(pt) federacao anarquista gaucha: Elementos do Partido Anarquista (Organização Específica Anarquista)

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Segunda-Feira, 24 de Abril de 2017 - 11:09:05 CEST


Publicamos novamente um conjunto de trechos de diferentes períodos históricos e de 
diversos militantes que discutem a importância da organização dos anarquistas em partido, 
isto é, em organização especificamente ideológica. Uma explicação: não confundir o 
conceito "partido" tal como os autores e nós utilizamos, com aquele caracterizado pela 
filiação aberta, pela hierarquia interna e pela disputa eleitoral e do aparato estatal. 
Por partido designamos um grupo de militantes anarquistas reunidos em virtude de objetivos 
e organizados de maneira federativa para atuar em direção a transformações revolucionárias 
da sociedade. O especifismo - corrente anarquista que se consolida enquanto tal na América 
Latina - se inspira nesse conjunto de contribuições e reflexões para poder fazer da 
anarquia uma ferramenta de luta e organização atenta às diferentes conjunturas, à 
realidade de cada formação histórica e social e aos contornos ideológicos do nosso povo.

Federação Anarquista Gaúcha - FAG

A Aliança e a Internacional. Mikhail Bakunin
A aliança é o necessário complemento da Internacional. Mas a Internacional e a Aliança, 
ainda quando têm a mesma finalidade, ao mesmo tempo perseguem objetivos diferentes. Uma 
tem a missão de agrupar as massas operárias, os milhões de trabalhadores, através dos 
diferentes países e nações, através das fronteiras de todos os estados; a outra, a 
Aliança, - tem a missão de dar a estas massas uma orientação realmente revolucionária. Os 
programas de uma e de outra, sem que de modo algum sejam opostos, são diferentes pelo grau 
de seu respectivo desenvolvimento. O da Internacional, se o tomamos com toda a serenidade 
que exige o caso, convém o germe, mas solo em germe, todo o programa da Aliança, O 
programa da Aliança é a explicação última do programa da Internacional.

Nunca se deve renunciar ao programa revolucionário claramente estabelecido, nem pelo que 
tange à forma, nem pelo que tange a sua substância. As reticências, as meias verdades os 
pensamentos castrados e as complacentes atenuações e concessões de uma diplomacia covarde 
não são os elementos com que se formam as grandes coisas; estas só se formam em corações 
com espírito justo e firme, com uma finalidade claramente determinada e com uma grande 
valentia.

Sabemos que em política não há prática sincera e útil possível sem uma teoria e uma 
finalidade claramente determinada. Não cabe dúvida de que o número de nossos aderentes 
será maior se evitarmos precisar nosso real caráter. Mas já disse o provérbio que quem 
muito abarca mal abraça: compraríamos todas estas preciosas adesões ao preço de nossa 
completa aniquilação.

Nós, bem ou mal, conseguimos formar um pequeno partido; pequeno em relação ao número de 
pessoas que aderiu a ele com conhecimento de causa, mas imenso com respeito a seus 
aderentes instintivos, a estas massas populares cujas necessidades representamos melhor 
que qualquer outro partido. Agora deveremos navegar todos juntos no oceano revolucionário, 
e daqui para frente devemos propagar nossos princípios, não com palavras, mas com fatos, 
porque afinal é a mais popular, poderosa e irresistível forma de todas propagandas.

O que devem fazer as autoridades revolucionárias (e procuremos que estas sejam as menos 
possíveis)? O que devem fazer para estender e organizar a revolução? Não devem fazer a 
revolução por decreto: não devem impô-la as massas. Não devem impor a elas uma 
organização, seja a que for, mas, promovendo sua organização autônoma de baixo pra cima, 
devem trabalhar por enlace, com ajuda da influência individual sobre os indivíduos mais 
inteligentes e influentes de cada localidade, afim de que essa organização seja adequada 
na maior medida possível a nossos princípios.

Não pensem que eu estou advogando em prol da anarquia absoluta nos movimentos populares. 
Uma anarquia como essa não seria nada mais que a completa ausência de pensamento, de 
finalidade e de conduta comum, e necessariamente haveria de desembocar em uma impotência 
geral.

Tudo o que existe, tudo é viável se produz dentro de certa ordem, que lhe é inerente e que 
demonstra o que há em si. Os revolucionários políticos, os partidários da ditadura 
ostensiva, recomendam, uma vez que a revolução tenha obtido sua primeira vitória, o 
apaziguamento das paixões, a ordem, a confiança e a submissão aos novos poderes 
estabelecidos. Desta maneira reconstituem o estado.

Para que se possa atuar é necessário que exista uma organização, e para isso é necessário 
prepará-la e organizá-la antecipadamente, pois não se fará por si só, nem por discussões, 
nem por exposições e debates de princípios, nem por assembléias populares. Por mais 
inimigo que seja do que na França se chama disciplina, reconheço que uma certa disciplina, 
não automática mas sim refletida, é e será sempre necessária cada vez que muitos 
indivíduos, livremente unidos, empreendam um trabalho ou uma ação coletiva; não importa qual.

Em tais casos a disciplina não é nada mais que a concordância voluntária e reflexiva de 
todos os esforços individuais rumo a um fim comum. No momento da ação, em meio à luta, os 
papéis se dividem naturalmente segundo as aptidões de cada um, apreciadas e julgadas por 
toda a coletividade: uns dirigem e mandam, e outros executam ordens. Mas nenhuma função se 
petrifica, se fixa, nem permanece irrevogavelmente aderida a pessoa. A ordem e a promoção 
hierárquicas não existem, de maneira que o comandante de ontem pode ser o subalterno de 
hoje. Nesse sistema já não há, a rigor, poder. O poder se funde na coletividade e se 
converte em sincera expressão da liberdade de cada um, na realização fiel e seria da 
vontade de todos. Todos obedecem somente porque o chefe de cada dia não ordena senão o que 
todos querem. Tal é a disciplina verdadeiramente humana, a disciplina necessária para a 
organização da liberdade. A unidade viva, verdadeiramente poderosa, e a que queremos 
todos, é a unidade que a liberdade cria nas entranhas das diversas e livres manifestações 
da vida, expressando-se pela luta.

***

Anarquismo e Organização - Errico Malatesta
O fato de que pode existir uma coletividade organizada sem autoridade, isto é, sem 
coerção, sendo admitido - e os anarquistas devem admiti-lo, senão teria sentido -, nos 
leva à organização do partido anarquista. Um matemático, um químico, um psicólogo, um 
sociólogo podem afirmar que não têm programa, ou que seu único programa é a procura da 
verdade; eles querem conhecer, e não agir. Entretanto o anarquismo e o socialismo não são 
ciências: são objetivos, projetos que os anarquistas e os socialistas querem pôr em 
prática e que têm necessidade de ser formulados em programas bem determinados.

Basta ver o que sempre se passou entre nós: quanto menos organizados nos encontramos, mais 
submissos estivemos à vontade de um indivíduo. É natural que assim seja. Logo, longe de 
criar a autoridade, a organização é a única solução contra a autoridade e a única maneira 
de fazer com que cada um de nós se habitue a tomar parte ativa e consciente no trabalho 
coletivo e deixe de ser um instrumento passivo nas mãos dos chefes. Entretanto, nos dirão, 
uma organização supõe a obrigação de coordenar sua própria ação com a dos outros, o que 
viola e impede a iniciativa. Parece-nos que o que realmente priva a liberdade e torna a 
iniciativa impossível, é o isolamento que reduz à impotência. A liberdade não é um direito 
abstrato, mas a possibilidade de fazer alguma coisa: é verdade para nós e também para a 
sociedade em geral. É na cooperação com os outros homens que o homem encontra a razão de 
ser de sua atividade e de seu poder de iniciativa.

"Ficaríamos muito contentes se pudéssemos estar todos de acordo e unir todas as forças do 
anarquismo em um movimento forte, etc. É preferível estarmos desunidos que mal unidos. Mas 
gostaríamos de esperar que cada um una-se a seus companheiros e que não haja forças 
isoladas, isto é, perdidas."

***

O pensamento de Malatesta, Capítulo IX - A revolução
São as massas as que fazem a revolução, mas as massas não podem prepará-la tecnicamente. 
Fazem falta os homens, os grupos, os partidos, ligados por livres pactos, comprometidos ao 
segredo, de posse dos meios necessários que podem criar essa rede de comunicações rápidas 
indispensáveis para o rápido conhecimento de todos os fatos suscetíveis de provocar um 
movimento popular e sua rápida propagação. E quando dizemos que a organização 
revolucionária deve ser uma organização específica construída fora dos partidos oficiais é 
porque estes tem outras tarefas que excluem o segredo necessário para as coisas ilegais, 
mas é também, sobretudo, porque não temos confiança na vontade revolucionária dos partidos 
afins a nós, tal como estão hoje constituídos.

"Toda idéia nova, toda instituição nova, todo progresso e toda revolução tem sido obras de 
minorias."

***

Ideologia Anarquista - Editorial Recortes - Errico Malatesta
Eu creio que as revoluções não se fazem sem as massas, mas é preciso começar a tomar as 
massas tal como são. As multidões são móveis, mas se em certo momento nos abandonam as 
voltaremos a encontrar quando as circunstâncias nos sejam precisas. O importante é que 
haja uma vontade revolucionária nas minorias mais capazes de reagir e rebelar-se com o 
próprio esforço contra o ambiente. O importante é formar núcleos, o mais numerosos que se 
possa, de acordo, mas de gente consciente, segura e abnegada, que em sua hora saibam mover 
as multidões.

É preciso, portanto, em tempos normais atender ao trabalho longo e paciente de preparação 
e organização popular e não cair na ilusão da revolução a curto prazo, fatível só por 
iniciativa de poucos, sem suficiente preparação nas massas. A esta preparação, enquanto 
sejam possíveis em ambiente adverso, tendem entre outras coisas a propaganda, a agitação e 
a organização entre as massas, que não devem ser descuidadas nunca.

A um partido autoritário, que procura se apropriar do poder para impor as próprias idéias, 
interessa que o povo siga sendo uma massa amorfa, incapaz e portanto que siga sendo sempre 
fácil de dominar. Por conseqüência, não deve desejar mais que aquele pouco de organização, 
e do tipo que lhe interessa, para alcançar o poder: organização eleitoral, se espera 
alcançá-lo por meios legais; organização militar se conta, por sua vez, com uma ação violenta.

Temos nos dado o dever de lutar contra a presente organização social e de abater os 
obstáculos que se opõem ao advento de uma nova sociedade em que liberdade e bem estar 
estejam garantidos para todos. Para alcançar este objetivo, nos unimos em partido e 
procuramos ser o mais numerosos e mais forte possível. Mas se só estivesse organizado 
nosso partido; se os trabalhadores permanecessem isolados como tantas unidades 
indiferentes umas das outras e unidos só por uma cadeia em comum; se nós mesmos, além de 
estar organizados em partido enquanto anarquistas, não estivéssemos organizados com os 
trabalhadores enquanto trabalhadores, não poderíamos conseguir nada, ou no melhor dos 
casos não poderíamos nos impor...e então já não haveria triunfo do anarquismo mas um 
triunfo nosso. Por muito que nos chamássemos anarquistas, na realidade não seriamos mais 
que simples governantes e seriamos impotentes para o bem como são todos os governantes.

Como anarquistas devemos nos organizar, entre gente perfeitamente convencida e de acordo 
entre si, e entorno de nós devemos organizar, em associações amplas, abertas, a maior 
quantidade possível de trabalhadores, aceitos como são e nos esforçando para fazê-los 
progredir o máximo que podemos.

Não basta desejar uma coisa: se sequer obtê-la de verdade tem que se empregar os meios 
adequados para consegui-la. E estes meios não são arbitrários, senão que derivam 
necessariamente do fim que se aponta e das circunstâncias em que se luta, já que 
enganando-se a respeito da escolha dos meios não se chegaria ao fim proposto mas a outro, 
talvez oposto, que seria conseqüência natural e necessária dos meios empregados.

***

A organização anarquista - Luigi Fabbri
Por organização entendemos a união dos anarquistas em grupos e a união federal dos grupos 
em si, sobre a base de idéias comuns e de um trabalho prático comum a realizar.

Nem mesmo remotamente queremos nos solidarizar com idéias e métodos que não são os nossos 
e, consequentemente, desejamos evitar a confusão que nos une indiscriminadamente e que 
torna a nossa propaganda caótica, contraditória e sem resultado.

É preciso reconhecer que a organização é um meio de se diferenciar, de se precisar um 
programa de idéias e de métodos estabelecidos, um tipo de bandeira de reunião para se 
partir ao combate sabendo-se com quem se pode contar e tendo-se consciência da força que 
se pode dispor.

Assumimos o nome porque ele precisa a nossa idéia e as nossas proposições, porque ele 
possui o valor de um programa. Dizemos, por exemplo, partido anarquista, entendendo 
simplesmente por isso o conjunto de todos aqueles que combatem pela anarquia. Quando 
dizemos federação socialista-anarquista, pensamos na união pré-estabelecida dos indivíduos 
e grupos aderentes que, em determinada localidade, puseram-se de acordo em torno de um 
programa de idéias e métodos.

Todos aqueles que o aceitam formam a organização cujo programa foi assim 
auto-estabelecido, sejam eles grupos ou indivíduos; cada grupo e cada federação decide, 
através de sua correspondência, dos jornais, dos congressos, etc., a maneira pela qual 
concordam para desenvolver a ação comum, as formas de organização federal e os grupos e 
modalidades internas.

Entretanto, organizar-se e diferenciar-se daqueles que, em algum ponto essencial, não 
estão de acordo conosco na interpretação do termo e dos métodos da anarquia, não significa 
que pretendemos o monopólio do termo e do movimento anarquista ou que queiramos excluir 
quem quer que seja da grande família libertária. Mas sermos todos da mesma família, não 
significa que tenhamos todos as mesmas idéias e o mesmo temperamento, nem que queiramos 
fazer a mesma coisa e que estejamos de acordo sobre tudo. Na maioria da famílias é antes o 
contrário o que ocorre.

Os anarquistas que estão organizados sabendo já o que fazem pois as prórpias formas 
exteriores os lembram constantemente que estão associados , que discutem do seu ponto de 
vista toda a proposição, venha de onde venha, estão menos expostos as surpresas. 
Justamente porque a união faz a força, eles podem opor uma maior força de resistência as 
sugestões dos camaradas mais inteligentes, mais simpáticos ou mais ativos. Eles sabem se 
organizar e é reconhecidamente mais difícil manipular uma massa de pessoas conscientes de 
sua situação, do que uma numerosa quantidade de inconscientes.

A organização anarquista deve ser a continuação de nossos esforços e da nossa propaganda; 
ela deve ser a conselheira libertária que nos guia em nossa ação de combate cotidiano. 
Podemos nos basear em seu programa para difundir a nossa ação em outros campos, em todas 
as organizações especiais de lutas particulares nas quais possamos penetrar e levar nossa 
atividade, por exemplo nos sindicatos...Nossa organização especial pode servir igualmente 
como um terreno para a concentração anarquista (não de centralização!), como um campo de 
acordo, de entendimento e de solidariedade a mais completa possível entre nós.

Para que exista coerência entre teoria e prática, é preciso antes de mais nada que seja 
definido o programa teórico, nos limites do qual a prática se apóie para não contradize-lo.

A organização não é um órgão consciente em si, que guie os seus membros; são estes membros 
que a fazem segundo seus próprios critérios teóricos e práticos. A organização não pode 
transformar anarquistas em não-anarquistas, mas sim os anarquistas que mudando-se a si 
mesmos podem transformar uma organização anarquista em autoritária.

Muitos nos objetam que toda coletividade é suscetível de dividir-se em maioria e minoria, 
e que, em muitos casos a organização fará com que a minoria deva submeter-se a maioria. 
Nós, ao contrário, não admitimos dominações deste tipo, e por isso não damos nem a maioria 
nem a minoria o direito e os meios de poder se impor.

Certamente uma divisão de pontos de vista e de opiniões podem surgir. Se a discórdia brota 
das idéias e da tática fundamental, é preciso que as duas partes se separem, pois elas 
constituem, a partir de então, dois partidos distintos. Foi desta forma que nós, 
anarquistas, quando a diferença apareceu como irremediável e muito grande, separamo-nos 
dos socialistas autoritários no seio da Internacional.

Se for no próprio seio da organização que o desacordo surgir, que a divisão entre maioria 
e minoria aparecer por questões secundárias, sobre modalidades práticas ou sobre casos 
especiais, então não se pode acusar de incoerência nenhuma parte nem outra; então poderá 
ocorrer com maior ou menor facilidade que a minoria se incline a fazer conforme a maioria. 
Mas, como esta condescendência somente pode ser voluntária, todo o caráter de autoridade e 
coerção está ausente. É natural que sejam os menos numerosos que cedam pois mesmo estes 
serão de opinião de que é preferível, para a economia geral das forças, que seja uma 
minoria e não uma maioria quem suporte um dado inconveniente.

Em toda a convivência existe divisão de trabalho entre os associados; alguns deles devem 
se encarregar de funções sociais necessárias e úteis a todos. Tais funções possuem hoje em 
dia um caráter autoritário porque são exercidas em grande parte por organismos 
autoritários, mas não são em si a autoridade.

Creio que nenhum anarquista sustentará que em anarquia se deva abolir o serviço postal ou 
o ferroviário somente pelo fato de que hoje os correios e estradas de ferro são geridos de 
maneira infame pelo estado capitalista. O que vale para a sociedade futura vale para as 
organizações anarquistas, que delegam a alguns de seus membros responsabilidades para 
cumprir uma função determinada e não para exercer um poder. Delegação de função e não 
delegação de poder. Não se pode fazer mais do que delegação de função no momento em que em 
certo círculo não podem todos os camaradas ser ao mesmo tempo o tesoureiro e o secretário, 
da mesma forma de que não podem todos por-se a realizar uma função para qual basta o 
trabalho de um só.

A necessidade de tais mandatos amplia-se e torna-se mais forte quando a organização é 
maior e os seu campo de atividade mais amplo. Mas basta que os delegados não possam agir 
em nome da associação a não ser quando seus membros lhes tenham explicitamente autorizado; 
eles devem executar somente aquilo que os associados decidiram e não ditar aos associados 
o rumo a seguir.

Se algum gérmen de autoridade pode se personificar nestes representantes da associação 
este seria uma autoridade moral, sem perigo de que possa se transformar em autoridade 
coercitiva de fato. E um tal tipo de autoridade assim surgida nunca seria tão forte como 
aquela que um companheiro ativo e inteligente pode desenvolver em um meio desorganizado.

***

Manifesto Comunista Libertário 1953 - George Fontenis
Há uma concepção que postula que a iniciativa espontânea das massas basta para fazer 
possível a revolução. Tal mito leva a uma demagogia populista, a apologia da rebelião sem 
princípios, eventualmente reacionária, a inação e a capitulação.

Em oposição a isto, encontramos uma concepção puramente voluntarista que atribui a 
iniciativa revolucionária unicamente a organização de vanguarda. Esta idéia contém, de 
fato, o germe da contra-revolução estatista e burocrática.

Próxima a idéia da espontaneidade, vemos uma teoria afim no qual a organização de massas, 
sindicatos por exemplo, não só são auto-suficientes, senão que suficientes para tudo.

Longe do espontaneísmo, do voluntarismo e do empirismo, destacamos a necessidade da 
organização anarquista revolucionária específica, concebida como a vanguarda consciente e 
ativa das massas populares.

A vanguarda revolucionária, certamente, exerce um rol de guia e liderança em relação ao 
movimento de massas. A organização revolucionária deve sua criação ao fato de que a 
maioria dos trabalhadores conscientes sentem sua necessidade, quando se confrontam com o 
processo desigual e coesão inadequada das massas. O que deve ficar claro é que a 
organização revolucionária não deve constituir um poder sobre as massas. Seu papel de guia 
deve ser concebido como a formulação, a expressão de uma orientação ideológica, 
organizativa e tática; orientação que deve ser precisada, elaborada e adaptada com base 
nas aspirações e experiências das massas.A função diretiva da organização revolucionária, 
sem nenhum meio coercitivo, só pode se manifestar em seu esforço por fazer triunfar sua 
ideologia, intentando que as massas populares se impregnem profundamente de seus 
princípios teóricos e de suas diretrizes táticas. É uma luta através das idéias e do 
exemplo. A vanguarda deve se dar por tarefa o desenvolvimento da responsabilidade política 
direta das massas, sua meta é o desenvolvimento da capacidade de auto-organização das 
massas. Esta concepção da "direção" é de uma só vez natural e educativo. Do mesmo modo, os 
militantes melhor preparados e mais maduros no interior da organização, tem o rol de guiar 
e de educar aos outros membros, para que todos fiquem bem informados e alertas, tanto no 
terreno teórico como prático, para que todos possam ser protagonistas em seu turno.

Se a minoria ativa se separa das massas, então não pode exercer sua função e se transforma 
em uma seita ou em uma classe.

Em última instância, a minoria revolucionária não pode ser mais que um servente dos 
oprimidos. Tem enormes responsabilidades, mas nenhum privilégio.

Sejam quais sejam as circunstâncias, a minoria nunca deve esquecer que seu objetivo final 
é desaparecer e se fundir nas massas quando estas alcancem seu maior grau de consciência, 
durante a realização revolucionária.

Na prática há duas formas em que a organização revolucionária pode influenciar as massas: 
está o trabalho em organizações de massas estabelecidas e está o trabalho na propaganda 
direta. Este segundo tipo de atividade toma lugar através de periódicos e revistas, 
campanhas reivindicativas e de agitação, debates culturais, ações solidárias, protestos, 
conferências e comícios públicos.Este trabalho direto é essencial para ganhar forças e 
para conquistar certa parcela de opinião pública, que seria de outro modo inacessível.

No interior das organizações de massas, sociais e econômicas, a influência deve ser 
exercida e fortalecida não através de um sistema de decisões externas, senão que através 
da presença ativa e coordenada dos militantes anarquistas nelas.

Este trabalho de inserção deve transformar a organização específica de minoritária a 
majoritária, ao menos desde o ponto de vista da influência.

Também deve ser evitada qualquer monopolização, seja concentrando todas as atividades da 
organização específica sobre a organização de massas, seja atribuindo inteiramente a 
direção da organização de massas a membros da organização específica, o que apartaria 
outras opiniões. Cabe ressaltar aqui que a organização específica deve promover e defender 
nos organismos de massas, não só um funcionamento e uma estrutura democráticas e 
federalistas, mas além do mais uma estrutura "aberta", isto é, que facilite o acesso a 
estas organizações de todos os elementos que todavia não estão organizados, com o fim de 
que estas organizações adquiram novas forças sociais, estendam seu caráter representativo 
e permitam a organização específica ter o maior contato possível com as massas.

Mas no que respeita as questões de tática, o problema é diferente. Pode se buscar a 
unanimidade, mas só até certo limite, se, para conciliar as distintas posições, haja que 
renunciar a tomada de decisão: os acordos evasivos transformam a organização em uma casca 
vazia, sem substância nem utilidade, já que a organização tem por objetivo a coordenação 
das forças até uma meta comum. Então, quando todos os argumentos para as diferentes 
propostas tem sido feitos, quando a discussão não pode continuar sendo frutífera, quando 
as opiniões similares que concordavam em princípio tem se fusionado e ainda fica uma 
oposição irredutível entre as táticas propostas, então a organização deve encontrar uma 
saída. E para isso, só há quatro possibilidades:

a) Não decidir nada, rechaçar a ação, perdendo a organização, assim, toda razão para existir .

b) Aceitar as diferenças táticas e deixar cada um com sua própria postura. A organização 
pode aceitar isto em certos casos, em certos pontos que não sejam de crucial importância.

c) Consultar a organização por um voto que permita determinar uma maioria, a minoria 
aceitaria calar seu ponto de vista na ação pública, mas poderia seguir o debate no seio da 
organização, estimando que com o tempo, se sua posição é mais acertada com a realidade, 
acabará por triunfar. Tem se reprovado as vezes neste método sua falta de objetividade, ao 
considerar que os números não refletem sempre a verdade, e que as maiorias não tem sempre 
razão, mas é o único método possível. Além do mais, não apresenta tendências coercitivas, 
já que só pode ser aplicado ao ser aceito por todos os membros da organização, e ao ser 
aceito pela minoria como uma necessidade, permitindo assim experimentar as proposições 
táticas aceitadas.

d) Quando nenhum acordo entre a maioria e a minoria se mostre possível em algum assunto 
crucial, o qual demande que a organização tome posições, há, natural e inevitavelmente, um 
fracionamento.

Em todos os casos, a meta é a unidade tática, e se não se tente alcançar isto, então as 
discussões não são efetivas e as confrontações, infrutuosas. É por isso que a primeira 
solução possível, não dizer nada, tem de ser rechaçada em qualquer caso, e a segunda, 
admitir várias táticas distintas, só pode ser um fato excepcional.

Seguramente, é só nos encontros, onde toda a organização está representada (conferencias, 
congressos, etc...), nos quais podem se decidir a linha tática a seguir.

***

FAU - Declaración de Princípios 1993.
A FAU pretende ser expressão política dos interesses das classes exploradas e os grupos 
dominados, e se põe a serviço dos mesmos, é um motor das lutas sociais.

Um motor que nem as substitui nem as representa. Que sim, pretende dinamizá-las e 
organizá-las, superar seu mero aspecto espontâneo, transcender os vaivens da conjuntura e 
assegurar continuidade as rebeldias, as lutas cotidianas, as expectativas e aspirações, etc.

Para nós, a Organização política é também o âmbito onde vai se acumulando a experiência da 
luta popular, tanto a nível nacional como internacional. Uma instância que impede que se 
dilua o saber que os explorados e oprimidos vão adquirindo atrvés do tempo.

A Organização Política atua também como o cenário de produção das análises conjunturais e 
das orientações fundamentais pertinentes. Por isso, é a Organização política a instância 
adequada para assumir os distintos e complexos níveis de atividade que pode exigir o 
trabalho revolucionário, a única instância capaz de assegurar o conjunto de recursos 
técnicos, materiais, políticos, teóricos, etc. que são condição indispensável para uma 
estratégia de ruptura.

***

Chema Berro y Jose Maria Olaizola - Sindicalismo y transformación social, 1993.
As atuações empurradas a força são difíceis de manter e podem nos levar a situações que 
não controlaremos e que não farão senão nos prejudicar. O convencimento e a participação 
não podem ser substituídos pela coerção, e a utilização desta, se não é em casos muito 
concretos e pontuais e respaldada por uma maioria forte, costuma ser sintoma de 
debilidade. Inclusive nestes casos, se temos ganhado essa maioria, o normal seria que seja 
ela a que exerça, e a coerção da maioria sempre sempre tem recursos para ser mais suave e 
adequada.

***

Nestor Makhno - Dielo Trouda, 1926.
Compreendo a disciplina revolucionária como uma autodisciplina do indivíduo, estabelecida 
num coletivo atuante, de modo igual para todos, e rigorosamente elaborada.

Ela deve ser a linha de conduta responsável dos membros desse coletivo, induzindo a um 
acordo estrito entre sua prática e sua teoria.

Sem disciplina na organização, é impossível empreender qualquer ação revolucionária séria. 
Sem disciplina, a vanguarda revolucionária não pode existir, porque então ela se 
encontrará em completa desunião prática e será incapaz de formular as tarefas do momento, 
de cumprir o papel de iniciador que dela esperam as massas.

Porque os anarquistas "de todo estilo e de todas as tendências" não representavam, mesmo 
em seus grupos específicos, um coletivo homog~eneo, com uma disciplina de ação bem 
definida, não puderam suportar o exame político e estratégico que lhes impuseram as 
circunstâncias revolucionárias.

***

Grupo Dielo Trouda. Plataforma de Organização, 1926.
Como a febre amarela, esta doença de desorganização se introduziu no organismo do 
movimento anarquista e o tem abalado por dezenas de anos.

No entanto, sem sombras de dúvidas, esta desorganização se origina de alguns defeitos de 
teoria: notavelmente de uma falsa interpretação do princípio de individualidade no 
anarquismo, sendo esta teoria frequentemente confundida com a total falta de responsabilidade.

Dispersão e quebra de unidade são arruinantes: uma união bem formada é um sinal de vida e 
desenvolvimento.

Está na hora do anarquismo sair do pântano da desorganização, pôr um fim as infinitas 
vacilações das questões táticas e teóricas mais importantes, mover-se definitivamente em 
direção a um ideal claramente reconhecido, e operar uma prática coletiva e organizada.

Não é o bastante reconhecer a necessidade vital de tal organização: é também necessário 
estabelecer o método para sua criação.

Nós rejeitamos como teoricamente e praticamente inapta a idéia de criar uma organização 
baseada na receita da "síntese", que está reunindo os representantes de diferentes 
tendências anarquistas. Tal organização, tendo incorporado elementos teóricos e práticos 
heterogêneos, seria apenas uma reunião mecânica de indivíduos, cada qual possuindo um 
conceito diferente das questões do movimento anarquista, uma reunião que eventualmente se 
desintegraria ao entrar em contato com a realidade.

O único método que leva à solução do problema de organização geral é, do nosso ponto de 
vista, reorganizar militantes anarquistas ativos baseando-se em posições precisas: 
teórica, tática e organizacional, a base mais ou menos perfeita de um programa homogêneo.

Os princípios fundamentais para a organização de uma União Geral de Anarquistas são os 
seguintes:

Unidade Teórica: a teoria representa a orça que orienta a atividade de pessoas e 
organizações por uma trilha definida e direcionada a um objetivo determinado. Naturalmente 
ela deve ser comum a todas as pessoas e organizações aderentes à União Geral.

Unidade Tática ou Método Coletivo de Ação: uma linha tática comum no movimento é de 
importância decisiva para a existência da organização e para o movimento todo: ela elimina 
o efeito desastroso de várias que se opõe entre si, concentra as forças do movimento, 
oferece à elas uma direção em comum levando, portanto, a um objetivo fixo.

Responsabilidade Coletiva: as áreas da vida revolucionária, sociais e políticas, são, 
acima de tudo, profundamente coletivas por natureza. A união toda será responsável pela 
atividade política e revolucionária de cada membro; da mesma forma, cada membro será 
responsável pela atividade política e revolucionária da União como um todo.

Federalismo: o tipo federalista de organização anarquista, ao mesmo tempo que reconhece os 
direitos de independência, opinião livre, liberdade individual e iniciativa de cada 
membro, requer deles que assumam deveres organizacionais fixos, e exige a execução de 
decisões compartilhadas.

***

Piotr Archinov. Dielo Trouda, 1928.
A pergunta para os anarquistas de todos os países é a seguinte: nosso movimento pode 
contentar-se em subsistir na base de velhas formas de organização, de grupos locais que 
não tem vínculo orgânico entre eles, cada um agindo do seu lado de acordo com sua 
ideologia particular e com sua prática particular? Ou nosso movimento deve ter recursos 
para novas formas de organização que irão ajudá-lo a se desenvolver e a arraigá-lo entre 
uma vasta massa de trabalhadores?

A organização anarquista não será possível se não existir um acordo teórico e 
organizacional, constituindo uma plataforma comum em que milhares de militantes possam 
reunir-se. À medida que aceitarem essa plataforma, ela deve ser obrigatória para todos. 
Aqueles que não reconhecem esses princípios básicos não podem se tornar, e ademais eles 
mesmos não iriam querer, tornar-se membros da organização.

Dessa forma, essa organização será a união daqueles que terão uma concepção comum de uma 
linha teórica, tática e política a ser realizada.

É isso o que caracteriza a responsabilidade coletiva: toda a União é responsável pela 
atividade de cada membro, sabendo que eles realizarão seu trabalho político e 
revolucionário no espírito da União. Ao mesmo tempo, cada membro é inteiramente 
responsável por toda a união, enxergando que sua atividade não será contrária aquela 
elaborada por todos os seus mebros. Isso não significa autoritarismo, como o companheiro 
Malatesta afirma com firmeza, mas é a expressão de um entendimento consciente e 
responsável do trabalho militante.

É por isso que ele só confere a assembléias e suas resoluções o papel de uma espécie de 
conversa entre amigos, na qual se pronunciam somente desejos platônicos.

Na verdade, qual seria o valor de uma assembléia se ela tivesse somente "opiniões", e não 
trouxesse fatos que pudessem ser realizados na vida real? Nenhum. Em um movimento vasto, 
uma responsabilidade unicamente moral e não-organizacional.

***

Leia também:
Definições de um companheiro - Gerardo Gatti
A Greve Geral - Errico Malatesta
Reflexões sobre trabalho de base de matriz libertária
Ecologia Social, ecologia profunda - Murray Bookchin

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/04/18/elementos-do-partido-anarquista-organizacao-especifica-anarquista/


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