(pt) federacao anarquista gaucha[FAG] CARTA DE OPINIÃO. QUANDO A TRAGÉDIA E A FARSA CONTRACENAM NO MESMO PALCO.

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Segunda-Feira, 12 de Setembro de 2016 - 13:01:02 CEST


Na insólita tarde de 31 de agosto, o senado brasileiro, liderado pelo presidente do STF, 
foi o palco privilegiado do desfecho de uma briga de poder que terminou selada pelo abraço 
da tragédia com a farsa. ---- O voto pelo impeachment é um golpe parlamentar movido pelas 
lutas de poder das elites dirigentes e classes dominantes. Uma manobra vigarista e 
reacionária, feita com o ardil das oligarquias políticas, a vigília do judiciário e a 
neurótica agitação dos oligopólios da comunicação. O voto em separado, esse que desaprovou 
a cassação dos direitos políticos da presidente, é a combinação entre uma mea culpa diante 
do cadáver, condolências envergonhadas do PMDB por uma lado, e voto indireto em causa 
própria, corporativo, de Renan Calheiros e seus comparsas prevenindo o imprevisível futuro.

O PT foi humilhado pela regra dolorosa e implacável dos jogos do poder. O impeachment foi 
um golpe de força do parlamento burguês, um juízo político ao gosto, cozinhado na panela 
de pressão do bando reacionário que polarizou as federações patronais, oligopólios da 
mídia, setores do mais diverso espectro conservador (uma aliança que envolveu de ardentes 
defensores da escola austríaca, até integralistas e monarquistas), políticos e judiciais e 
a mobilização das ruas lideradas pela classe média ressentida.

Tragédia de um governo ajoelhado pelas elites dirigentes e setores dominantes que montou 
sua defesa com as convicções de que fazia em 2015 o maior ajuste da história do país. 
Assim afirmou eloquentemente Cardoso, advogado da defesa e repetiu a exaustão, ao longo de 
13 horas, a presidente Dilma na segunda-feira.

O que foi posto ao plenário do senado, tomando os solenes termos que prendiam o objeto do 
julgamento, era sobretudo esse odioso ajuste anti-povo que corta na carne dos de baixo. O 
governo Dilma, o PT e seus aliados quiseram fazer passar sua qualidade de partido do 
ajuste e da responsabilidade fiscal. Diga-se de passagem, uma lei de arrocho público, 
neoliberal, dos anos FHC, que faz do governo de turno um gerente autorizado dos interesses 
rentistas da dívida pública. Portanto, a peça de defesa da presidente era provar, pra além 
de toda ladainha de pedaladas, decretos de crédito, etc, que fez ajuste e cortou fundo, 
como reclama o "mercado". A tarefa fora confiada a um Chicago Boy no ano de 2015, o 
ministro-banqueiro Joaquim Levy, um eminente aluno disciplinado na usina ideológica do 
neoliberalismo.

A tragédia para a esquerda não é, como pode parecer simplesmente, a deposição de um 
governo eleito pelo voto popular e no qual muitos eleitores confiavam a execução de uma 
política "menos pior" de austeridade ou até mesmo uma hipotética "virada à esquerda". Não 
é o golpe de timão por dentro da democracia burguesa que elegeu Dilma Roussef  e o PT o 
que faz a tragédia. Também passa longe de um hipotético castigo do sistema de dominação 
sobre os "opositores irredutíveis" que acalentam o sonho de um reformismo por dentro da 
máquina. O trágico é como um projeto político que foi construído no calor das lutas 
operárias e populares da transição controlada para a nova república terminou em tal 
estágio. É como, em outras palavras, a democracia burguesa e as relações de poder que 
encarnam os aparelhos institucionais, fizeram do PT um partido do ajuste e um sócio da 
corrupção sistêmica. Não foi debaixo do pau de uma ditadura que se modelou toda uma 
geração de lutas e esforços, foi por dentro das estruturas, na posição de sujeito 
partícipe e entusiasta do regime liberal da democracia burguesa.

Resistir ao golpe nos direitos!

Temos que reconhecer que a farsa que teve desfecho neste golpe foi montada em cima dessa 
trágica história de capitulações, ainda que a "oportunidade" dos vigaristas seja o 
resultado de uma combinação de fatores. Mas se trata de identificar o como joga forte em 
tudo isso a crença liberal no "estado de direito" e seus mecanismos de representação como 
terreno de disputa do movimento dos trabalhadores e das causas populares.

Governar o sistema dominante é, antes de tudo, fazer arranjos com estruturas de poder que 
não obedecem o voto. Assim ensinam mais uma vez toda a farra do sistema financeiro e das 
grandes corporações privadas que jogaram o mundo no austericídio desde 2008. A recessão 
mundial que tocou o país e afoga na crise os setores populares com o ajuste fiscal fez 
pedaços do pacto social que alçou o PT como gestor do crescimento capitalista brasileiro. 
E a crise, como sabemos, é um discurso violento da propriedade contra os direitos sociais 
e os bens comuns, mas também um modo de governo de choque que descarta as técnicas 
políticas de colaboração de classes, ou do "diálogo" como preferem alguns.

Para as rebeldias que vem de baixo, ao movimento dos trabalhadores e todo o conjunto das 
classes oprimidas, não há nada para imitar ou repetir da estratégia que está 
inapelavelmente jogada na vala comum. Com muita intuição deixou avisada a corrente 
libertária, já nos primeiros ensejos do movimento operário internacional: a frente dos 
oprimidos deve buscar os elementos de força em si mesma. Construir pedra sobre pedra a sua 
capacidade política por uma confederação de rebeldias que seja acumulação combativa da 
democracia das organizações de base, da rede de apoio mútuo das lutas, da ação de classe 
intransigente contra as estruturas que exploram e oprimem.

O populismo trabalhista de Jango ou o petismo ajustado na Real Politik brasileira são 
muito persuasivos. A colaboração de classes que fez a cama da reação na ditadura agora o 
faz em democracia burguesa. Um profundo choque de ordem é planejado desde as salas das 
federações patronais, salas de redação e corredores palacianos. Aplicar a maior ofensiva 
contra as relações de trabalho e os bens comuns da últimas décadas é o desejo das hienas 
conspiradoras, a começar pela reforma da previdência, o congelamento dos gastos público e 
a liberalização geral da terceirização, fazendo uma transição da gestão da barbárie à 
barbárie às secas.

Nada disso passa em silêncio. Uma vasta onda de indignação vem varrendo o país contra as 
medidas de ajuste do governo Temer, encontrando-se e massificando-se nos atos que convocam 
a saída do presidente e a convocação de novas eleições. Espaço amplo e diverso, essas 
grandes manifestações em um início tiveram grande intervenção dirigente do petismo, mas 
com o desfecho de agosto consumam-se como atos onde a revolta já transborda a cadeira de 
força social-democrata e adquire o devido verniz classista de reconhecer de que do que se 
trata é de um golpe direcionado à classe, contra seus direitos históricos e suas limitadas 
liberdades de luta e organização.

Urge a necessidade de seguir massificando e radicalizando as convocações pelo Fora Temer 
enquanto ofensiva tática para derrotar o ajuste fiscal. Mas isso não basta. Junho resgatou 
o valor da tática da revolta popular como golpe que esgarça o inimigo em um rápido lampejo 
de tempo, mas também nos demonstrou que essa tática tem seus limites, a saber, a falta de 
maior expressão de organizações de base dos de baixo. Seguir na árdua tarefa de 
reorganizar a classe onde ela vive, estuda e trabalha deve ser o grande horizonte 
estratégico para fazer frente aos duros tempos que aguardam a nossa classe. É dessa 
acumulação que forjaremos uma alternativa política. O poder não se toma do monte dos 
aparelhos de disciplina e controle do sistema dominante. O nosso poder coletivo, o poder 
popular, se cria pelas relações sociais que gestamos pela luta e organização popular de 
baixo pra cima.

Retirado de: 
https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/09/07/carta-de-opiniao-quando-a-tragedia-e-a-farsa-contracenam-no-mesmo-palco/

https://anarquismopr.org/2016/09/07/fag-carta-de-opiniao-quando-a-tragedia-e-a-farsa-contracenam-no-mesmo-palco/


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