(pt) anarkismo.net: Ausência de ideologia de câmbio e a base para a guinada à direita by BrunoL

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Domingo, 23 de Abril de 2017 - 08:53:39 CEST


o pacto de classes do lulismo e a guinada à direita da população desorganizada
É lugar comum ouvir em análises e expressões vindas de todas as camadas da esquerda e da 
centro-esquerda, algo como "quando este povo vai se levantar indignado"? Além do 
sentimento de revolta e frustração - totalmente compartilhado por este que escreve - a 
afirmação também traz elementos de certa condescendência com o governo deposto e algo da 
perigosa inocência politica. Neste breve texto, tento demonstrar como a categoria 
ideologia foi desprezada e, por óbvia consequência, a relação com o oligopólio da mídia - 
em especial com a empresa líder - foi reificada. ---- Se levarmos em consideração os 13 
anos de governo petista na Presidência, nos damos conta de que faltaram elementos 
fundamentais para um projeto de poder prolongado. Quando me refiro a projeção de uma 
vontade política, não significa perpetuar no Poder Executivo a este ou aquele partido, mas 
sim a construir condições de conquistas permanentes e não retorno. Não retornar para 
situações anteriores implica ir além de melhorias materiais - embora estas sejam 
fundamentais - mas também dar um significado ideológico para a base da sociedade.

A pesquisa aplicada pela Fundação Perseu Abramo (FPA, para a pesquisa ver 
http://migre.me/wr8hH), vinculada ao Partido dos Trabalhadores (PT), justo partido de 
governo que foi deposto traz elementos para reflexão. Nesta pesquisa qualitativa realizada 
na periferia de São Paulo capital, os resultados são a difusão de um liberalismo popular 
crescente e a perda de reservas eleitorais para a legenda que financiou o trabalho. Para 
além das constatações do voto mutável, a carga de valores e comportamento, reforçada após 
treze anos de mandato "popular" em Brasília, traz elementos de reflexão.
Considerando quem convive com estas camadas sociais, ou de forma mais apropriada, com a 
pobreza e a exclusão espacial nas regiões metropolitanas, nada disso se trata de 
"novidade". Talvez o elemento novo seja transparecer o debate e trazê-lo à tona. Logo, 
aponto aqui a necessidade mais urgente de uma primeira inflexão, para além de uma 
reflexão. Ou seja, abordo algo que não passa apenas por uma exterioridade (já antes 
abordada nesta publicação), mas pela ausência de um protagonismo político a partir de 
alguma forma de ideologia de câmbio.

Um momento especial que o primeiro governo Lula "deixou passar"

Entendo que se pudermos acumular lições históricas da política brasileira trata-se de não 
repetir erros, e ao mesmo tempo, reeditar exemplos positivos, revigorando-os. Grandes 
campanhas demarcam os momentos cruciais. Através de atividades de comoção coletiva, 
podemos mobilizar setores de uma sociedade, ao mesmo tempo, correndo o risco (no meu ver 
um risco positivo).
Uma campanha fundamental e que motivou ao golpe político de 1954 - consumado com o 
suicídio de Vargas em 24 de agosto daquele ano - foi a do "O Petróleo é nosso". Na 
ocasião, o país não tinha uma empresa petrolífera nacional e o nacionalismo substituiu o 
classismo como motivador de anseios populares. Quando vivemos uma campanha desta 
envergadura, ainda que por alguns meses, a sociedade se polariza, projetando um destino 
coletivo. Quando as campanhas populares conseguem somar a ideia de nação com a do 
interesse da maioria, das classes subalternas, do povo, então é uma ocasião para mobilizar 
corações e mentes. Assim, em situações limite, regionalizadas - como nas greves do ABC de 
1978, 1979 e 1980 - ou nacionais, está dado um momento para acumular forças duradouras.

A conta é de chegada e uma oportunidade de ouro passou. Não por desatenção, mas sim pelas 
escolhas. Ao reconhecer em frações irreconciliáveis do inimigo interno um "possível 
parceiro", o governo Lula, ainda em seu primeiro mandato e passando o susto do Mensalão, 
entregou uma fatia da revolução tecno-científica para a Rede Globo. Afirmo que o padrão 
tecnológico de transmissão de dados seria o equivalente ao período da "modernização". No 
embate pelo padrão do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) teríamos 
uma chance concreta de entrar com os dois pés no século XXI, aí sim arriscando 
desenvolvimento, para além do reforço dos fatores de troca que já tínhamos em 2002.

O tema é espinhoso, mas vale observar a posição do governo Lula através do então ministro 
Hélio Costa (ele mesmo, senador pelo PMDB e ex-correspondente da Voice of America no 
Brasil em pleno AI-5, ver http://migre.me/wr9o3). No mesmo sentido, ressaltar a pujança 
dos consórcios brasileiros de pesquisa que conseguiram chegar à condição de protótipo do 
mesmo Sistema (ver http://migre.me/wr9rg) e a dimensão tétrica do Decreto de 2006 (ver 
http://migre.me/wr9t8). Afirmo o compromisso de sanar as dúvidas de todo este processo no 
debate posterior a publicação ou então em comunicação direta; para este artigo, trago o 
tema do SBTVD-T apenas para demonstrar como um recurso de mobilização poderia ter sido 
utilizado, amarrando desde a base da comunicação popular do século XXI - como nas rádios 
comunitárias, pontos de cultura e todo um universo de ativismo periférico - com um projeto 
nacional, popular (pelos multicanais) e soberano.

Operar uma campanha desta envergadura teria acossado a direita e dito a que vinha um 
projeto nacional e popular que ultrapassasse os arranjos pré-determinados já na Carta ao 
Povo Brasileiro, um pacto que o andar de cima fez a contragosto e na oportunidade devida, 
virou a mesa e de lado. Reforçando o argumento, para além do nacionalismo policlassista da 
Campanha O Petróleo é Nosso, a defesa do SBTVD-T seria nacional e classista. Logo, mais 
incisiva, operando também como um autêntico divisor de águas no ambiente doméstico.
Uma conciliação ideológica que nunca houve - e jamais deveria ter sido cogitada

Ao longo dos treze anos do lulismo como ideologia hegemônica, não tivemos um momento 
sequer de tensão, de acumulação de forças, com exceção da rebelião popular de 2013. Na 
ocasião, foi colocado nas ruas um desafio para ir além do pacto conservador com 
distribuição de renda tornado público com a Carta ao Povo Brasileiro em 2002. Outros 
momentos de tensão interna elevada foram os segundos turnos das eleições de 2002, 2006, 
2010 e principalmente 2014. Na sequência, a campanha permanente de desestabilização bateu 
por direita no segundo governo de Dilma Rousseff. Por esquerda, ou na falta desta, o 
projeto popular ficou relegado ao apelo eleitoral e não ao trabalho cotidiano de organizar 
a luta coletiva, dar significado às conquistas da maioria e não permitir que o aumento da 
chamada "classe C" viesse junto a uma noção de individualismo empreendedor.

O cotidiano da maioria, e em especial da pobreza territorializada - nas chamadas 
periferias - é atravessado por forças importantes: igrejas neopentecostais, exposição 
midiática da TV aberta, currais eleitorais e clientelismo político, compadrio e 
cumplicidade, além de uma constante luta pela sobrevivência, incluindo iniciativas formais 
e informais de micro-empreendedorismo. O avanço ideológico de um neoliberalismo difuso é 
proporcional à ausência de um projeto de Poder do Povo, e obviamente, pela pouca expressão 
das esquerdas no universo simbólico do dia a dia.

Ao subestimar a categoria ideologia, e em especial ao não ousar um confronto mais direto 
com os barões das empresas de mídia, o lulismo entregou a mentalidade política da maioria 
para os abutres de sempre. Reverter essa derrota é tarefa de longo prazo, embora o tempo 
corra contra os interesses da maioria.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais 
(www.estrategiaeanalise.com.br / E-mail e Facebook: blimarocha  gmail.com / Twitter: 
@estanalise)

http://www.anarkismo.net/article/30184


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