(pt) anarkismo.net: A ex-esquerda caiu por sua derrota ideológica by BrunoL

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Quinta-Feira, 2 de Fevereiro de 2017 - 09:08:38 CET


O lulismo se desarmou ideologicamente para prevenir um golpe dos aliados oligarcas. ---- 
Afirmo de maneira categórica: A ex-esquerda sucumbiu por ignorância ou subestimação do 
conceito de ideologia e a consequência direta da falsa ideia de hegemonia na sociedade 
brasileira. Como também afirmo há tempos, chegando ao ponto da exaustão por repetição do 
conceito, não trato da hegemonia de tipo superficial ou rasteira, quando se entende - de 
maneira equivocada - "ter hegemonia" a simplesmente impor alguns nomes para certos 
cargos-chave em instituições importantes dentro de uma sociedade estruturalmente desigual. 
Isso não é hegemonia, talvez hegemonismo, velho vício das esquerdas encantadas com a 
tentação autoritária. ---- O vice golpista, a presidenta deposta e o ex-presidente que se 
confundiu com o inimigo

Ouso afirmar que passamos ainda pela doença de um certo "hobbesianismo distributivista", e 
muito além não vai o pensamento de tradição stalinista e também neovarguista. Neste 
segundo, tendo como aliado o primeiro, localizo a posição ideológica do ex-presidente Lula 
e do fenômeno do lulismo. E, assim como em 1964, perde-se tudo por não entender o tipo de 
sociedade pós-colonial onde nos encontramos. Ou pior. Perde-se tudo por acreditar na 
institucionalidade burguesa mais do que a própria oligarquia nacional e os estamentos que 
agora se aventuram na tomada do poder de Estado (tal como magistrados e procuradores). 
Enfim, perde-se o Poder Executivo por não acreditar em nenhum momento em criar ou reforçar 
agentes coletivos com poder de veto. Logo, perde-se o Poder Executivo Pós-colonial, 
criollo e burguês por não querer nada com o Poder Popular.

Muito se há especulado a respeito da perda absurda do poder por parte do segundo governo 
Dilma (2015-2016). Podemos realçar o papel das empresas de marketing digital e centros de 
fomento do neoliberalismo; também a função estratégica da mídia massiva para formar um 
novo consenso conservador; a ação do imperialismo através da Operação Pontes e com a 
instalação da Força Tarefa da Lava Jato (praticamente incontrolável e em cooperação direta 
com os EUA); e obviamente a ação traidora do ex-aliado político, encabeçado pelo 
vice-presidente eleito e reeleito com a ex-ministra da Casa Civil de Lula. Mas, insisto, a 
ação do inimigo estratégico era subestimada pelo lulismo, que a via apenas como adversário 
circunstancial. Logo, ao não assumir a impossibilidade de uma aliança de longo prazo e 
consequente "defesa da estabilidade institucional", Lula, Rui Falcão, José Dirceu e outros 
dirigentes de peso, conseguiram impor seu consenso e autoconvencimento sobre uma legenda 
com milhares de filiados, mas com pouca democracia interna na tomada de decisões centrais.

A derrota ideológica passa por confiar em demasia e não ter um trunfo, uma carta na manga. 
Ninguém em sã consciência pode se "surpreender" com a conduta de Michel Temer - 
exemplificada na carta onde este se apresenta como "candidato" em pleno exercício da Vice 
Presidência - sendo o próprio, afilhado político de Adhemar de Barros e projetado 
nacionalmente através de Orestes Quércia. Considerando que a Direção Nacional do PT e o 
próprio Lula têm carreira em São Paulo, não se pode alegar desconhecimento ou má 
interpretação. Vou além no raciocínio. A derrota ideológica é uma posição de antemão, onde 
um dos agentes centrais em um conflito simplesmente o nega, por supor que o antigo inimigo 
já não o considera mais "inimigo" pelo fato do agente domesticado tentar se apresentar 
como "fiável e comportado". Seria apenas mais um absurdo intelectual se não trouxesse uma 
desgraça societária. Aí perde a graça.

Basta um mínimo de compreensão das sociedades concretas da América Latina - Brasil 
incluído e não fora, como se estivéssemos de costas para o Continente - para verificar que 
a mesa pode ser virada a todo instante. Se não bastassem nossos mais que convincentes 
processos históricos, caberia observar os golpes brancos, institucionais e bem sucedidos 
de Honduras (com a deposição de Manuel Zelaya Rosales, assumindo em janeiro de 2006 e 
derrubado com o aval da Suprema Corte em junho de 2009) e Paraguai (quando o então 
presidente Fernando Lugo, assumiu em agosto de 2008 e derrubado após um controvertido 
impeachment em junho de 2012). Como a arrogância e a prepotência são filhas diretas do 
exercício do poder político, imaginaram que "no Brasil não ocorrem mais destas coisas; não 
somos uma republiqueta". Não, claro que não, somos uma enorme República Oligárquica e 
Comodificada. O Bananão se afirmou por cima das instituições e o estamento togado trouxe 
para si o papel de Poder Moderador, legislando por jurisprudência e súmula vinculante.

Mídia, bestialização e a ausência das ideias de câmbio

"E o povo bestializado, assistiu à proclamação da tal da república". Assim encerra a 
narrativa clássica dos que acompanharam o golpe militar de 15 de novembro de 1889, quando 
o gabinete da Guerra derruba a monarquia brasileira a quem o marechal Deodoro da Fonseca 
servia. A mudança de regime político sempre tende a ser um momento traumático para 
operadores, elites em disputa ou setores de classe dominante perdendo interesses diretos. 
Mas, para a maioria, ainda quando há alguma inclinação popular no governo de turno, se 
esta não for organizada na defesa de suas bandeiras e conquistas diretas, a tendência é se 
dedicar a sobrevivência diária. Na ausência de sujeitos sociais com organicidade e 
referências desde a base, o povo brasileiro, infelizmente, percebe os sintomas dramáticos 
apenas quando se sente atingido. É como alguém caminhando no escuro e recebendo murros, 
sentindo as dores, mas não reconhecendo quem golpeia.
Quando temos um país com sujeitos sociais desorganizados, mesmo sendo estes são 
beneficiados por programas de governo, não é a melhoria material que vai levar a uma 
significação ou câmbio de consciência. Assim, ainda que a vida melhore, a maioria vai 
perceber que o dinheiro em conta, o emprego direto e os benefícios materiais vão implicar 
em mais trabalho e compromisso, e não em mudança ideológica. Por um período, estes 
beneficiados terão alguma identidade com o líder carismático - no caso, o ex-presidente 
Lula. Mas, assim que o modelo começa a ruir, o voto cativo fica "liberto", em geral caindo 
na abstenção, branco ou nulo, conforme se verificou no primeiro turno das eleições 
municipais de 2016.

Como a vida cotidiana de amplas camadas das classes C e D melhoraram, mas não ao ponto de 
transformar as relações cotidianas, e nem mesmo diminuindo significativamente os índices 
de violência urbana, a identidade política com o "ex-sindicalista que nunca foi de 
esquerda" (frase do próprio Lula) não chega ao ponto de ser totalmente transferida para a 
sucessora. A ruína do modelo macroeconômico caminhou lado a lado e foi impulsionada pela 
permanente exposição seletiva e julgamento midiáticos, com foco no "conjunto da obra" do 
lulismo. Diante da possibilidade de subordinar o governo que fez de tudo para agradá-los, 
os conglomerados de mídia, liderados pela Globo e secundados por Estadão, Folha e Abril, 
costuraram o consenso conservador, auxiliados pelos neoliberais no andar de cima e os 
neopentecostais na base da pirâmide social. Deu no que deu.

Apontando a conclusão óbvia

Na ausência de organização social, é impossível defender práticas indefensáveis sem sequer 
entender a perda de direitos que já está ocorrendo. Para organizar a maioria, é urgente 
construir, pouco a pouco, um novo consenso dos sujeitos sociais que conformam esta 
maioria, apontando para a defesa de interesses e identidade popular totalmente antagônica 
às representações simbólicas da classe dominante colonizada.
Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e relações internacionais
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha  gmail.com para E-mail e Facebook)

http://www.anarkismo.net/article/29949


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