(pt) federacao anarquista gaucha: 100 anos da Greve Geral de 1917

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Domingo, 6 de Agosto de 2017 - 07:59:13 CEST


A seguir, o texto de memória histórica lido durante o Ato da FAG  em celebração do 
centenário da Greve Geral de 1917 no Brasil realizado na última sexta-feira, dia 28 de 
Julho no Teatro da Cia de Artes em Porto Alegre, RS. ---- Federação Anarquista Gaúcha - 
FAG ---- Saúde compas, ---- Com a fraternidade libertária que nos é de costume, estendemos 
a mão para todos e todas que se fazem presentes neste momento especial em que comemoramos 
o centenário da greve geral operária de 1917 no Brasil. De princípio fica avisado que não 
é nosso propósito falar ou pintar um passado puro e irretocável, de sujeitos perfeitos e 
histórias impecáveis. Alguém já disse e vale muito para as nossas circunstâncias: a 
inteligência precisa estar armada de memória, não para fazer exercício diletante, MAS PARA 
CONSTRUIR NO PRESENTE, COM SEDE DE JUSTIÇA SOCIAL E COM VONTADE MAIS TENAZ E POTENTE, UMA 
SOCIEDADE LIVRE E EQUÂNIME.

O que nos motiva nesse momento é recordar um pedaço de história tingida de sonho e 
rebeldia dos oprimidos, dessa longa história negra e vermelha, de muitas cores que matizam 
mais de 500 anos de opressões, lutas e resistências. Nossa melhor homenagem para com todas 
e todos que nos antecederam é seguir peleando, criando resistência libertária com o 
coração pulsando um mundo novo, abrindo caminho pelo passo da luta e da organização.

Por regra geral, o esquecimento, a desfiguração, o extravio da memória são armas usadas 
pelos opressores de ontem e hoje, para liquidar o exemplo que nos encoraja e que transmite 
saberes e experiências das lutas sociais passadas. A formação e o desenvolvimento das 
grandes cidades - isso que se chama na língua dominante por progresso capitalista -, foi 
montado por cima de dores e tragédias, da luta irreprimível dos povos e das "classes 
perigosas" para o triunfo da prosperidade burguesa.

"(...) de manhã, antes do sol ruborizar o polido horizonte, os becos, as pocilgas infestas 
e imundas despejam uma multidão de trabalhadores - homens, mulheres e crianças, que pelas 
ruas escusas e lamacentas, desfilam rotos, andrajosos, mal dormidos e mal alimentados, com 
os músculos das faces contraídos pela dor, pela fome, pela miséria! Que desfilam todos 
silenciosamente como fantasmas que a cova não quis guardar, que seguem todos pacificamente 
como carneiros ao matadouro; os homens encolhidos, cabisbaixos, como que vergados sob o 
enorme jugo da miséria que os aniquila; as mulheres de semblantes tristes, tangidos pela 
mágoa e pelo sofrimento, levando para a fábrica saudades dos filhinhos que tiveram que 
abandonar em casa, chorando, por não encontrarem o alimento suficiente (...); as crianças 
com as faces ainda umedecidas pelas lágrimas que dolorosamente verteram ao abandonar os 
cacos que lhes serviam de brinquedos e as flores apanhadas na rua, para ir ao tugúrio, 
onde as máquinas e engrenagens produzem infernal barulho e permanecem ali durante doze 
intermináveis longas horas, para ir à fábrica onde seus olhos não poderão ver o sol, onde 
seus franzinos pulmões não encontrarão ar puro, e onde não poderão brincar com as 
borboletas e as flores..."

Dolorosa e amarga descrição do cotidiano da classe trabalhadora que faz o companheiro 
Zenon de Almeida, em conferência pública ao sindicato dos sapateiros em 1914.

SIM! ENQUANTO UNS SEGUEM PARA AS BASTILHAS MODERNAS COM UM MAGRO CAFÉ NO ESTÔMAGO, SEM 
SABER NEM MESMO SE TERÃO COM QUE ALMOÇAR OU JANTAR, OS OUTROS SEGUEM CHEIOS ATÉ A 
INDIGESTÃO, PENSANDO QUAIS AS PÍLULAS QUE SERÃO MELHORES PARA RESTITUIR O APETITE.

HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS SEGUEM MACABROS PARA O EXAUSTIVO TRABALHO, TRABALHO BESTIAL 
(...) ENQUANTO OS RICOS PROCURAM O REPOUSO DEPOIS DE UMA NOITE DE AFRODISÍACA ORGIA (...) 
ESBANJAM O TRABALHO DE MIL BRAÇOS.

A questão social feita bandeira de combate dos miseráveis foi parar nas garras da polícia 
desde sempre, sobretudo quando o povo se levanta e reclama pela justiça e pela liberdade 
que o capitalismo lhe nega sistematicamente. Esse, por sua vez, ataca feroz como estrutura 
de dominação e de violência sistêmica que lhe é tão particular.

A industrialização brasileira e o crescimento da urbanização se deram de forma lenta e se 
desenvolveram sobre o sangue negro do escravismo-colonial que possibilitou a acumulação 
gerada pela atividade produtiva agrária.

A concentração da indústria no século XIX se dava em torno do eixo Rio-São Paulo e, em 
menor escala em Porto Alegre. Já contando com a mão de obra super explorada de negros 
(antes e depois da Lei Áurea em 1888), a política racista das elites brasileiras 
incentivou a imigração de europeus para que os postos de trabalho fossem ocupados por 
brancos. O contingente operário passou a ser formado também por muito imigrantes, 
italianos, espanhois e portugueses, que trouxeram consigo as experiências e valores do 
socialismo libertário. As lutas em curso no país já neste período - século XIX -, não 
foram, no entanto, resultado de uma "importação" pura e simples da experiência que 
trouxeram os imigrantes. O imaginário da resistência negra e indígena encontrava-se com o 
horizonte do anarquismo em meio ao tardio desenvolvimento do capitalismo brasileiro dentro 
de uma nova forma de exploração humana em condições históricas e de formação social 
específicas.

Organizando, impulsionando e avançando pela luta de classes, o anarquismo criou meios para 
geração de valores diferentes daqueles vividos pelas classes dominantes. Como movimento de 
massas, encarnou com todas suas consequências a máxima: "a emancipação dos trabalhadores é 
obra dos próprios trabalhadores". O que se vulgarizou como "infância do socialismo" foi, 
nada mais, nada menos, que as curvas de uma experiência histórica genuína de independência 
de classe. O Anarquismo faz vetor de uma cultura política feita a pulmão debaixo do fogo 
inimigo, que rompeu com o colaboracionismo de classe da formação social-democrata que já 
trazia germes de burocratização e separou o fazer da luta operária dos valores e das 
instituições do mundo burguês. O incansável trabalho organizativo e de propaganda 
revolucionária dos libertários gerou instrumentos de luta e conquista econômica no 
movimento operário (os sindicatos classistas), de educação libertária e popular (as 
escolas racionalistas e as universidades do povo), de cultura de classe (os ateneus 
operários, bibliotecas sindicais, grupos de teatro social, bandas e liras operárias, 
atividades de lazer e recreação para toda família trabalhadora), de literatura socialista 
(com a publicação e distribuição em massa de livros como A conquista do pão, O salário, No 
Café, Germinal) de informação (os periódicos operários) e de defesa (os grupos de 
autodefesa e sabotagem).

Em 1906 é realizado o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, onde converge o caudal de 
forças sociais nucleadas em cenário urbano pelas organizações de resistência. É fundada a 
Confederação Operária Brasileira (COB) e o jornal "A Voz do Trabalhador", seu órgão de 
comunicação.

O sindicalismo revolucionário, já esboçado pela posição de Bakunin e a ala federalista da 
Primeira Internacional décadas antes, era estratégia para as organizações operárias: 
nenhuma expectativa nas estruturas do poder do Estado, nenhuma ilusão com as disputas por 
cargos. A chamada "neutralidade política" nada mais era que a convicção de se manter fora 
das esferas da política burguesa, e o reforço da importância de manter os sindicatos 
abertos a todos operários e suas famílias sem adoção de critério de distinção ideológica 
ou religiosa. Evitava-se, assim, tanto o risco da burocratização e da conciliação de 
classes, quanto os perigos da disputa interna entre trabalhadores devido a doutrinas ou 
programas políticos. Defende-se a organização das mulheres, a priorização da luta pelas 8 
horas de jornada de trabalho e decide-se pela criação de escolas laicas para os sócios das 
associações operárias e seus filhos. A ação direta foi adotada como tática do movimento 
sindical, fortalecendo a concepção de que o protagonismo é de quem vive do trabalho e da 
luta, não de intermediários de partidos políticos ou chefes de Estado.

O sindicalismo revolucionário como estratégia sindical se confirma pelas teses aprovadas 
no primeiro Congresso de 1906, quando este:

"aconselha o proletariado a organizar-se em sociedades de resistência econômica, 
agrupamento essencial e, sem abandonar a defesa, pela ação direta, dos rudimentares 
direitos políticos de que necessitam as organizações econômicas e, pôr fora do sindicato, 
à luta política especial de um partido e as rivalidades que resultariam da adoção, pela 
associação de resistência, de uma doutrina política ou religiosa, ou de um programa 
eleitoral." E ainda: "O Congresso considera como único método de organização compatível 
com o irreprimível espírito de liberdade e com as imperiosas necessidades de ação e 
educação operária, o método federativo, a mais larga autonomia do indivíduo no sindicato, 
do sindicato na federação e da federação na confederação e como unicamente admissíveis 
simples delegações de função sem autoridade."

Ao unir-se nas associações operárias de resistência - que, a partir de então, no Brasil, 
passariam a se chamar sindicatos - para lutar, utilizando como métodos a ação direta, a 
independência e o federalismo, estava em curso uma luta sindicalista de intenção 
revolucionária. O projeto libertário atribuía dupla função ao sindicato: a luta coletiva e 
solidária de defesa operária e conquistas imediatas e a acumulação de forças e capacidade 
política para a autogestão socialista dos meios de produção.

O sindicalismo, ainda que focado em conquistas por dentro do sistema capitalista, era o 
movimento capaz de preparar a classe trabalhadora para as grandes lutas pelo socialismo e 
pela liberdade. Ainda hoje, entende-se que é a partir da vida de todos os dias, dos 
sofrimentos e reivindicações e laços cotidianos que se criam as condições para embates 
mais amplos e profundos. É com um povo forte, produzido por militância diária, com 
organizações de base e na luta por direitos e liberdades que se avança rumo ao Poder Popular.

A conjuntura econômica, produzida no contexto prévio à Primeira Guerra, viu ao mesmo tempo 
o aumento do operariado com a industrialização, os baixos salários, o desemprego com o 
crescimento das cidades e a carestia da vida. Esses foram os temas de luta no 1º de Maio 
de 1917 pelo país.

No início de Junho de 1917, operárias da fábrica têxtil Crespi, no bairro da Mooca em São 
Paulo, paralisam suas atividades reivindicando aumento de salário e redução da jornada de 
trabalho. É preciso lembrar: a grande greve de 1917 teve impulso com a luta de mulheres. A 
fábrica havia praticamente dobrado seus lucros em dois anos com aumentos contínuos da 
jornada de trabalho sem aumento de salário. Além disso, uma motivação é a revolta das 
trabalhadoras contra o assédio sexual por parte de supervisores. Outras mobilizações já 
haviam ocorrido contra supervisores em virtude da violência contra as mulheres. As 
operárias, em sua tripla jornada, também eram aquelas que acompanhavam a perda de poder 
aquisitivo, pois tinham o controle dos gastos familiares, o que impulsionava também a luta 
contra a carestia.

A participação das mulheres anarquistas no movimento operário, muitas trabalhadoras 
têxteis, é decisiva, antes, durante e depois da greve geral de 1917. Militantes como 
Isabel Cerruti, Maria de Lourdes Nogueira, Branca Nery, Alzira Werkauzer, Elvira Boni e 
Angelina Soares demonstraram que a luta pela emancipação da humanidade contra o 
capitalismo passava pela emancipação das mulheres.

No final de Junho, a greve das operárias da Crespi já contava com a solidariedade da 
adesão de 1.500 operárias e operários da fábrica Ipiranga, também têxtil. Greve que se 
espalha por outros ramos, como móveis e atinge também a indústria de bebidas Antarctica.

Em Julho, a greve seguia se generalizando por toda a cidade de São Paulo, Rio de Janeiro e 
outras cidades do país, com batalhas nas ruas. Como as fábricas possuíam pouco ou nenhum 
estoque, a paralisação das atividades causava impacto quase imediato no comércio, ou seja, 
no dia a dia da cidade.

Uma unidade de cavalaria da polícia de São Paulo reprime violentamente uma manifestação no 
dia 9 de Julho. Nesta ação, é assassinado pelas forças da repressão, com um tiro no 
estômago, o sapateiro espanhol anarquista José Martinez, com apenas 21 anos de idade.

Este episódio causou a ampliação da greve pelo estado e pelo país. Em Campinas tivemos o 
confronto em uma linha férrea que ficou conhecido como "O massacre da Porteira do 
Capivara", onde 16 foram feridos e 3 foram mortos pela polícia. Em sua maioria, os 
manifestantes eram ferroviários e metalúrgicos, entre eles Armando Gomes, operário negro 
que impulsionava as ligas operárias de bairros e era também a principal liderança da 
organização negra, a Liga Humanitária Homens de Cor.

O funeral do jovem operário Martinez, ocorrido no dia 11 de julho, foi o grande estopim da 
explosão de solidariedade, que se transformou na principal arma de luta dos grevistas 
contra as baionetas e os sabres da polícia. Uma enorme manifestação popular, com bandeiras 
negras e vermelhas, refletia a dor e a sede de justiça proletária. As barreiras impostas 
pelo policiamento eram rompidas pela multidão que seguia impetuosa até o cemitério. Como 
de praxe, este funeral - transformado em ato político -, resultou em forte repressão por 
parte da polícia e das tropas do exército, uma vez que alguns batalhões recusaram-se a 
intervir. Encorajadas pela mobilização, várias entidades de classe de São Paulo, Rio de 
Janeiro, Minas Gerais, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Sul vão se juntando ao movimento 
grevista.

Depois de ter enterrado a primeira vítima da greve, o Comitê de Defesa Proletária, núcleo 
articulador dos diversos setores em São Paulo, reuniu-se, clandestinamente, na noite de 11 
de julho, com representantes de trinta e seis associações operárias e de várias comissões 
de grevistas com o objetivo de agrupar num único Documento/memorando, as reivindicações 
comuns a todas as categorias profissionais, previamente discutidas nas suas respectivas 
agremiações. Com os comércios fechados e os transportes parados, os governos se viam 
impotentes diante da ação operária insurgente. A repressão apenas fortalece a luta e a 
greve segue firme, com piquetes e sabotagens em fábricas e passeatas pelas ruas.

No Rio Grande do Sul, segundo o companheiro gráfico Polidoro Santos o anarquismo registra 
atividades desde fim do século XIX. Ao calor da greve generalizada dos 21 dias, em 1906, 
os trabalhadores anarquistas agrupados na União Operária Internacional (UOI) e, através do 
jornal A Luta, fizeram ativa propaganda de um sindicalismo de ação direta, formado por 
organizações de resistência da classe operária, com independência política de governos, 
partidos e patrões.

A partir de 1909 o sindicalismo classista que praticavam os libertários se integra na 
Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS). As ligações com associações do interior 
eram mais esporádicas e a FORGS congregava, sobretudo, organizações operárias de Porto 
Alegre, tendo sede no Ateneu Operário da rua Santo Antônio. Teve atividade contínua pelo 
menos de 1909 até 1927.

Em 1917 os primeiros incidentes se dão quando em Santa Maria um grupo de ferroviários da 
Viação Férrea do Rio Grade do Sul se apossa de uma locomotiva e percorre a linha de 
Marcelino Ramos propagandeando a greve. No dia 29 de julho circularia amplamente um 
protesto que denunciava a exploração dos trabalhadores pela administração da ferrovia.

A assembléia dos operários dos canteiros, pedreiros e carpinteiros, onde o anarquismo 
radicava uma posição forte, bem como a agitação da UOI (União Operária Internacional) por 
uma reunião geral de todas categorias na FORGS, no domingo 29 de julho, deram o estalo 
para a greve geral em Porto Alegre. Mais de 500 trabalhadores se reuniram para aprovar a 
declaração de greve, nomear um comando que se chamou Liga de Defesa Popular (LDP) e 
demarcar uma pauta de reivindicações. A FORGS dirigida em 1917 pelo socialismo reformista 
foi empurrada para a Greve Geral a contra gosto de seus dirigentes.

A pauta de reivindicações versava sobre pontos que atendiam sentidas demandas populares, 
como o preço dos alimentos, moradia e transporte coletivo, bem como questões classistas de 
luta contra a patronal, como a redução da jornada de trabalho para 8 horas, o aumento de 
25% sobre os salários e a regulamentação do trabalho de mulheres e crianças.

No dia 30, boletins da FORGS e do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Classes Anexas, 
distribuídos e afixados em postes no Campo do Bomfim, convocam os trabalhadores para uma 
concentração pública na Praça da Alfândega para o dia seguinte. A LDP (Liga de Defesa 
Popular) havia preparado um comício para publicizar a greve no dia 31 de julho.

Ao meio-dia os ferroviários do Rio grande do Sul se declaram em greve, o que já 
condicionou a paralisação do alto comércio neste dia. Na tarde do dia 31 já estavam em 
greve as estações de Porto Alegre, Santa Maria, Rio Grande, Bagé, Gravataí, Passo Fundo, 
Couto, Cacequi e Rio Pardo. O inspetor da Viação Férrea promete despedir todos os 
grevistas, passa a admitir funcionários não especializados e solicita a imediata 
intervenção das tropas militares.

Uma hora antes do comício já era intenso o movimento de populares na praça da Alfândega, 
em Porto Alegre. Meia hora depois chegava o policiamento, com mais de 120 homens da BM 
(brigada militar), Piquete da Chefatura de Polícia, Escolta Presidencial, Polícias 
Administrativa e Judiciária.

O comício foi aberto por Luiz Derivi e contava com a participação de cerca de 4.000 a 
5.000 pessoas e forte reforço policial. Cecílio Vilar dá o tom logo a seguir:

"o momento não é para conciliações, é de luta. A luta mais justificável, a luta pela vida. 
Os operários devem se erguer como um só homem, para sair as ruas e conquistar o pão que 
nos está sendo roubado e a fim de protestar contra a exploração de que é vítima a classe 
trabalhadora".

Entre 31 e 4 de agosto a vida urbana em Porto Alegre foi completamente alterada. 
Participaram da greve pedreiros, padeiros, trapicheiros e estivadores, trabalhadores da 
Cia (companhia) Força e Luz, operários têxteis, carroceiros, caixeiros, choferes, 
tipógrafos, entre outros. Estimativas apontam para cerca de 30.000 grevistas em Porto Alegre.

No dia da deflagração da greve se reuniu a União dos Condutores de Veículos, decidindo a 
adesão da categoria. Estes trabalhadores passariam a controlar o tráfego na capital. No 
dia 1º de agosto o diretor da Santa Casa dirige-se à FORGS para solicitar providências no 
sentido de manter o fornecimento de gêneros à casa de saúde. Foram fornecidos ao diretor 
dois salvo-condutos, assim como ao Hospício São Pedro e Asilo da mendicidade, e estaria 
livre a venda de gêneros as residências onde houvesse doentes. No salvo-conduto, em cujo 
topo lia-se "Justiça", em vermelho constava também: "O portador do presente tem plena 
autorização da Liga de Defesa Popular (LDP) para conduzir carne verde e outros artigos 
destinados aos doentes da Santa Casa". Sem o documento não havia circulação de carroças.

No dia 2 de agosto se dá uma ocupação militar da estação de Santa Maria. Em represália, os 
grevistas arrancam trilhos, derrubam pontes e bloqueiam a via com dormentes e postes 
telegráficos em vários pontos do estado. Alguns trens passam a circular guarnecidos por 
tropas. Em Passo Fundo há violentos choques entre ferroviários e forças militares.

Neste mesmo dia é convocada uma manifestação pública para pressionar o governo, cujos 
locais de concentração seriam a FORGS e a Praça dos Navegantes. A manifestação se dirigiu 
ao palácio do governo estadual, onde uma comissão da LDP (Liga de Defesa Popular), 
composta pelos anarquistas Luiz Derivi, Cecílio Vilar e Zenon de Almeida é recebida pelas 
autoridades. Borges de Medeiros declara que decretaria medidas de controle da exportação e 
atenderia a questão de horas de trabalho e salários para os empregados do estado. A 
comissão saiu do palácio e comunicou aos já estimados 5000 manifestantes os intentos do 
governo estadual e municipal. Após as promessas de Borges a greve não declinou e tampouco 
se tornou mais "pacífica".

A partir daí aumenta a pressão pelo fim da greve tanto pela imprensa como pela polícia. No 
dia 3 o Chefe de Polícia ameaçou a proibir os meetings e as reuniões em praças públicas, e 
a partir da tarde são proibidos os "ajuntamentos". A cidade se assemelhava a uma praça de 
guerra e em todos os recantos suspeitos havia pelotões de infantaria e patrulhas de 
cavalaria cruzavam com freqüência. Nessas condições, sem possibilidade de manifestações, a 
greve se reduziria ao confronto patrão-empregado. Durante todo o dia 4 são feitas reuniões 
na sede da FORGS avaliando a situação, e às 23h a LDP (Liga de Defesa Popular) publica um 
boletim anunciando o fim da greve e comprometendo-se a apoiar as categorias que ainda se 
mantivessem paralisadas. Manter-se-ão ainda paralisados estivadores, padeiros, alfaiates, 
sapateiros, chapeleiros, pedreiros e carpinteiros, calceteiros e canteiros, operários de 
fábricas de móveis e operários de fábricas de meias.

No dia 5 de agosto chega ao fim a greve dos ferroviários, diante da violenta intervenção 
das tropas federais, e sem nenhuma reivindicação conquistada devido a intransigência da 
direção da Viação Férrea, controlada na época por uma concessionária belga.

Também haveria greves importantes em Pelotas, Rio Grande, Passo Fundo, Santa Cruz, 
Montenegro, Bagé e outros centros.

Em relação a totalidade das reivindicações, pode-se dizer que houve vitória parcial dos 
trabalhadores. Muitos militantes anarquistas tiveram que sair de Porto Alegre devido às 
perseguições resultantes de sua atuação na greve, sobretudo após os movimentos que vieram 
em seguida em 18 e 19.

PORTANTO, COMPAS: "É PRECISO QUE NOS REVOLTEMOS, LUTANDO SEMPRE", tal como declarou Zenon 
aos compas sapateiros, na conferência que já fizemos memória.

"QUE IMPORTA QUE A AURORA SEJA RUBORIZADA PELO CLARÃO DO INCÊNDIO!" avisou Spartacus do Sul.

"QUE IMPORTA QUE NA MADRUGADA DESSE DIA A TEMPESTADE SEJA TEMPESTADE DE SANGUE! O SOL É 
MAIS BRILHANTE DEPOIS DO VENDAVAL."

HOMEM LIVRE, MULHER LIVRE, SOBRE A TERRA LIVRE!

À LUTA E À ORGANIZAÇÃO!

Com Espertirina, Eulina e as valentes irmãs Martins, Djalma Fetterman, Reinaldo Geyer, 
Nino e a ação direta que respondeu aos carrascos e algozes do movimento operário. Com a 
pedagogia libertária de Dorvalina, a agitação de classe e feminina de Alzira, a luta 
incansável de Luiz Derivi entre os pedreiros, de Polidoro Santos e o grupo solidários dos 
gráficos, a convicção libertária e classista de Orlando Martins.

Conosco ficam os exemplos de uma vida rebelde que não se amansa, que não se dobra ao 
opressor. Para armar o cotidiano social-político e nossas práticas de resistência com 
aqueles valores de solidariedade, liberdade e justiça que dão sentido para palavra COMPA. 
Para não ceder nossa vontade libertária e se acomodar ao mundo miserável, dominador e 
opressivo que tanto repudiamos.

Esse é o sentido e o valor da memória que aqui reclamamos em alta voz. Sempre com os que 
lutam e os que não vendem sua independência por confortos e privilégios da máquina de 
picar carne do sistema capitalista. Com o socialismo e a liberdade no coração que não teme 
as ruínas e que leva um mundo novo por onde passa e naquilo que faz.

NÃO SE AJUSTA QUEM PELEIA.

VIVA A ANARQUIA!!!!

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/08/03/100-anos-da-greve-geral-de-1917-2/


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