(pt) Anarquistas do Caribe e da América Central frente à "maduração" neo-liberal e militarista do chavismo By A.N.A. (ca, en)

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Sábado, 8 de Julho de 2017 - 09:01:34 CEST


DESDE ONDE E COM QUEM ESTAMOS ---- Para nós anarquistas que habitamos terras próximas a 
Venezuela, o que está ocorrendo nesse país não nos resulta distante nem indiferente. 
Nossas dependentes economias receberam durante quase duas décadas os subsídios dadivosos 
em combustíveis dos convênios do PetroCaribe. É por isso que quase todos os Estados e boa 
parte dos atores da sociedade civil da região caribenha oferecem agora seu silêncio 
cúmplice frente à apoteose neoliberal, autoritária, repressiva e militarista em que 
finalmente derivou o governo de Nicolás Maduro Moros. ---- Não negaremos o valor de tais 
convênios para nossas sociedades, mas não vamos fechar os olhos frente às imensas 
contradições sobre as quais se assentam. A projeção internacional da revolução bolivariana 
favoreceu a setores sensíveis de nossos países, não desconhecemos os benefícios dos 
serviços que foram gerados sob os acordos como o ALBA-TCP, mas não só somos clientes de 
assistências governamentais, partidários.as da unidade da região ou anti-imperialistas; 
também nos sentimos antiautoritários.as, anticapitalistas, anarquistas, proletários.as e 
gente do povo. É assim, que não queremos ser cúmplices de um silêncio pago com petróleo.

Nossas afinidades e simpatias são para o povo anônimo venezuelano que não esperou pelas 
"condições objetivas favoráveis", nem levou a sério o chamado "fim da história", e 
protagonizou em 1989 o Caracazo, a primeira grande revolta popular no mundo contra a 
consumação das políticas neoliberais que logo se implementariam em todos os lados.

Quando em inícios dos anos 90 o Movimento V República emergiu no mercado de ofertas de 
representação política, seus porta vozes não pouparam elogios e dádivas ao povo rebelde e 
auto-organizado. Mas hoje, quando o chavismo chegou a sua ótima maduração neoliberal, 
militarista, repressiva, aquele mesmo povo é desqualificado com epítetos de "terrorista", 
"criminoso", "ultradireitista"; acusações que pretendem esconder a mutação grotesca que 
sofreram todos os profissionais da política revolucionária no poder. Estamos com os 
protagonistas das mobilizações em bairros populares como El Valle, Coche, 23 de Enero, 
Baruta e 5 de Julio em Petare, Caracas; com o levantamento generalizado que ocorreu na 
zona sul da Valencia popular e obreira . Nossos corações estão nas ocupações e 
recuperações de supermercados, nos violentos choques com a polícia na La Isabelica, San 
Blas, Los Cedros, los Guayos, Tocuyito, Estado Carabobo, os quais se replicaram nos 
Estados de Táchira, Mérida, Maracaibo, Barquisimeto, Falcón, testemunhados por compas 
venezuelanos afins a nossas perspectivas de luta.

Estamos contra a Polícia Nacional Bolivariana, a Guarda Nacional Bolivariana, e o Serviço 
Bolivariano de Inteligência Militar, que por incorporar o adjetivo de "bolivarianos" a 
seus nomes, não deixaram de ser suportes essenciais do Estado autoritário e assassino. 
Estamos contra os "coletivos" paramilitares, monstros criados com o Plano Zamora, 
alimentados pela degradação do autêntico movimento organizativo popular dos anos 90, pela 
mão da burocracia e do militarismo chavista. Estamos contra a violência midiática dos 
políticos opositores, que só buscam atiçar a polarização entre as maquinarias políticas 
para forçar uma simples troca de opressores como suposta saída da crise em curso.

Estamos com os milhares de detidos sem amparo legal que são enviados como terroristas a 
tribunais militares e a cárceres super lotados. A Constituição Bolivariana de 1999 
estabelece que a justiça militar se circunscreve aos delitos de naturaleza militar, mas 
como vemos é letra morta, como todas as regulações legais, trata de sustentar os 
interesses dominantes.

Estamos com os familiares das dezenas de mortos.as, em sua maioria jovens, ou os mais de 
mil feridos.as. Estamos com a juventude estudantil e popular dos bairros que armaram suas 
próprias instâncias de autodefesa em avenidas e nas ruas dos bairros. Estamos com esses 
jovens que em Maracay desfraldaram uma faixa que dizia "Ni MUD Ni PSUV, Somos os de baixo 
que viemos pelos de cima", porque só com uma troca de governo não se resolve a situação.

A FOLHA DE PARREIRA DO ANTI-IMPERIALISMO DE SALÃO

O anti-imperialismo que hoje esgrime a maquinaria midiática chavista é uma tosca folha 
vermelha de parreira que pretende ocultar fatos muito concretos:

Grandes abutres do setor energético e da megamineração (Chevron, Schlumberger, Halliburton 
e Barrick Gold) já tem suculentas concessões por 40 anos na Venezuela, o que lhes 
outorgará um protagonismo crucial no desenho da nova Constituinte. O presidente Nicolás 
Maduro deu instruções a seus meios de comunicação para que não criticassem ao eleito 
Donald Trump a quem qualificou de "amigo" e "camarada". Através da empresa estatal Citgo, 
Maduro doou meio milhão de dólares para abrir pontes de diálogo com a nova administração 
ianque. O governo venezuelano veio pagando prioritariamente a imensa dívida externa do 
país ao capital financeiro internacional e se mantêm como fiel sócio do chamado Conselho 
Nacional de Economia Produtiva , cuja máxima expressão é a íntima relação com o oligopólio 
midiático Organização Cisneros, garantia de apoio da maioria dos meios de comunicação 
privados. É um governo que cada dia se veste melhor à medida dos interesses de Wall 
Street, mas não quer que deixem de catalogá-lo de "bolivariano", de "esquerda" e 
"anti-imperialista".

Se trata, outra vez, dos frustrantes limites das revoluções de "liberação nacional", 
"socialistas", "participativas", "anti-imperialistas", etc., baseadas nos altos e baixos 
dos preços internacionais das matérias primas. É outra vez a crise da "Venezuela Saudita", 
agora com rosto bolivariano, da qual emerge novamente um tenebroso rastro de fome, 
desintegração comunitária, incapacidade de gerar meios autônomos de vida, caos existencial 
de milhões de pessoas, violência entre os de baixo. E tudo isto promovido pela combinação 
de fetichismo nacionalista petroleiro ("Venezuela potencia"), clientelismo político, 
caudilhismo messiânico, culto machista ao homem forte, capaz de fazer magia desde o alto 
da pirâmide do p oder, que sempre inibiu a solidariedade popular, a convivência, o 
trabalho fraterno e a celebração entre os de baixo.

PAZ ENTRE OS DE BAIXO, GUERRA SOCIAL CONTRA OS DE CIMA

Nenhuma Assembleia Constituinte será solução para tão graves e profundos problemas 
sociais, culturais e psicológicos que afetam a nossos povos. Entre a fumaça tóxica, o fogo 
aterrador das armas, as ações de destruição e reabastecimento popular violento, as 
auto-defesas dos bairros para enfrentar os corpos repressivos, os milhares de feridos, a 
morte e a dor pelos seres queridos, emerge algo muito mais útil e liberador que uma nova 
Constituição do Estado venezuelano. Algo que os ideólogos da não-violência e os 
incondicionais do pacifismo não querem ver: a possibilidade prática de uma compreensão 
vivencial e intelectual sobre quem são nossos antagonistas e nossos aliados na luta por 
uma vida sem opressões, que permita a paz entre os de baixo e sustenta r a guerra social 
contra os de cima e seus cúmplices.

Esteja quem esteja no poder na Venezuela no futuro imediato, seja chavista ou 
antichavista, não terá mais opção senão reeditar o caminho do "Pacote Econômico" do 
governo de Carlos Andrés Pérez de 1989 e indicado pelo FMI, a provada fórmula para poupar 
gastos em dominação e manter à tona o essencial do Estado: sua roupa íntima de corrupção 
piramidal, autoritarismo, militarismo, e repressão aos de baixo. Detrás da Venezuela os 
governos de nossa região seguirão, com ritmos e dinâmicas ligeiramente diferentes, o mesmo 
caminho. Solidarizar-nos com o governo venezuelano de turno agora seria a crônica 
anunciada de uma traição a nossos companheiros.as e a nós mesmos.

Nem PSUV, nem MUD: organização de bairro, obreira e popular.

A luta continua!

Federación Anarquista Centroamericana y del Caribe (F.A.C.C.) e individualidades autónomas

Terça-feira, 13 de junho de 2017

Tradução > Sol de Abril


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