(pt) [Grécia] "Enterremos os símbolos. Que floresçam os conteúdos" By A.N.A.

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Segunda-Feira, 11 de Dezembro de 2017 - 09:45:58 CET


Em 17 de novembro de 2017, uma vez finalizada a marcha do aniversário da rebelião da 
Escola Politécnica em 1973, um grupo de pessoas, repetindo o que geralmente se faz durante 
vários anos, se aproximou do bairro de Exarchia e se dedicou a uma "contenda" com os 
policiais. Alguém deste grupo disparou uma bengala em linha reta para os policiais, 
lesionando gravemente a uma mulher que naquele momento estava detrás deles e foi alcançada 
pelo foguete. A seguir, o texto do grupo Anarquistas comunistas de Patras sobre o papel 
destes grupos e a responsabilidade do movimento libertário. ---- Sentimos nada mais que 
repugnância pela lesão da advogada de 55 anos Anastasia Tsukalá feita por uma bengala 
disparada por um "companheiro" na sexta-feira pela tarde, durante uma marcha no centro de 
Atenas. Lemos que ela já defendeu os companheiros anarquistas e que é antifascista. 
Denunciou a atitude fascista dos corpos de segurança e da chefatura da Polícia Grega de 
racismo e xenofobia. Em outro artigo lemos que é colaboradora do ministério de Proteção do 
Cidadão, e por conseguinte sua lesão mais ou menos é considerada baixa colateral, pela 
qual não teríamos que estar muito preocupados.

Vamos tornar a coisa clara desde o princípio. Nos importa pouco o trabalho de dita mulher, 
que, naquele momento entendemos que estava naquele lugar como advogada solidária. Em outra 
coisa vamos nos centrar neste texto, porque nem amorais somos, nem temos vontade de 
depreciar a vida com os pretextos da relativização e do secretismo, nós que lutamos pela 
vida, a liberdade e a dignidade.

De todas as formas, nos posicionamos dentro do marco do movimento contestatório, e 
desejamos que haja mais sujeitos lutadores, políticos, de classe, sociais, coletivos ou 
não, que expressem sua opinião por causa do acontecimento anteriormente mencionado. Não 
temos pelos na língua, nem sentimos estar comprometidos com algum "savior vivre" 
anarquista ideal.

Com palavras claras declaramos que quem dispare bengalas de socorro dentro de uma zona 
urbana é perigoso, é um potencial assassino e claro que é inimigo do movimento de classe. 
Os que consentem ou cultivem tais lógicas e práticas são cúmplices. Os que tenham 
participado em manifestações sabem muito bem quão perigosos são tais disparos em linha 
reta, como os de gases lacrimogêneos pelos policiais. Em Patras, os anos da crise 
capitalista e até há pouco tempo estes disparos contra manifestantes tem sido uma tática 
fixa da Polícia.

Esta ação aconteceu durante a marcha do 17 de novembro, na qual uma vez mais a repressão 
estatal mostrou seus dentes de uma maneira particularmente infame. No entanto, esta 
repressão de nenhuma maneira justifica o disparo de uma bengala marinha por parte de 
manifestantes dentro de um bairro, ainda quando esta ação seja percebida como uma resposta 
aos policiais. Em uma zona urbana, qualquer um pode ser alvo, como lamentavelmente aconteceu.

Desde o ponto de vista dos princípios que regem uma ação, esta ação está fora do marco 
anarquista e de qualquer outro marco de luta. Desde o ponto de vista da tática, só 
problemas pode criar aos lutadores e às lutas. É uma ação que nenhum segmento (componente) 
do movimento de classe libertário pode defender ou justificar. Tampouco uma pessoa pode 
assumi-la e considerar que cria alguma perspectiva libertadora para as lutas. O contrário: 
Leva água ao moinho da repressão, do controle, da vigilância policial, aplanando o caminho 
da criação de novos campos (ademais dos já existentes) de montagens, e dando ao Estado a 
oportunidade de pôr em ponto de mira a lutadores.

Tais ações, e sobretudo a noção (conceito) que subjaz após elas, ou seja o individualismo 
ilimitado, emana de uma convicção amoral que faz aumentar a arbitrariedade, a qual 
colocando o manto da "liberdade individual", não faz nada mais que voltar-se contra tudo o 
que possa considerar-se coletivo e desde baixo. Este individualismo ilimitado não concebe 
a pessoa como parte de um todo (ainda que seja criticando-a), senão privada de qualquer 
noção humanitária. É uma noção (concepção) que vimos outras vezes no passado como 
fetichiza a violência e não perceba que há uma relação dialética entre os meios e os 
objetivos.

Concepções semelhantes, que várias vezes se desenvolveram dentro do âmbito anarquista, se 
materializaram várias vezes no passado. Na realidade se trata de umas concepções hostis 
que funcionam como uns parasitas das lutas e reproduzem lógicas e práticas autoritárias. 
Sabemos, desde logo, que o capitalismo não se reproduz só no campo da economia, senão, 
entre outros campos, no dos princípios. Estas lógicas misantropas, antissociais e contra o 
movimento (esta última frase a seguiremos escrevendo, por muita tristeza que nos de) 
provem da podridão do mundo do poder, do desprezo pelo valor da vida e da reprodução do 
canibalismo entre os de baixo. Tais lógicas converteram a violência, de um meio usado como 
uma ferramenta de luta, em um rasgo ideológico dela. É uma concepção que está nos 
antípodas de qualquer consciência estruturada de maneira revolucionária. É elitista e 
reproduz, de maneira hostil e antagônica, dentro dos estratos da sociedade que resistem e 
dentro dos lutadores, um conceito de vanguarda e de elevação a um nível superior da 
violência sem mesura e razão. Por isso é profundamente anti-anarquista, já que distorce 
todos os ideais anarquistas. Enfim, é perigosa, sobretudo pensando em que condições de 
recessão do movimento pagam o custo de tais lógicas.

Todas estas noções (concepções) individualistas e amorais não tem a mínima relação nem com 
o anarquismo nem com algum tipo de luta. Tampouco (tem alguma relação) com as propostas 
libertárias, que diz sim à vida e que pretende que a própria vida e a liberdade sejam 
experimentadas ao máximo grau.

Portanto, somos contrários às concepções anteriormente mencionadas e aos que as tem. Não 
temos nada em comum com sujeitos que em nome da confrontação com os policiais promovem e 
reproduzem uma violência cega, a qual potencialmente poderia ferir a qualquer um. Não 
temos nada em comum com os que a toleram silenciosamente, com os que a consentem ou com os 
que lhe dão tapinhas nas costas a modo de conselhos. Todas estas escórias mancham a luta 
anarquista e a despreciam profundamente.

Enfim, não avaliamos aos que estão a nosso redor em função de como se autodeterminam ou se 
usam a A circulada, senão ao contrário, em função do conteúdo de seu discurso e suas 
ações. Cada um e cada uma é avaliado e avaliada sobre a base de suas ações e sua atitude 
para com o existente. Cada um e cada uma é avaliado e avaliada não em função de se se 
autodenominar anarquista, senão em função de se resiste (no grau que lhe corresponde), se 
monta barricadas frente à voragem do totalitarismo moderno do Estado e do Capital, se usa 
as ferramentas da luta em relação direta e dialética com seus objetivos, se para ele ou 
para ela a dignidade não é uma palavra sem valor, se a cortesia política e o relativismo 
não são pretextos para poder justificar suas selvagerias, e se joga uma só pedrinha aos 
cimentos da questão da emancipação social, da destruição do capitalismo e da conversão 
revolucionária das relações sociais e de produção, e se sua autorreferencialidade 
"insurreta" e perigosa não vaga como um parasita pelos caminhos das lutas sociais e de classe.

21 de novembro de 2017,

Anarquistas comunistas de Patras


Mais informações acerca da lista A-infos-pt