(pt) [EUA] O anarquismo que venceu as adversidades em Standing Rock Por Iñaki Estívaliz By A.N.A.

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Terça-Feira, 3 de Janeiro de 2017 - 09:30:29 CET


O conceito no qual Piotr Kropotkin (1842-1921) assentou as bases do anarquismo, a ajuda 
mútua, está servindo aos que tratam de evitar a finalização de um oleoduto em Standing 
Rock para sobreviver às extremas condições meteorológicas do inverno de Dakota do Norte e 
às ameaças do conglomerado corporativo empenhado em desdenhar as energias renováveis. 
Kropotkin postulava que a luta pela sobrevivência não deve ser entre os membros da mesma 
espécie senão para superar os entornos hostis, para o qual há que cooperar. Observando aos 
povos indígenas da Sibéria, o príncipe russo concluiu que nem todas as sociedades humanas 
eram tão competitivas como as europeias, e que a competição não é algo consubstancial ao 
ser humano, senão que se deve a fatores culturais.

Milhares de "protetores da água" chegados à reserva sioux de Standing Rock e 
representantes de várias centenas de povos indígenas de toda América conseguiram até o 
momento evitar a finalização do oleoduto Dakota Acces, ao considerar que põe em perigo os 
recursos aquíferos dos quais se nutrem 17 milhões de pessoas. Os ativistas estacionados no 
acampamento Oceti Sakowin vivem o conceito da ajuda mútua sem mencionar, provavelmente a 
maioria sem conhecer Kropotkin. A forma de vida que seguem est& aacute; inspirada nos sete 
valores dos indígenas Lakota, similar àquela que o fundador do anarquismo encontrou nos 
nativos da Sibéria.

Os sete valores Lakota promovem a oração, o respeito, a compaixão, a honestidade, a 
generosidade, a humildade e a sabedoria. Nos regulamentos do acampamento se reivindica que 
não é de protesto e que não são manifestantes, senão "protetores" pacíficos. Não se 
permitem as drogas, o álcool nem as armas. No acampamento há uma escola, um centro médico 
e outro de serviços legais, um corpo de bombeiros, carpintarias, um caminhão para filtrar 
água, se utilizam energias renováveis e se realiza um programa de reciclagem.

"Temos múltiplas cozinhas que servem uma variedade de comida saudável e fresca da região, 
especialmente o pão frito típico (...) Muitos dos sub-acampamentos tem suas próprias 
cozinhas abertas aos convidados. Escolha uma cozinha que lhe ofereça a comida que você 
mais goste", se anuncia nos regulamentos do acampamento. "Por favor, sinta-se à vontade 
para pedir ajuda a qualquer um que se encontre próximo de você. Quando você estiver no 
acampamento, lhe pedimos encarecidamente que busque as maneiras de ajudar a outros. Não 
passe por uma pessoa que necessite ajuda se m tê-la ajudado", se insiste. Collen é uma 
jornalista canadense, de Montreal, de 34 anos, que chegou ao acampamento "só para ajudar". 
"Vim porque senti que é um momento muito importan te e queria fazer parte dele e ajudar. 
Queria fazer parte desta união coletiva", conta a Standing Rock em Espanhol/Claridad. 
Confessa que a princípio não estava segura de vir ao acampamento, que o esteve pensando 
cinco dias: "não estava segura se era apropriado, não sabia se ia ajudar ou a ser uma 
carga. Ao final decidi vir a ajudar".

"Foi muito inspirador ver o apoio vindo de todo o mundo. Me surpreendeu a organização, é 
como uma cidade crescida do nada. Não fiz parte das cerimônias nem das ações da ponte", 
diz fazendo referência ao lugar onde se produziram os ataques da polícia militarizada do 
condado de Morton contra os protetores da água que periodicamente acodem a rezar no lugar 
onde se deteve a construção do oleoduto. A Polícia tratou de dissuadir os protetores da 
água com canhões de água a temperaturas abaixo de zero, com granadas de gás pimenta, 
cachorros e proj&eacu te;teis antidistúrbios que deixaram centenas de feridos, alguns 
deles com gravidade. Conforme avança o inverno, os enfrentamentos com a polícia 
diminuíram, mas as temperaturas baixaram e ocorreram vá rias tempestades de neve e vento 
que estão dificultando seriamente a sobrevivência no acampamento. "Quase todo o tempo 
estive na cozinha. Nunca me preocupei com a temperatura, só um pouquinho do que ia fazer, 
mas desde que estou aqui se foram todas as minhas dúvidas. Todos os dias chega gente com 
doações de comida, chega gente para arrumar as estufas, a assegurar-se de que tudo esteja 
bem", conta Collen.

"Todo o mundo põe suas capacidades a serviço dos demais. Se necessitas algo para ti ou 
para os demais, encontrarás a ajuda facilmente", acrescenta. Alguém tosse e em seguida 
alguém aparece com um caramelo contra a tosse. Peter acaba de se graduar em Inglês pela 
Universidade do Texas e também trabalha na cozinha All Relations com Collen. Tampouco 
participou das cerimônias indígenas nem das ações na ponte. "Ninguém gosta de lavar os 
pratos, assim que eu vim lavar pratos e a fazer o que faça falta", defende. Vi cente 
chegou desde a Califórnia com um carregamento de abastecimento com a intenção de ficar só 
um fim de semana. Trabalha cortando lenha e levando-a ali onde se necessita. Ajuda a 
montar e desmontar tendas e barracas de acampamento. Sempre está pendente de todo o mundo 
e buscando onde possa ajudar. Está a duas semanas no acampamento e não sabe quanto tempo 
vai ficar. Ao chegar perdeu as chaves de seu veículo. "As pessoas me dizem que os 
espíritos ficaram com as minhas chaves para que eu ficasse. No princípio fiquei muito 
nervoso, mas como com o que diziam as pessoas me acalmei. Vão me enviar as chaves desde 
minha casa. Não sei quanto tempo vou ficar, mas enquanto não chegam as chaves que lhe 
enviaram desde sua casa na Califórnia, vai "ficar ajudando aqui. Me encanta a ideia de 
tanta gente vindo de todas as partes protegendo-se uns aos outros para defender algo que & 
eacute; para todos. O que está acontecendo aqui é histórico".

Muitos veem o movimento de Standing Rock como um despertar dos povos indígenas de toda 
América.

Vicente assegura que teve experiências extraordinárias. Um dia viu a um chefe nativo do 
Alasca e sentiu a necessidade de apresentar-se. Em poucas horas conheceu a uma mulher, 
também do Alasca, indígena mas que havia perdido suas raízes e o contato com sua gente. A 
mulher havia chegado a Standing Rock buscando a si mesma. Vicente, narra emocionado, como 
os apresentou a ambos e resultou que eram da mesma tribo e a mulher se desfez em lágrimas.

Tradução > Sol de Abril


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