(pt) [Reino Unido]Um guia anarquista para o natal Por Ruth Kinna¹ By A.N.A.

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Sábado, 23 de Dezembro de 2017 - 09:14:18 CET


Não é surpresa alguma descobrir que o teórico anarquista Kropotkin era interessado pelo 
Natal. Na cultura Russa, São Nicolau é reverenciado como defensor dos oprimidos, dos 
fracos e dos desamparados. Kropotkin compartilhava desses sentimentos. ---- Mas há também 
uma ligação familiar. Como todo mundo sabe, Kropotkin poderia rastrear sua ancestralidade 
a antiga dinastia Rurjk que governou a Rússia antes do advento dos Romanovs e que, a 
partir do século I dC, controlavam as rotas comerciais entre Moscou e o Império Bizantino. 
O ramo da família de Nicolau foi enviado para patrulhar o Mar Negro. Mas Nicolau era um 
homem espiritual e procurou fugir da pirataria e banditismo pela qual sua família viking 
russa era famosa. Então, ele se estabeleceu com um novo nome nas terras do sul do Império, 
hoje a Grécia, e decidiu usar a riqueza que ele tinha acumulado de sua vida de crime para 
aliviar os sofrimentos dos pobres.

Fontes de arquivos não publicados descobertos recentemente em Moscou revelam que Kropotkin 
era fascinado por este laço familiar e da semelhança física marcante entre ele e a figura 
do Papai Noel, popularizada pela publicação de "Uma visita de São Nicolau" (mais conhecido 
como "A noite antes do Natal") em 1823.

Kropotkin não era tão corpulento como Papai Noel, mas com uma almofada de pelúcia a 
rechear sua túnica, ele sentiu que poderia passar. Seu amigo Elisée Reclus aconselhou-o a 
largar a guarnição da pele sobre a roupa. Essa foi uma boa ideia, pois também lhe 
permitiria usar um pouco mais de preto com o vermelho. Ele decidiu seguir o conselho de 
Elisée nas renas, também, e de usar um trenó conduzido a mão. Kropotkin não era 
normalmente dado a fantasiar-se. Mas explorar a semelhança para espalhar a mensagem 
anarquista era uma excelente propaganda pela ação.

Antecipando "V", Kropotkin pensou que todos poderiam se passar por Papai Noel. Na margem 
de uma página Kropotkin escreve: "Infiltrem-se nas lojas, distribuam os brinquedos!"

Restos rasurados na parte de trás de um cartão postal se lê:

Na noite antes do Natal, todos nós vamos estar prontos

Enquanto as pessoas estão dormindo, vamos realizar a nossa influência

Nós vamos expropriar bens das lojas, porque é justo

E distribuí-los amplamente, para aqueles que mais precisam.

Suas notas sobre este projeto também revelam alguns valiosos insights a propósito de suas 
ideias sobre características anarquistas do Natal e de seu pensamento sobre as formas e 
quais os rituais do Natal Vitoriano deveriam ser adaptados.

"Todos nós sabemos", escreveu ele, "que as grandes lojas - John Lewis, Harrods e 
Selfridges - estão começando a explorar o potencial de vendas do Natal, criando cavernas 
mágicas, grutas e terras encantadas fantásticas para atrair nossos filhos e pressionar-nos 
para comprar presentes que não queremos e não podemos pagar".

"Se você é um de nós", continuou, "você vai perceber que a magia do Natal depende do 
sistema de produção do Papai Natal, não das tentativas das lojas para seduzi-lo ao consumo 
de inúteis bens de luxo". Kropotkin descreveu as oficinas espalhadas pelo Pólo Norte, onde 
os elfos trabalham felizes durante todo o ano, porque eles sabiam que estavam produzindo 
para o prazer de outras pessoas. Observando que essas oficinas eram estritamente sem fins 
lucrativos, a base de mão-de-obra artesanal e funcionando em modelos comunais, Kropotkin 
tratou-as como protótipos para as fábricas do futuro (delineadas em "Campos, Fábricas e 
Oficinas").

Algumas pessoas, ele sentia, pensavam que o Papai Noel sonhava em ver que todos haviam 
recebido presentes no dia do Natal, era quixotesco. Mas ele poderia ser realizado. Na 
verdade, a extensão das oficinas - que eram muito caras para manter no Ártico - 
facilitaria a generalização da produção pautada pelas necessidades e a transformação da 
troca ocasional de presentes em partilha regular. "Precisamos dizer às pessoas", Kropotkin 
escreveu, "que oficinas comunais podem ser estabelecidas em qualquer lugar, e que podemos 
combinar nossos recursos para assegurar que todos tenham suas necessidades satisfeitas!"

Uma das questões que mais incomodou Kropotkin sobre o Natal foi a forma pela qual o papel 
inspirador que Nicolau desempenhou evocando mitos do Natal, confundido a ética do Natal. 
Nicolau foi erroneamente representado como um homem caridoso e benevolente: santo, porque 
ele era beneficente. Absorvido na figura do Papai Noel, as motivações de Nicolau para as 
doações se tornaram ainda mais distorcidas pela fixação vitoriana por crianças.

Kropotkin realmente não entendia as ligações, mas sentia que refletia uma tentativa de 
moralizar a infância através de um conceito de pureza que foi simbolizado no nascimento de 
Jesus. Naturalmente, ele não poderia imaginar a criação do Grande Irmão Papai Noel, que 
sabe quando as crianças estão dormindo ou acordadas e vem para a cidade, aparentemente 
sabendo quais entre elas se atreveram a chorar ou fazer birra.

Mas, cedo ou tarde, ele avisou, esta ideia de pureza seria usada para distinguir crianças 
más e boas, e apenas aquelas do segundo grupo que seriam recompensadas com presentes.

Seja qual for o caso, era importante recuperar deste quiproquó confuso tanto o princípio 
da compaixão de Nicolau quanto as origens folclóricas de Papai Noel. Nicolau deu porque 
era torturado pela sua consciência das privações de outras pessoas. Embora ele não fosse 
um assassino (até onde Kropotkin soubesse), ele compartilhou da mesma ética de Sofia 
Petrovskaya. E ainda que fosse obviamente importante se preocupar com o bem-estar das 
crianças, o princípio anarquista era tomar em conta o sofrimento de todos.

Da mesma forma, a prática da doação foi erroneamente compreendida, como se necessitasse da 
implementação de um plano centralmente dirigido, supervisionado por um administrador 
onisciente. Tudo isto estava completamente errado: Papai Noel veio da imaginação do povo 
(basta considerar a gama de nomes locais que Nicolau tinha acumulado - Sinterklaas, Tomte, 
de Kerstman). E o espraiamento da alegria - através da festividade - foi organizado de 
baixo para cima.

Enterrado sob o Natal, argumentou Kropotkin, estava o princípio solidário do apoio mútuo.

Kropotkin apreciou o significado do ritual e o valor real que os indivíduos e as 
comunidades associavam ao carnaval, aos atos de lembrança e comemoração. Ele não queria 
abolir o Natal, nem tampouco queria vê-lo republicanizado através de alguma reorganização 
burocrática obstinada do calendário.

Era importante, no entanto, separar a ética que o Natal apresentava da singularidade da 
sua celebração. Dar uma festa era apenas isso; a extensão do princípio do apoio mútuo e da 
compaixão à vida cotidiana era outra coisa. Na sociedade capitalista, o Natal abria espaço 
para bons comportamentos. Enquanto era possível ser cristão uma vez ao ano, o anarquismo 
era para toda a vida.

Kropotkin percebeu que sua propaganda teria mais chance de sucesso se ele pudesse mostrar 
como a mensagem anarquista também estava incorporada na cultura mainstream. Suas anotações 
revelam que ele se inspirou particularmente no "Conto de Natal", de Dickens, para 
encontrar um veículo para suas ideias. O livro foi amplamente creditado com consolidadas 
ideias de amor, alegria e boa vontade no Natal. Kropotkin encontrou a genialidade do livro 
em sua estrutura. Que outra coisa seria a história do encontro de Scrooge com os espíritos 
dos natais passados, presentes e futuros além de um relato prefigurativo da mudança?

Ao ver o seu presente através de seu passado, Scrooge teve a oportunidade de alterar seus 
modos avarentos e remoldar o seu futuro e o futuro da família Cratchit. Mesmo que isso só 
seja lembrado uma vez por ano, Kropotkin pensou, o livro de Dickens emprestou aos 
anarquistas um veículo perfeito para ensinar esta lição: alterando o que fazemos hoje, 
modelando os nossos comportamentos segundo o de Nicolau, podemos ajudar a construir um 
futuro que é como o Natal!

[1]Ruth Kinna é editora da revista Estudos Anarquistas ("Anarchist Studies") e professora 
de Teoria Política na Universidade de Loughborough.

Fonte: http://strikemag.org/anarchist-guide-christmas/

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https://noticiasanarquistas.noblogs.org/post/2017/12/12/a-vinganca-das-criancas-3/


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