(pt) Coordenação Anarquista Brasileira (CAB): Contra a Reforma do Ensino Médio e a PEC 241! Todo apoio às mobilizações estudantis e às ocupações de escolas no Brasil!

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Sábado, 22 de Outubro de 2016 - 14:08:11 CEST


No dia 22 de setembro de 2016, foi publicada a Medida Provisória 746/16, que institui uma 
reforma no Ensino Médio brasileiro. Ela tem força de lei e começa a valer imediatamente, 
devendo ser votada em até 120 dias pelo Congresso Nacional. Ou seja, está sendo 
implementada de forma vertical e autoritária, ignorando todos os debates construídos por 
movimentos estudantis e dos trabalhadores e trabalhadoras em educação. ---- A MP 746 busca 
modificar os currículos no sentido de torná-los mais tecnicistas e voltados para a 
formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho. Além disso, abre margem para uma maior 
participação do setor privado na educação. Tais objetivos tornam-se claros quando 
descobrimos quem está por trás de tais proposições: setores empresariais como o "Todos 
Pela Educação", que inclui grupos como Rede Globo e Record, bancos Itaú, Santander e 
Bradesco, além das federações de indústria via Sistema S. A classe dominante quer lucrar 
com a educação pública, precarizar o trabalho e modificar a formação da classe oprimida, 
com o objetivo de torná-la ainda menos qualificada e com menor capacidade de fazer uma 
leitura crítica da sociedade.

Um dos primeiros artigos da medida provisória fala sobre o aumento gradual da carga 
horária obrigatória de 800 horas/aula por ano até 1400 horas aula/ano. A justificativa é a 
implementação do ensino em tempo integral. Essa é uma pauta histórica do movimento e por 
isso pode se confundir como algo positivo, mas temos clareza da perversidade dessa medida. 
Primeiro, as escolas não têm estrutura para receber essa medida. Já existem salas 
superlotadas, com mais de 40 estudantes, em várias partes do país. Muitas escolas possuem 
ensino médio e fundamental que compartilham o mesmo espaço, não havendo espaço físico para 
tal medida ser eficaz.

Além da questão da infraestrutura, o artigo 36 da MP considera experiência de trabalho, 
atividades de educação técnica oferecidas por outras instituições de ensino, cursos e 
educação a distância como possibilidades para cumprir essa carga horária. Sabemos que 
muitos jovens trabalham e estudam, tendo direitos trabalhistas mínimos garantidos. A 
medida abre as portas para os estágios precários, em que o estudante trabalhará para 
cumprir a carga horária obrigatória do curso, com salários baixíssimos e sem os mesmos 
direitos que um trabalhador contratado. Isso caminha lado a lado com a reforma trabalhista 
que vem sendo preparada e a "flexibilização" do trabalho a partir dos 14 anos. A 
possibilidade de se realizar cursos em instituições privadas abre margem para que mais 
dinheiro público seja jogado na iniciativa privada, com o fornecimento de bolsas de 
estudos para os "bons alunos", através de sistemas meritocráticos de avaliação, ou mesmo o 
lucro direto pelo aumento de matrículas de estudantes nos cursos do sistema S 
(SESI/SENAI). Além disso, a qualidade da educação via ensino a distância é muito menor, 
sendo que nessa modalidade um número menor de professores pode atender um maior número de 
estudantes, sem conseguir tirar dúvidas e ter mais contato com os/as estudantes, sem 
contar que nem todos da classe oprimida têm acesso à tecnologia necessária para isso.

Outro ponto é a mudança curricular, que institui uma carga horária obrigatória de 1200 
horas/aula, a ser definida de acordo com a Base Nacional Curricular Comum, sendo o resto 
do tempo dedicado à formação em um dos campos específicos: ciências da natureza, ciências 
humanas, linguagens, matemática ou formação técnica e profissional, sendo que as unidades 
de ensino não precisam ofertar todas as modalidades. As matérias de filosofia, sociologia, 
educação física, artes e espanhol perdem o caráter de obrigatoriedade. Além disso, existe 
a possibilidade das outras matérias poderem ser agrupadas como "ciências humanas" ou 
"ciências exatas". As únicas que continuam sendo obrigatórias nos três anos do ensino 
médio são português e matemática. Estudantes que optarem pelos cursos técnicos podem não 
ter aulas de ciências humanas ou exatas nos últimos anos do ensino médio, por exemplo. 
Essas mudanças no currículo visam diminuir a formação humanística, diminuindo a capacidade 
de crítica social dos estudantes, reforçando o papel de instrumento de dominação que a 
escola cumpre. O fato das unidades de ensino não precisarem ofertar todas as modalidades 
limitará o acesso dos estudantes ao conhecimento. É possível que muitas escolas ofertem 
somente cursos técnicos, fazendo aqueles que desejarem outra formação terem que se 
deslocar para escolas distantes ou para o ensino privado. Ou seja, uma clara divisão de 
classes: quem tem dinheiro pode escolher o que estudar, quem não tem, deve se submeter às 
profissões mais precárias.

Uma outra possibilidade da MP é a redução de custos com o pagamento de trabalhadores e 
trabalhadoras. O artigo 61 permite a contratação de profissionais com notório saber, isso, 
aliado com a divisão por áreas de ensino, permite a redução do número mínimo de 
professores por escola, ao permitir que uma mesma pessoa dê aulas de física, química e 
biologia ao colocar o ensino por áreas, por exemplo. Além disso, abre margens para o fim 
dos concursos públicos, com a contratação dos profissionais de notório saber. É importante 
ressaltar que além de conhecimentos técnicos, educadores e educadoras possuem uma formação 
pedagógica, o que não é levado em conta no caso das contratações por notório saber. Outro 
ponto é o interesse da iniciativa privada, de que seus profissionais sejam inseridos 
dentro da escola pública, não somente pela questão do lucro, como também para reforçar a 
ideologia dominante do empreendedorismo e da meritocracia em meio à classe oprimida.

Para garantir a implementação dessa medida, o Governo Federal ainda oferece um aporte 
financeiro para os estados onde as instituições de ensino adotem a medida, sendo calculado 
por aluno afetado.

É importante ressaltar que apesar da forma repentina que a medida tomou no governo Temer, 
o governo PT já vinha apontando no sentido dessa reforma, porém de forma mais lenta e 
gradual. A Base Nacional Curricular Comum já vinha sendo "discutida" com a comunidade 
escolar desde 2015. Nela já se apontava para a divisão do ensino por áreas. Assim como a 
relação do Ministério da Educação com o Todos Pela Educação remonta ao governo petista. 
Portanto, como quase todos os ataques promovidos pelo governo Temer, ele tem um caráter de 
aceleração e aprofundamento do que já vinha sendo feito pelo governo anterior.

Para completar essa análise, devemos levar em conta a PEC 241, que congela os gastos 
públicos com a educação de 2017 até 2037. Isso deixa mais claro o caráter de precarização 
e desmonte do ensino público. Para existirem condições de melhorar o ensino é necessário 
mais investimentos e a PEC vai no sentido contrário disso. Ela aponta para o congelamento 
dos salários dos trabalhadores e trabalhadoras da educação e falta de verbas para a 
infraestrutura e melhoria das escolas.

Por isso apoiamos as mobilizações estudantis, em especial as ocupações de escola que 
ocorrem em vários estados do país - com destaque para as mais de 500 escolas ocupadas no 
Paraná -, também ocorrendo várias ocupações de institutos federais e universidades. A ação 
direta estudantil foi capaz de vencer os governos estaduais em várias lutas em 2015 e 
2016, a exemplo da luta contra a reorganização escolar protagonizada pelos estudantes de 
SP. Essa luta toma um caráter de autonomia frente a organizações e partidos, sendo 
protagonizada pelo próprio movimento. Defendemos essa autonomia, em especial frente às 
tentativas de aparelhamento por parte de entidades como a UBES e partidos políticos.

A mobilização dos estudantes traz novamente uma forma de lutar sem a necessidade das 
velhas estruturas burocratizadas do movimento estudantil ou sindical. Rejeitando a 
conciliação de classes, a mobilização da juventude pode impulsionar outros setores a se 
colocarem em movimento contra as reformas propostas pelo governo. O chamado de greve geral 
feito pelas centrais sindicais encontra dificuldades devido aos longos anos de 
burocratização e aparelhamento delas. Enquanto isso, o movimento estudantil abre o caminho 
para a necessária resistência com ação direta, com autonomia, de baixo para cima. E é 
dessa forma que uma luta mais ampla da classe oprimida deve ser construída para que tenha 
condições de fazer frente aos ataques que vêm sendo desferidos.

Esse momento é de extrema importância, visto que a força das mobilizações será o 
termômetro para o governo implementar as outras reformas que já estão no gatilho, como a 
reforma trabalhista e a reforma da previdência. Nos dois últimos anos o movimento 
estudantil e o movimento sindical de trabalhadores e trabalhadoras da educação mostraram 
sua força, derrotando os governos em diversos estados. Se não mostrarem essa força 
novamente, a classe dominante sentirá que tem força para implementar sua agenda completa. 
Portanto, devemos prestar todo apoio e solidariedade aos e às estudantes em sua luta!

Todo apoio às ocupações de escola!

Contra a reforma do ensino médio e a PEC 241!

Lutar! Criar! Poder Popular!

Imagens tiradas nas ocupações de escola no Paraná

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) - Outubro/2016

https://anarquismo.noblogs.org/?p=551


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