(pt) federacao anarquista gaucha: Reflexões sobre trabalho de base de matriz libertária

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Sábado, 1 de Abril de 2017 - 12:35:17 CEST


Antônio Ade, militante da FAG ---- A esquerda brasileira vive uma crise de mobilização que 
vem de décadas. Isso fica evidente frente ao cenário de ajuste, rearranjo conservador e de 
retirada de direitos no Brasil pré e pós-golpe. Encontramo-nos desarmados frente a tantos 
ataques. ---- Mesmo com boas mobilizações recentes, possibilitadas em grande medida pelas 
novas mídias e redes sociais, esse fracasso constante em mobilizar amplos setores das 
classes oprimidas ficou claro no pós 2013 pelo caráter volátil e pulverizado dos 
conflitos. Mesmo que na época algumas mobilizações tenham logrado um relativo grau de 
radicalidade, muito raramente se encontraram umas com as outras. Um claro sinal de 
fragmentação. ---- A intenção deste texto, produzido a partir de modestos esforços 
pessoais no interior de uma trama coletiva e militante, é fazer alguns apontamentos 
destinados ao campo libertário radicado na luta de classes sobre a necessidade de um amplo 
e viçoso trabalho social. Mais que isso, talvez por que a necessidade deste trabalho é 
bastante óbvia, o objetivo é falar sobre o que consiste, quando, onde, como iniciar e 
fazer progredir trabalho de base de matriz libertária.

Por esquerda, entendemos o trabalho de base como o esforço exitoso de mobilizar povo, as 
classes oprimidas, em instâncias organizativas regulares para a defesa de seus interesses, 
para defender direitos garantidos, conquistar novos, tendo como horizonte a superação 
política e econômica da classe dominante.

Garantir o caráter libertário é para nós imprescindível, afinal não queremos repetir 
esquemas trágicos que buscam reunir forças e canalizar a esperança dos oprimidos para o 
trote eleitoral, caminho que a história demonstrou mais de uma vez ser um caminho travado. 
Ou o trabalho quase mais trágico ainda que busca imobilizar a base, retirando seu caráter 
criativo e autodeterminado típico das classes oprimidas para formar uma massa monolítica, 
encurralada e refém de manobras impostas pelo centralismo de direções vanguardistas e 
autoritárias que mesmo querendo a superação das classes dominantes querem fazê-lo no marco 
da recriação de um estado "popular" centralizado.

O nosso caminho é outro. Nosso papel é de juntar o povo, contribuir com ferramentas para 
sua luta, potencializá-lo. Se organizar no interior de bases populares e defender um 
movimento consciente, com ação direta da base rumo a seus objetivos imediatos. E por fim, 
pela solidariedade de classe criar, fortalecer e unificar instâncias de base, federar as 
lutas rumo a um destino comum.  Fortalecendo a participação ativa, ampliando o nível de 
responsabilidade do sujeito frente ao coletivo, este é o trabalho de base que tem urgência 
em ser feito.

Enquanto conjunto do campo libertário e a partir de nosso marco teórico nós orientamos 
essa tarefa para todas as frentes sociais dos oprimidos: trabalhadores e trabalhadoras 
urbanas e rurais, moradores da periferia, negros e negras, lgbtts, sem-tetos, estudantes, 
juventude pobre, etc. Mesmo que outras variantes teóricas das lutas de classes concluam 
para a existência de um sujeito revolucionário dado a priori pelas contradições 
econômicas, para nós esse tipo de conclusão é  puro idealismo. Para nós esse sujeito 
revolucionário não será fabricado pelo capitalismo. Ele tem que ser forjado nos conflitos 
existentes pelas mais variadas demandas populares, lutando contra todas as formas de 
dominação, exploração econômica, dominação racial e de gênero, com o exercício da 
solidariedade permanente entre as lutas que vem de baixo.

Cada sujeito social vive rotinas cheias de dramas, de sonhos e esperanças. É impossível se 
organizar de igual para igual junto a determinado sujeito social sem viver suas dores e 
frustrações. E mais impossível é imaginar que a ideologia libertária se materializará 
nesse sujeito se não se atuar junto a ele no dia-a-dia.

Não advogamos aqui pelo entrismo de gente que vem de outras parcelas privilegiadas no 
interior das lutas das camadas mais fodidas. Mas sim pela atuação a partir do que se tem. 
Ou seja, quem vive uma rotina de exploração ou sofre com determinada opressão tem ou 
deveria ter o dever de militar sua própria realidade de modo a se organizar com mais gente 
e tentar mudar as relações de poder. Não existe facilidade nenhuma nisso. Como dizem, a 
paciência também é um ato revolucionário. Saber mediar o que queremos como objetivo final 
com o que podemos fazer aqui e agora rumo a esse objetivo, é fundamental. Trata-se de 
nunca se isolar, respeitando os tempos dos e das companheiras de base sabendo a hora certa 
pra cobrar de forma oportuna responsabilidades e coerências e obviamente estar preparado e 
aberto para a cobrança que venha pelo caminho inverso.

É importante o que diz o ditado popular: "uma andorinha só não faz verão". Ninguém por 
mais pau-ferro que seja faz trabalho de base sozinho. É preciso atuar com mais gente, 
entenda-se é preciso estar organizado com mais gente. Contar com outros que militam o 
mesmo projeto garante que se tenha um calço, um ponto de apoio, ou recuo, com o qual se 
pode se contar em momentos difíceis. Além do sempre necessário debate, e apontamento 
coletivo sobre cenário, etapas, correlações de forças e como agir diante delas.

Como dito anteriormente pra fazer este trabalho crucial para garantir horizontes de 
transformações sociais, é preciso que se viva com profundidade o cotidiano de quem com 
quem gostaríamos de estar mobilizados. Quanto mais familiarizado com hábitos, costumes das 
classes oprimidas mais fácil a tarefa deste em entender e se mobilizar junto aos demais.

Sempre existirá a demanda incontornável de formar politicamente os companheiros e 
companheiras mais ativas que surgem ao longo de um trabalho social que desenvolvemos. 
Formar teoricamente, aumentando a capacidade de análise da realidade que se vive e se atua 
é um dever. Porém formar politicamente não garante a incorporação de ideologia de mudança. 
Como sabemos essa não é exatamente formada por escolhas racionais, mas sim tem muito 
conteúdo sensível que se transmitem a partir das praticas, exercício permanente então de 
autonomia, solidariedade e iniciativa frente aos processos. Nossas convicções libertárias 
não precisam de modo algum ser escondidas, mas sim debatidas de igual pra igual, sem nunca 
colocar elas acima do movimento e suas pautas. Aqui é preciso voltar ao inicio, pra deixar 
nítido: o centro de nosso trabalho nunca será de fazer propaganda de nossa ideologia, para 
esta existem outros dispositivos e lugares. O objetivo central é aumentar o nível de 
enfrentamento nas lutas por direitos e por uma nova sociedade, empoderando os sujeitos 
organizados e suas respectivas organizações de base. Juntar essas organizações pela 
solidariedade de classe e apontar na direção da ruptura com o sistema de dominação existente.

Nosso objetivo tem que ser bastante claro: trabalho de base para criar Poder Popular. 
Diferente do que se entende por trabalho de base em outras correntes, que buscam fazer 
trabalho doutrinário e produzir instâncias de base apenas como local de recrutamento para 
sua organização política. Criar Poder Popular quer dizer pôr-se junto aos oprimidos em 
movimento pra ir se impondo na luta de classes exercitando autonomia, ação direta, 
autogestão e federalismo.

Vamos que é tarefa urgente.

Foto: Barricada em Barcelona, maio de 1937

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2017/03/26/reflexoes-sobre-trabalho-de-base/


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