas a repressão fez com que anarquistas como Oreste Ristori se 
afastassem da militância, temendo ser presos. Foi só dez anos depois da greve geral que o 
Brasil voltou a ver uma manifestação operária de grandes proporções. Por causa da crise no 
comércio exterior causada pela Primeira Guerra, iniciada em 1914, os preços aumentavam, os 
alimentos sumiam das prateleiras e os salários diminuíam. Enquanto isso, os patrões 
voltaram a esticar as jornadas de trabalho.

Em junho de 1917, os 2 mil empregados do Cotonifício Crespi entraram em greve em São 
Paulo. No mês seguinte, a paralisação já havia atingido cerca de 15 mil operários, de 
vários setores. Em 9 de julho, os trabalhadores organizaram uma passeata. A polícia 
avançou sobre a multidão com seus cavalos e atirou. Antonio Martinez, um sapateiro, caiu 
morto. O assassinato revoltou ainda mais os trabalhadores: dias depois, o movimento se 
tornou uma greve geral com 45 mil pessoas paradas - praticamente todos os operários da 
capital paulista.

Enquanto os anarquistas de São Paulo subiam nos palanques para inflamar os grevistas, o 
movimento atingia o Rio de Janeiro e o Paraná. Fábricas foram invadidas e depredadas, 
enquanto ocorriam novos confrontos com a polícia. Ainda em julho, um acordo permitiu que 
os operários voltassem ao trabalho. Tiveram a garantia de que seus direitos seriam 
respeitados e ganharam um aumento salarial de 20%.

Depois da greve, o governo fechou de vez o cerco contra os anarquistas. Em 1918, Gigi 
Damiani foi expulso do país (restabelecido na Europa, dedicaria-se a publicar textos que 
desaconselhavam a imigração para o Brasil). Para evitar o mesmo destino, Oreste Ristori 
fugiu para a Argentina. Já as Escolas Modernas não escaparam: sofreram uma campanha de 
difamação pública e foram fechadas na virada dos anos 1920.

O ano de 1917 trouxe, além da greve, outro acontecimento que marcou o declínio do 
anarquismo no Brasil. Foi a Revolução Russa, que fez com que os comunistas ganhassem 
espaço no operariado brasileiro. Enquanto os anarquistas pregavam a abolição imediata do 
Estado, os comunistas defendiam que o poder não acabasse de uma hora para outra, mas 
passasse às mãos dos trabalhadores. A vitória de Lênin e seus camaradas parecia mostrar 
que esse era o melhor caminho a ser seguido.

Após chegar ao poder, na chamada Revolução de 1930, Getúlio Vargas deu o golpe de 
misericórdia na influência dos anarquistas. Ele decidiu não reprimir abertamente os 
operários, mas atraí-los para perto de si. Os sindicatos foram absorvidos pelo Estado e 
"amansados": como eles agora eram órgãos oficiais, não podiam se opor ao governo. Enquanto 
isso, a polícia de Vargas caçava os militantes que podiam ameaçar a nova ordem. Uma das 
vítimas foi Oreste Ristori. De volta da Argentina, ele se opunha à aproximação entre o 
Brasil e a Itália do fascista Mussolini. Em abril de 1936, Ristori foi preso. Em junho, 
foi enviado para seu país natal - sete anos depois, seria descoberto pelos fascistas na 
cidade de Empoli e fuzilado.

Nos anos 1930, enquanto o anarquismo era abandonado pelos operários, os palcos do Brás 
ainda mostravam as peças dos militantes. Mas elas também estavam com os dias contados. Em 
1937, Vargas iniciou a ditadura do Estado Novo. Uma de suas medidas foi a criação do 
Departamento de Imprensa e Propaganda, que, entre outras coisas, escolhia o que os teatros 
podiam exibir. É claro que todas as montagens anarquistas foram banidas. Naquele Brasil 
autoritário, o sonho libertário dos imigrantes foi deportado até da ficção.

Fonte: 
http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-grande-greve-de-1917-levante-anarquista.phtml#.WWTRmoTyu1t

agência de notícias anarquistas-ana

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Carlos Seabra


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