(pt) Anarquistas prometem conter ascensão da extrema-direita nos EUA By A.N.A.

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Sábado, 11 de Fevereiro de 2017 - 13:10:21 CET


O soco que surpreendeu o nacionalista branco Richard Spencer no dia da posse do presidente 
Donald Trump inspirou gozação nas redes sociais. Mas teve uma forte repercussão no 
confronto crescente entre as extremidades do espectro político. ---- Com os grupos de 
extrema-direita aproximando-se da corrente dominante com a ascensão de Trump, 
autodenominados antifascistas e anarquistas estão prometendo confrontá-los sempre e por 
todos os meios necessários, incluindo a violência. ---- Em Berkeley, na Califórnia, na 
noite de quarta-feira (01), manifestantes mascarados provocaram incêndios, quebraram 
vitrines e invadiram prédios no campus da Universidade da Califórnia para interromper um 
discurso de Milo Yiannopoulos, um inflamado editor do site Breitbart News e um provocador 
de direita barrado no Twitter. Cinco pessoas ficaram feridas, os administradores 
cancelaram o evento e a polícia universitária isolou o campus durante horas.

Isso se seguiu a uma sangrenta confusão em Seattle no dia da posse, 20 de janeiro, quando 
manifestantes vestidos de preto, com os rostos ocultos para reduzir o risco de prisão, 
tentaram impedir um discurso de Yiannopoulos na Universidade de Washington e um 
antifascista de 34 anos foi gravemente ferido por tiros disparados por um seguidor de 
Yiannopoulos.

Os surtos de destruição e violência desde a posse de Trump foram recebidos com o desprezo 
de republicanos -incluindo apoiadores de Trump que dizem que foi exatamente por isso que 
votaram em suas promessas de lei e ordem- e a condenação de democratas como o prefeito de 
Berkeley, Jesse Arreguín. Ele chamou a demonstração de quarta-feira de "contrária aos 
valores progressistas" e disse que "oferecia à extrema-direita ultranacionalista 
exatamente as imagens que ela queria" para tentar desacreditar as manifestações pacíficas 
contra as políticas de Trump.

Mas anarquistas e antifascistas, que muitas vezes formam uma pequena parte dos protestos, 
mas chamam muita atenção, defendem o caos que criam como uma reação necessária a uma 
emergência.

"Sim, o que o bloco preto fez ontem à noite foi destruição de propriedade", disse Eric 
Laursen, um escritor de Massachusetts que ajudou a divulgar os protestos anarquistas, 
usando outro nome para se referir aos manifestantes vestidos de preto. "Mas você vai 
deixar alguém como Milo ir aonde quiser e disseminar seu ódio? Esse tipo de argumento pode 
se transformar em ‘sente-se e espere a coisa passar'. E não passa."

Os anarquistas também dizem que seus esforços recentes foram amplamente bem-sucedidos, 
tanto ao concentrar a atenção em seu argumento mais urgente -que Trump representa uma 
ameaça fascista- como ao instigar pessoas a unir-se ao movimento.

"O número de pessoas que tem aparecido nos encontros, o número de encontros e o número de 
planos em evolução para futuras ações está disparando", disse em uma entrevista Legba 
Carrefour, que ajudou a organizar os protestos Disrupt J20 no dia da posse em Washington.

"Ganhamos mil seguidores na semana passada", anunciou a conta antifascista @NYCAntifa no 
Twitter em Nova York, em 24 de janeiro. "Muito louco, porque estamos ativos há muitos 
anos, atraindo atenção mínima. ESMAGUEM O FASCISMO!"

O movimento ainda afirma estar encontrando adeptos longe dos grandes centros 
populacionais. Um participante de CrimeThinc, uma rede anarquista existente há décadas, 
apontou a crescente participação em suas reuniões e o surgimento de atividades em novos 
lugares, como Omaha, em Nebraska.

"A esquerda nos ignora. A direita nos demoniza", gabou-se o site anarquista It's Going 
Down no Twitter. "A cada dia ficamos mais fortes."

Pouco conhecidos pelos praticantes da corrente dominante na política americana, os 
militantes antifascistas foram uma cultura secreta estreitamente associada aos 
anarquistas. Ambos rejeitam as hierarquias sociais como sendo antidemocráticas e rejeitam 
os partidos políticos como irremediavelmente corruptos, segundo entrevistas com uma dúzia 
de anarquistas de todo o país. Enquanto alguns deles defendem a não violência, outros 
consideram os danos à propriedade e até ataques físicos à extrema-direita como táticas 
importantes.

Enquanto grupos de extrema-direita foram defensores entusiásticos de Trump, os 
antifascistas manifestam profundo desprezo pelo Partido Democrata. E é recíproco, de modo 
geral: eles seriam o filho indesejado da esquerda revolucionária, deserdados por suas 
táticas e ideologias por todos, menos os políticos mais radicais.

Os anarquistas chegaram ao primeiro plano em 1999, quando montaram uma enorme manifestação 
em Seattle contra a Organização Mundial do Comércio, que eles denunciam, juntamente com o 
Nafta e outros pactos de livre comércio, como um grupo plutocrata que explora os pobres. O 
entusiasmo pelo movimento despencou depois da eleição de Barack Obama. Mas reviveu quando 
eles desempenharam um papel em alguns dos mais significativos protestos durante os dois 
mandatos de Obama, começando por Ocupem Wall Street, e servindo como soldados em 
demonstrações contra o oleoduto Dakota Access em Standing Rock, na Dako ta do Norte, e nos 
protestos Vidas Negras Importam em Ferguson, Missouri, e outros lugares.

"Tivemos um enorme impacto cultural e político", disse David Graeber, um professor na 
Escola de Economia de Londres que ajudou a organizar os protestos do Ocupem e levou o 
crédito por cunhar seu slogan "Somos os 99%". Ele disse que o movimento levou a 
desigualdade de renda ao topo da agenda política democrata, apesar de não eleger ninguém 
ou aprovar qualquer lei.

Mas ele disse que a vitória de Trump provou que o diagnóstico dos males da sociedade feito 
pelos anarquistas estava correto.

"Nós tentamos adverti-los com o Ocupem", disse Graeber. "Compreendemos que as pessoas 
estavam enojadas com o sistema político, que é fundamentalmente corrupto. As pessoas 
querem algo radicalmente diferente."

As tiradas de Trump contra os acordos comerciais, a globalização e a elite de Washington, 
que ele considera corrupta, refletem argumentos que os anarquistas defendem há décadas. 
Mas sua afirmação de que ele sozinho pode resolver os problemas dos EUA renega a convicção 
dos anarquistas de que só a ação direta de pessoas comuns pode produzir um sistema justo.

"O fascismo fetichiza ter um líder forte que é decidido e diz a todos o que devem fazer", 
disse Laursen, o escritor. "É o que estamos vendo em Trump."

Alimentados em parte pelo sucesso político de Trump, choques violentos entre a 
extrema-direita e a extrema-esquerda irromperam várias vezes durante a campanha 
presidencial. Em Anaheim, na Califórnia, em fevereiro do ano passado, três pessoas foram 
esfaqueadas em uma briga depois que antifascistas perturbaram uma reunião da Ku Klux Klan. 
E em Sacramento (Califórnia), em junho, pelo menos cinco pessoas foram esfaqueadas e oito 
feridas quando centenas de contramanifestantes, incluindo antifascistas, chocaram-se com 
skinheads em um comício.

Mas os confrontos pareceram adquirir um novo ritmo na véspera da posse de Trump. Em 19 de 
janeiro, antifascistas tentaram bloquear a entrada do "DeploraBall", uma festa para 
seguidores de Trump. No dia seguinte, 230 pessoas foram detidas depois que anarquistas 
vestidos de preto quebraram as vitrines de um banco com tacos de beisebol e incendiaram 
uma limusine. (Spencer, o nacionalista branco, cujo atacante não foi preso, não foi a 
única pessoa agredida: um videografista foi atingido no peito com um mastro da bandeira 
-ele não se feriu- quando tentava entrevistar anarquistas na marcha sobre o que significa 
para eles a palavra "comunidade".)

Um dos detidos, um autodenominado anarquista que insistiu em manter o anonimato para não 
ajudar sua acusação, disse que o objetivo dos manifestantes -fazer as redes de televisão 
se afastarem da posse, mesmo que por um momento- foi alcançado.

"Certamente, chamou mais atenção para as pessoas que eram contra Trump e o que ele 
representa", disse o homem por telefone.

A questão agora é se os esforços dos anarquistas contra Trump -sejam meramente coloridos e 
espirituosos, ou ilegais e potencialmente letais- darão a seu movimento marginal uma 
presença maior na batalha de ideias nos próximos anos.

"É verdade que muita gente que se considera liberal ou progressista ainda pensa que é 
possível efetuar mudanças sociais e econômicas no contexto do Estado, por meio da política 
eleitoral", disse Laursen. "Mas cada vez mais será necessário que as pessoas de esquerda 
pensem como anarquistas, se quiserem chegar a algum lugar."

Tradução > Luiz Roberto Mendes Gonçalves


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