(pt) Coisa Preta é um coletivo anarquist: Nativas Feministas Comem Tofu

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Sexta-Feira, 21 de Abril de 2017 - 09:11:49 CEST


Coisa Preta disponibiliza aqui este texto de Margaret Robinson que traz uma releitura 
ecofeminista e póscolonial das lendas Mi'kmaq como base para um veganismo indígena. 
Confira o texto abaixo ou baixe a versão em PDF. ---- Nativas Feministas Comem Tofu ---- 
Margaret Robinson ---- Este texto propõe uma leitura ecofeminista pós-colonial das lendas 
Mi'kmaq como base para uma dieta vegana enraizada na cultura indígena¹. Tal projeto se 
depara com duas barreiras significativas. A primeira é a associação entre veganismo e 
branquitude. ---- Drew Hayden Taylor descreveu se abster de carne como uma prática de 
pessoas brancas (Taylor 2000a, 2000b). Em uma piada no começo de seu documentário, 
Redskins, Tricksters and Puppy Stew, ele faz a pergunta: "Como você chama um Nativo 
vegetariano? Um caçador muito ruim." O ecologista Robert Hunter (1999) descreve as pessoas 
veganas como "eco-jesuítas" e "fundamentalistas vegetarianas", que "forçam indígenas a 
fazer coisas do modo do homem branco" (p. 100-113). Ao projetar o imperialismo branco nas 
pessoas veganas Hunter legitima as onívoras brancas a se conectarem com as Nativas através 
do hábito de comer carne. Em Stuff White People Like, o autor satírico Christian Lander 
(2008) retrata o veganismo como uma tática para manter a supremacia branca. Ele escreve: 
"Como com muitas atividades das pessoas brancas, ser vegana/vegetariana permite com que 
elas sintam como se estivessem ajudando o meio ambiente e lhes dá uma forma meiga de 
sentirem superiores às outras" (p. 38).

Quando o veganismo é construído como uma coisa das pessoas brancas, aquelas pessoas das 
Primeiras Nações que escolhem uma dieta sem carne são retratadas como se estivessem 
sacrificando sua autenticidade cultural. Isso apresenta um desafio para aquelas de nós que 
vêem nossas dietas veganas como compatíveis cultural, espiritual e eticamente com nossas 
tradições indígenas.

Uma segunda barreira ao veganismo indígena é a forma como ele é retratado como um produto 
do privilégio de classe. Oponentes alegam que uma dieta vegana é um luxo uma vez que as 
pessoas mais pobres devem comer qualquer coisa que estiver disponível, e não podem ser tão 
exigentes. Por uma lógica similar, as pessoas pobres não poderiam abster-se de comer 
caviar ou trufas. Os argumentos baseados em classes assumem que especialidades altamente 
processadas ou frutas e vegetais importados compõem a maior parte de uma dieta vegana. 
Eles também ignoram o custo da carne, e assumem que as indústrias subsidiadas de carne e 
laticínios da América do Norte são representativas do mundo.

A minha proposta não é de substituir uma cultura alimentar tradicional e vibrante com uma 
outra associada com a cultura das pessoas brancas privilegiadas. O modelo de alimentação 
da maioria dos Mi'kmaq já é branco, e é complicado pela pobreza. Como uma participante do 
estudo de Bonita Lawrence sobre a identidade indígena urbana de sangue mestiço explicou: 
"As pessoas se habituaram a pensar que a pobreza é indígena - e então a sua sopa de 
macarrão e a sua dieta pobre são indígenas" (2004, p.235). A falta de acesso a comidas 
nutritivas é um problemas que indígenas têm em comum com outros grupos racializados 
oprimidos economicamente. Como argumenta Konju Briggs Jr. (2010), do Instituto Africana na 
Faculdade Distrital de Essex: "Nos E.U.A., as comunidades pobres de cor são frequentemente 
privadas de acessos a comidas frescas e saudáveis, e são desproporcionalmente atingidas 
com as doenças das dietas e estilos de vida ocidentais." Ele identifica isso como uma 
tática da guerra de classes, com o objetivo de "evitar que as pessoas cronicamente mais 
pobres sejam capazes de serem saudáveis, tenham longa expectativa de vida, sejam altamente 
funcionais e se destaquem como seres humanos" (parágrafo 28).

Diversas pesquisadoras (Johnson 1977; Travers 1995; Mi'kmaq Health Research Group 2007) 
notaram que o sistema de reservas produziu uma dieta que é alta em açúcares e carboidratos 
e baixa em proteína e fibra. Como resultado, o povo Mi'kmaq viu um grande crescimento na 
obesidade, diabetes e pedras nos rins. A professora de ecologia humana, Kim Travers 
(1995), citou três causas de dietas pobres em nutrientes entre Mi'kmaqs: baixa renda, 
falta de acesso a transporte e reservas que não são apropriadas para a agricultura, a 
pesca e a caça. Travers percebeu que as habitantes das reservas são freqüentemente 
limitadas a comer proteínas altamente processadas como manteiga de amendoim, salsicha e 
molho bolonhesa.

Tradicionalmente, a dieta Mi'kmaq continha muita carne, consistindo de castor, peixe, 
enguia, pássaros, porco-espinho e, às vezes, animais maiores como baleias, alces ou 
caribus, suplementada com vegetais, raízes, nozes e frutas silvestres. No idioma Mi'kmaq a 
palavra para comida é a mesma que para castor, estabelecendo a carne como modelo do que é 
comestível. O uso de animais como comida também tem um papel proeminente nas lendas Mi'kmaq.

A produção e consumo de comida é associada ao gênero na cultura Mi'kmaq. Caçar era uma 
atividade masculina conectada com a manutenção da virilidade. A primeira morte em uma 
caçada de um menino servia como um símbolo do seu ingresso no mundo dos homens. Rejeitar a 
caça é também rejeitar um método tradicional da construção da identidade masculina. Mas o 
contexto no qual esta identidade é construída mudou significantemente desde a chegada dos 
colonizadores europeus. Carne, como um símbolo do patriarcado compartilhado com as forças 
colonizadoras, é comprovadamente mais assimilador do que práticas como o vegetarianismo.

A teóloga veganafeminista Carol J. Adams (1990) argumenta que a criação da carne como um 
conceito exige a remoção da nossa consciência do animal cujo corpo nós estamos redefinindo 
como comida. Adam escreve:

"A função do referente ausente é manter a nossa "carne" separada de ideia de que ela ou 
ele já foi um animal, manter o "muu"  ou o "cocó" ou "béé" longe da carne, evitar que o 
algo seja visto como alguém. Uma vez que a existência da carne está desconectada da 
existência de um animal que foi morto para se tornar essa "carne", a carne se desassocia 
de seu referente original (o animal) se tornando ao invés disso uma imagem independente, 
usada freqüentemente para refletir o status das mulheres tanto quanto o dos animais" (pág. 
14-15).

Enquanto é evidente no comércio de peles, na indústria pesqueira e nas fazendas 
industriais, essa desassociação que Adams descreve não faz parte dos fundamentos dos mitos 
Mi'kmaq. Nessas histórias a alienação da vida animal, que torna o ato de comer carne 
psicologicamente confortável, é substituída por um modelo de criação no qual os animais 
são retratados como nossas irmãs e irmãos. Nas lendas Mi'kmaq a vida humana e animal fazem 
parte de um contínuo, espiritual e fisicamente. Animais falam, são capazes de se 
transformar em humanos, e alguns humanos casam-se com essas criaturas metamorfas e criam 
crianças animais.² Magos humanos podem assumir a forma de um animal, alguma pessoas se 
transformam no seu animal de totem e outras ainda se transformam em animais contra a sua 
vontade³. Uma análise ecofeminista das lendas Mi'kmaq nos permite enquadrar o veganismo 
como uma prática espiritual que reconhece os humanos e outros animais como possuidores de 
uma pessoalidade compartilhada.

As lendas Mi'kmaq retratam os seres humanos como intimamente conectados com o mundo 
natural, não como entidades distintas dele. A História da Criação Micmac reconta a criação 
de Glooskap, sua avó e, freqüentemente, seu sobrinho e sua mãe. Glooskap é formado da 
argila vermelha do solo e inicialmente não tinha mobilidade, ficando deitado de costas na 
terra (Burke, 2005b;). Sua avó era originalmente uma rocha, seu sobrinho, espuma do mar e 
sua mãe, uma folha. Na história de Nukumi, a avó, o Criador faz uma mulher idosa, a partir 
de uma rocha coberta de orvalho. Glooskap a encontra e ela concorda em se tornar sua avó, 
fornecendo sabedoria em troca de alimento. Nukumi explica que, como uma senhora idosa, ela 
precisa de carne pois não pode viver somente de plantas e frutas silvestres. Glooskap 
chama Marta, e pergunta se ele doaria a sua vida para que a avó de Glooskap pudesse viver. 
Marta concorda por causa da sua amizade. Por este sacrifício, Glooskap faz de Marta seu 
irmão. Essa história representa, através dos personagens de Glooskap e Marta, a relação 
básica do povo Mi'kmaq com as criaturas ao seu redor. Os animais estão dispostos a 
fornecer alimento e vestimenta, abrigo e ferramentas, mas eles devem ser tratados com o 
respeito dado a um irmão e amigo.

A História da Criação Micmac conta do nascimento do sobrinho de Glooskap a partir da 
espuma do mar presa no capim. Para celebrar a chegada do sobrinho, Glooskap e sua família 
tem um banquete de peixes. Glooskap chamou o salmão dos rios e mares para virem à margem e 
doarem suas vidas. Embora não seja livre de problemas, esta dinâmica é aberta à 
possibilidade da recusa por parte do animal. A história também corrói a visão difundida de 
que humanos possuem o direito inato de usar a carne de animais como comida. Glooskap e sua 
família não querem matar todos os animais para sua sobrevivência, indicando moderação nas 
suas práticas de pescaria. O tema é a dependência, e não a dominação.

A sobrevivência humana é a justificativa para a morte dos amigos animais de Glooskap. Os 
animais possuem uma vida independente, o seu próprio propósito e as suas próprias relações 
com o criador. Eles não são feitos para servir de alimento, mas se tornam comida por sua 
própria vontade como um sacrifício para seus amigos. Isso é bem diferente da perspectiva 
do caçador branco, na qual os animais são retratados como algo que necessita de controle 
populacional, transformando a matança em um serviço prestado, ao invés de um serviço recebido.
Uma exceção interessante a isso é a História de Glooskap e Seu Povo, que culpa os próprios 
animais pela agressão do homem contra eles. Neste conto, Malsum, uma contraparte malévola 
a Glooskap, volta os animais contra o herói. Glooskap anuncia: "Eu fiz os animais para 
serem amigos do homem, mas eles agiram com egoísmo e traição. Portanto, eles serão nossos 
servos e fornecerão vocês com alimento e roupas" (Hill, 1963, pág. 24). Aqui, Glooskap, 
não o Criador, é a origem da vida animal, e possui poder sobre eles. A visão harmônica 
original se perde e a desigualdade a substitui como punição por darem ouvidos a Malsum. 
Desta forma, a história é similar à expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, com os 
animais assumindo o lugar de Eva. Glooskap mostra aos homens como fazer arcos, flechas e 
lanças. Ele também mostra às mulheres como extrair as peles e fazer roupas.

"Agora vocês possuem o poder até mesmo sobre as maiores criaturas selvagens", ele disse. 
"Mas eu encarrego vocês de usarem este poder gentilmente. Se vocês caçarem mais do que 
precisam para comida e vestimenta, ou matarem pelo prazer de matar, então vocês serão 
visitados por uma gigante impiedosa chamada Fome." Mesmo nessa história, que tenta 
justificar a dominação, a relação apropriada com os animais é somente para alimento e 
vestuário. Os animais mantêm o direito às suas vidas, e os seus direitos não podem ser 
levianamente descartados4.
Essas histórias caracterizam os animais como povos independentes com direitos, vontades e 
liberdade. Se é necessário o consentimento dos animais para justificar o seu consumo, 
então abre-se a possibilidade de este consentimento ser revogado. A pesca e a caça 
exageradas, e a destruição em massa de seu hábitat natural, podem certamente dar razões 
aos animais para repensarem o acordo.

Outra característica de algumas histórias Mi'kmaq é o arrependimento que vem com a morte 
do animal. Em A História do Carcaju e Seu Irmãozinho (Rand 1893/2005) os pássaros são 
convidados para uma tenda e instruídos a fechar seus olhos5. O carcaju começa a matar os 
pássaros. Seu irmão, sentindo culpa por matarem mais do que precisavam para comer, alerta 
os pássaros e os ajuda a escapar.
Na história de Nukumi e Fogo (Burke, 2005), Nukumi quebra o pescoço de Marta e o coloca no 
chão, mas Glooskap imediatamente se arrepende de suas ações. Nukumi fala com o Criador e 
Marta é trazido de volta à vida e volta ao seu lar no rio. No chão agora jaz o corpo de 
uma outra marta. Este aspecto da história é um conto ambíguo sobre porque comemos animais. 
Marta está tanto morto quanto vivo - morto como uma marta disponível para o consumo pela 
avó, mas vivo como Marta, o amigo de Glooskap e seu povo. As Aventuras de Katoogwases 
(Rand, 1893; 2005, 200-211) conta como a avó de Glooskap usou magia para obter quantidades 
ilimitadas de carne de castor de um único osso, refletindo uma vontade de abundância 
desconectada da necessidade de caçar6.
Arrependimento e parentesco também aparecem na história de Muin, O Filho da Ursa (Burke, 
2005 a). Em uma versão deste conto um jovem menino, Siko, é aprisionado em uma caverna por 
seu malvado padastro e deixado para morrer. Os animais o ouvem chorando e tentam 
resgatá-lo mas somente a mãe ursa, Muiniskw, pode movimentar as rochas que bloqueiam a 
entrada da caverna. Siko é criado como urso. Mais tarde a família urso de Siko é atacada 
por caçadores e sua mãe é morta. Ele se dirige aos caçadores: "Eu sou um humano, como 
vocês. Poupem a filhote ursa, minha irmã de adoção." Os índios maravilhados abaixam suas 
armas e alegremente poupam a filhote urso. Eles sentem muito por terem matado a mãe urso, 
que havia sido tão boa com Siko. Aqui vemos que o arrependimento com a morte de animais é 
contextualizado pela relação de parentesco entre humanos e animais. No fim da história, 
Siko declara: "Eu me chamarei Muin, o filho da ursa, deste dia em diante. E quando eu 
estiver crescido e for um caçador, nunca matarei uma mãe ursa ou crianças urso!" Em outras 
versões da história Muin se revela antes dos ursos serem mortos, e mostram os Mi'kmaq 
poupando todas as mães e filhotes urso daí em diante em gratidão a Muiniskw pela sua 
proteção ao garoto.

Este arrependimento também é expressado em rituais que cercam o ato de caçar. O ancião 
Mi'kmaq Murdena Marshall descreve um desses rituais: uma dança "para agradecer ao espírito 
do animal por dar a sua vida para servir de alimento. Na dança, mostram-se as habilidades 
de caça através de uma reencenação da caçada. As pessoas cantam e compartilham histórias 
enquanto a dança é realizada" (Confederacy of Mainland Mi'kmaq, 2001, 80).

Em contraste com a visão iluminista de humanos distintos dos animais pela fala e pelo 
pensamento, aqui os animais não apenas são capazes de pensar e falar, mas podem ser 
considerados iguais como pessoas. O valor do animal não está em sua utilidade para o 
homem, mas na sua própria essência como ser vivo.

Nem todas tradições alimentares Mi'kmaq são centradas na carne. A mãe de Glooskap era uma 
folha em uma árvore a quem o sol deu forma e vida humanas. O banquete celebrando o 
nascimento da mãe de Glooskap é completamente vegetariano, e o sobrinho, cujo papel é 
geralmente o de caçador, se torna coletor neste caso. Se nós reconhecermos que as 
atividades tradicionalmente executadas pelas mulheres Mi'kmaq, como a coleta de frutas, 
vegetais e nozes, são também, em sua integridade, tradições indígenas, então poderemos 
formar narrativas que contrariam a promoção da carne.

Os valores obtidos de uma análise ecofeminista das histórias Mi'kmaq podem servir como 
ponto de partida para um veganismo indígena. A personificação dos animais, sua 
autodeterminação e o nosso arrependimento com a sua morte, todos mostram que escolher não 
pedir o seu sacrifício é uma legítima opção Mi'kmaq. Já que a cultura vegana testemunha 
que o consumo de animais para alimento, vestuário e abrigo não é mais necessário, então a 
tradição Mi'kmaq sugere que a caça e morte de nossos irmãos e irmãs animais não é mais 
autorizada. Se foram as mulheres que iniciaram a caça, como na história da avó de 
Glooskap, então certamente nós estamos empoderadas para acabar com ela.

Porque as pessoas nativas são alvo de genocídio, as práticas culturais que nós adotamos ou 
rejeitamos são vitalmente importantes. Bonita Lawrence (2004) lembra que as práticas 
diárias têm sido historicamente usadas para avaliar as alegações de autenticidade de 
identidade indígena, e conceder o status de Indígena. Algumas pessoas podem argumentar que 
a incorporação dos valores Mi'kmaq em novas práticas, como veganismo, não é um 
desenvolvimento legítimo. Mas essas pessoas que valorizam apenas a preservação de uma 
tradição imutável se unem aos poderes coloniais ao não verem espaço para uma indigenidade 
contemporânea. Principalmente como mulheres, nossa cultura e nossa relação com a terra são 
mais, do que caçar e matar animais.

A pesca comercial moderna, freqüentemente promovida como possibilidade de segurança 
econômica para as comunidades nativas, é na verdade mais distante de nossos valores 
Mi'kmaq que as práticas modernas veganas. A primeira vê os peixes como objetos a serem 
coletados para a troca, com o poder econômico assumindo o lugar da subsistência, enquanto 
a segunda está fundamentada em uma relação com os animais baseada no respeito e na 
responsabilidade.
Também devemos estar cientes das mudanças nas circunstâncias e necessidades entre a 
população Mi'kmaq. Poucas de nós podem se sustentar através da coleta, caça ou pesca 
tradicionais. Como mostram pesquisas, aqueles Mi'kmaq em propriedades de reserva são 
geralmente dependentes de produtos alimentícios comprados em lojas. Soma-se a isto, o fato 
de metade da população indígena do Canadá morar em áreas urbanas (Siggner & Costa, 2005). 
Quando o indígena é definido exclusivamente como um estilo de vida primordial, isso 
reflete a nossa extinção intencional como povo.

A reinterpretação da tradição e da maleabilidade do ritual permitiu a nossos ancestrais 
sobreviverem ao genocídio, à fome, às doenças, aos deslocamentos forçados, ao isolamento 
nas reservas, à educação e uma horda de outras enfermidades coloniais. Similarmente, 
devemos encontrar maneiras de nos adaptarmos à crescente individualidade da vida urbana. 
Uma solução é incorporar nossos valores tradicionais em novos rituais. Com a adoção de 
dietas vegetarianas ou veganas o preparo e consumo de nossas refeições pode se tornar 
embebido de significados transcendentais, quando nos lembramos da nossa conexão com os 
outros animais, a nossa conexão compartilhada com o criador e prefigurarmos um momento 
onde podemos viver em harmonia com os animais, como Glooskap fazia antes da invenção da caça.

Práticas, valores e rituais cotidianos alimentares compartilhados podem criar laços entre 
os povos indígenas que ajudam a contrapor-se ao isolamento e individualismo da vida 
urbana. O veganismo nos oferece um sentimento de pertencimento a uma comunidade moral, 
cujos valores e visão de mundo são concretizados através de práticas diárias que estão de 
acordo com os valores de nossos ancestrais, mesmo que estejam em desacordo com a sua 
prática tradicional.

Está em jogo na criação de um veganismo indígena a autoridade dos povos indígenas, 
especialmente das mulheres indígenas, para determinar a autenticidade cultural por nós 
mesmas. O discurso branco dominante retrata a cultura indígena como focada na preservação 
do passado pré-colonial. Isso deve ser substituído pelo reconhecimento de que a cultura 
indígena é uma tradição viva, que responde a mudanças nas circunstâncias sociais e 
ambientais. Ao trazer interpretações ecofeministas e póscoloniais às nossas histórias, ao 
recontar histórias tradicionais, ou ao criar novas histórias, as mulheres indígenas 
afirmam autoridade sobre nossa cultura. Ao fazermos isso nós reconhecemos que nossas 
tradições orais não são fixadas no tempo e no espaço, mas são adaptáveis às necessidades 
de nossas irmãs e irmãos animais, e a própria terra.

Notas:

Eu uso o termo veganismo ao longo deste texto pois não é simplesmente uma dieta, mas um 
estilo de vida que evita o uso de todos os produtos de origem animal por razões éticas. A 
questão não é sobre o uso de carnes, ovos e laticínios, mas sobre o uso de produtos de 
origem animal no dia-a-dia. Um vegetarianismo baseado na ética funcionaria de maneira 
similar para o propósito do meu argumento, então sinta-se livre para ler veganismo como 
veg*ismo onde for aplicável.
Veja, por exemplo, The Magical Coat, Shoes and Sword e The History of Usitebulajoo (Rand 
1893/2005).
Para a transformação dos mágicos, veja Robbery and Murder Revenged, Glooscap and 
Megumoowesoo, The Small Baby and the Big Bird, The Adventures of Katoogwasees, The 
Adventures of Ababejit, an Indian Chief and Magician of the Micmac Tribe, e The 
Liver-Colored Giants And Magicians (Rand 1893/2005), Glooscap, Kuhkw, And Coolpujot (Rand 
1893/2004). Para a transformação em animais de totem veja The Magical Dancing Doll, The 
History of Usitebulajoo, The Invisible Boy, The Adventures if Ababejit, an Indian Chief 
and Magician of the Micmac Tribe, The Two Weasels (Rand 1893/2005). Para transformações 
involuntárias, veja The Boy That Was Transformed Into A Horse e Two Weasels (Rand 1893/2005).
Exceções a isto aparecem em casos onde um mago humano maligno assume a forma de um animal. 
Nestes casos o protagonista geralmente mata os animais sem propósito além de derrotar o 
seu inimigo humano.Veja, por exemplo, The Magical Coat, Shoes and Sword e The History of 
Usitebulajoo (Rand 1893/2005).
Rand errou a tradução dessa história como Texugo e Seu Irmãozinho.
Veja também Glooscap and the Megumwesoo e The Magical Food, Belt and Flute (Rand, 1893/2005).
Trabalhos Citados:

Adams, C.J. (1990). A Política Sexual da Carne.
Briggs Jr., K. (12 de Setembro, 2010) Veganism Is A Revolutionary Force In The Class War. 
The Scavenger. Pego de 
http://www.thescavenger.net/animal/veganism-is-a-revolutionary-force-in-the-class-war-32867.html
Burke, P. (2005a). Native American Legends: Muin, The Bear's Child. Pego de 
http://www.firstpeople.us/FP-Html-Legends/Muin_The_Bears_Child-Micmac.html
Burke, P. (2005b) Native American Legends: Nukumi and Fire. 
http://firstpeople.us/FP-Html-Legends/Nukumi_And_Fire-Micmac.html
Confederacy of Mainland Mi'kmaq. (2001). Mikwíte'lmanej Mikmaqu'k: Let Us Remember The Old 
Mi'kmaq. Halifax, NS: Nimbus Publishing.
Hill, K. (1963) Glooscap and His Magic: Legends of the Wabanaki Indians. Nova Iorque, NY: 
Dodd, Mead & Company.
Hunter, R. (1999). Red Blood: One (Mostly) White Guy's Encounter With the Native World. 
McClelland & Stewart.
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http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/.../pdf/canmedaj01506-0029.pdf.
Lander, C. (2008). Stuff White People Like: The Definitive Guide to the Unique Taste of 
Millions. Nova Iorque, NY: Random House.
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Mi'kmaq Health Research Group. (7 de janeiro de 2007). The Health Of The Nova Scotia 
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Siggner, A, J. & Costa, R. 2005 Aboriginal Conditions in Census Metropolitan Areas, 
1981-2001_. Statistics Canada Catalogue number 89-613-MIE - Number 008.
Taylor, D. H. (13 a 20 de julho de 2000). Real Natives Don't Eat Tofu. Now Magazine 19 
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Taylor, D. H. (Diretor). (2000). Redskins, Tricksters And Puppy Stew. Toronto: National 
Film Board of Canada.
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of Diabetes among Cape Breton Mi'kmaq. Chronic Diseases In Canada, 16 (4). Pego em 
http://www.phac-aspc.gc.ca/publicat/cdic-mcc/16-4/b_e.html


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