(pt) anarkismo.net: Os especuladores globais das commodities e a fragilidade brasileira -- Uma economia comodificada é anti-ecológica e aumenta o neocolonialismo. by BrunoL

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Quinta-Feira, 28 de Dezembro de 2017 - 08:04:23 CET


Não há desenvolvimento autônomo e com soberania popular se o território físico ficar 
subordinado às cadeias de valor comodificadas, dominadas globalmente por 16 empresas de 
intermediação. Pela lógica da soberania deveríamos simplesmente seguir o caminho inverso, 
em todos os sentidos: preservar os biomas para, a partir destes, transformar saber popular 
em produção científica de escala ---- 22 de dezembro de 2017, Bruno Lima Rocha ---- Quando 
observamos a posição do Brasil no Sistema Internacional (SI), levando em conta o grau de 
coesão interna (tanto na soberania nacional como na ainda mais deficiente soberania 
popular) e nossos potenciais concretos nos vemos em uma situação dúbia. Por um lado, 
qualquer raciocínio minimamente correto - sob diversos pontos de vista ideológicos - 
projetará o país como um dos poucos que tem saída minimamente autônoma no planeta. Por 
outro, ao interpretar realisticamente o consenso conservador imposto pelo arranjo de 
dominação interna, vemos o quanto distante estamos desta potencialidade.

É fato. Não há desenvolvimento autônomo e com soberania popular se o território físico 
ficar subordinado às cadeias de valor comodificadas, dominadas globalmente por 16 empresas 
de intermediação. Pela lógica da soberania deveríamos simplesmente seguir o caminho 
inverso, em todos os sentidos: preservar os biomas para, a partir destes, transformar 
saber popular em produção científica de escala. No caso brasileiro, há uma triste 
evidência. Somente um pensamento neocolonizado pode ver com bons olhos o alinhamento de 
preços manipulados por especuladores de mercados futuros.
Nunca é demais reafirmar. O governo deposto de Dilma Rousseff (2015-2016) não estava 
sequer inclinado mais à esquerda, logo, não houve nem uma maior tensão social interna - no 
sentido da luta direta ou no protagonismo de classe - e tampouco alguma manobra de 
envergadura anti-imperialista. Tal e qual ocorrera em 1954 e com maior grau em 1964, 
apenas as possibilidades de desenvolvimento capitalista com certo grau de autonomia 
decisória já foram suficientes para elevar a temperatura doméstica através de uma típica 
"revolução colorida" do século XXI. Se em Guerra Fria as saídas nacionalistas do varguismo 
em suas duas últimas etapas motivaram a uma possível intervenção no país, ao fim da 
Bipolaridade e no período de hegemonia dos EUA com algum nível de ameaça (s), o uso da 
Lawfare bastou para garantir a vitória através de grotesca manipulação de massas com 
indignação seletiva.
Nosso desenvolvimento interrompido vem de antes, através do reforço da economia 
comodificada, aumentando tanto o peso das cadeias primárias e extrativistas no Brasil, 
como a entrada de insumos tecnológicos na produção agroexportadora. Esta fragilidade não 
foi rompida no período lulista (2003-2016), mas sim acentuada. A complexidade da 
dependência se dá na venda casada e pagamento de royalties tecnológicos, e também na 
manipulação de preços das commodities não apenas na determinação de preços por países 
compradores, mas pelos estoques dos gigantes da intermediação e os contratos futuros 
negociados na roleta financeira.
O economista Ladislau Dowbor, no livro A Era do Capital Improdutivo (Outras 
Palavras/Autonomia Literária, 2017) explica esse fenômeno de forma didática (citações em 
itálico). Basta uma página (a 189) para desmontar todo um universo de mistificações 
repetidas à exaustão nos chamados "mercado de notícias econômicas". Vejamos:
Ainda que se trate de bens físicos como minério de ferro ou soja, o fato é que no plano 
internacional as variações são diretamente ligadas às atividades financeiras modernas. Não 
há razões significativas em termos de volumes de produção e de consumo mundial que 
justifiquem as enormes variações de preços de commodities no mercado internacional.
Assim, toda a dimensão do avanço da fronteira agrícola ou mesmo a extração de petróleo sem 
expansão da capacidade integrada no refino de ponta, termina aumentando a fragilidade do 
país, mesmo batendo recordes anuais na produção e venda de grãos e minérios em forma 
bruta. É conta de chegada, quanto maior a complexidade nos produtos, menos expostas ficam 
estas cadeias diante da especulação dos gigantes intermediários. O inverso é 
assustadoramente verdadeiro.
Os volumes de produção e consumo de petróleo, por exemplo, situam-se em torno de 95-100 
milhões de barris por dia, com muito poucas alterações. Mas as movimentações diárias de 
trocas especulativas sobre o petróleo ultrapassam três bilhões de barris, cerca de 30 
vezes mais. São estas movimentações especulativas que permitem entender que com um fluxo 
estável do produto real que é petróleo oscile tanto em poucos meses.
Enquanto o consenso liberal neoloconizado elogia a "atuação profissional" da atual 
diretoria da Petrobras (após abril de 2016) por balizar o preço dos combustíveis de acordo 
com o "mercado internacional", a evidência da manipulação de preços em nível mundial é 
gritante, passa pela capacidade especulativa dos operadores logísticos (focando em 
transportes e estoques) e das atuais seis irmãs transnacionais do petróleo listadas 
abaixo. Ainda segundo Dowbor:
O que movimenta os preços neste caso não é a economia chinesa, ou uma decisão da Arábia 
Saudita ou ainda a entrada do Irã de volta ao mercado, mas sim a expectativa de ganhos 
especulativos dos traders, hoje 16 grupos que controlam o comércio mundial de commodities. 
Estes grupos, concentrados em Genebra, alimentam o mercado de derivativos, que hoje é da 
ordem de 500 trilhões de dólares, para um PIB mundial de 80 trilhões de dólares (p.189).
Mas quais são estes conglomerados que conseguem manipular preços e jogar contratos futuros 
empacotados em derivativos? Segundo o Business Insider e o ranking da Singapore Management 
University (ver http://researchguides.smu.edu.sg/c.php?g=422042&p=2881476) as gigantes da 
intermediação de commodities no planeta são, em ordem decrescente: Vitol (Singapura); 
Glencore (Suíça); Cargill (EUA); Koch Industries (EUA); ADM/Decatur (EUA); Gunvor Group 
(Suíça/Singapura); Trafigura (Suíça); Mercuria (Suíça); Noble Group (Hong Kong); Louis 
Dreyfus (França); Bunge (EUA); Wilmar (Singapura); Arcadia (Inglaterra); Mabanaft 
(Holanda); Olam (Holanda) e Hin Leong (Singapura).
Já as maiores empresas petrolíferas em escala mundo, no ano de 2017, também expostas aqui 
em ordem decrescente, são: BP (Inglaterra); Shell (Anglo-Holandesa); ExxonMobil (EUA); 
Chevron (EUA); Total (França) e Eni (Itália). Como estas marcas também operam na 
distribuição - do poço à bomba como diz o setor - tornam-se mais conhecidas, facilitando a 
evidência, com um agravante. As TNCs do petróleo acima listadas são todas influenciadoras 
diretas dos tomadores de decisões de países membros da OTAN, incluindo as mais poderosas 
marinhas do planeta.
O Brasil, assim como os demais países de economia comodificada, ao estar sob esta 
integração forçada, perde espaços de manobras, soberania e autodeterminação.

Bruno Lima Rocha é professor de relações internacionais e de ciência política 
(www.estrategiaeanalise.com.br para textos e áudios / www.estrategiaeanaliseblog.com para 
vídeos e entrevistas / blimarocha  gmail.com para E-mail e Facebook)

https://www.anarkismo.net/article/30746


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