(pt) anarkismo.net: O afastamento da presidente Dilma Rousseff. Uma reflexão crítica pela esquerda by BrunoL

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Quarta-Feira, 18 de Maio de 2016 - 15:25:18 CEST


O Senado concluiu por volta de 6h30min da manhã de 12 de maio de 2017 um golpe branco, 
perfeitamente orquestrado, afastando a presidente reeleita Dilma Rousseff, por 55 votos a 
favor do afastamento contra 22 pela manutenção no cargo. Com esta votação, o PMDB chega ao 
poder pela terceira vez de forma indireta. Antes com Tancredo Neves e José Sarney em 1985, 
no retorno de Itamar Franco para a legenda de Ulisses Guimarães em 1992 após o impeachment 
de Fernando Collor de Mello e agora com Michel Temer assumindo o Planalto por ter sido 
reeleito na mesma chapa da ex-guerrilheira. Dilma recebera 54 milhões de votos em 2014 e 
trazia consigo o vice-presidente eleito com ela em 2010, através de uma aliança defendida 
ainda no governo pelo ex-ministro da Casa Civil de Lula, José Dirceu de Oliveira e Silva 
em 2005 e ampliada pela hoje presidente afastada quando a mesma fora indicada para a pasta 
antes ocupada pelo ex-todo poderoso capa preta da legenda petista.

No triste discurso de Dilma Rousseff, a presidente enumera suas dores, todas respeitáveis. 
Mas, sinceramente, o que mais dói é ver uma ex-guerrilheira ser derrubada por uma base de 
direita com a qual ela própria aceitou como aliada de conveniência.

Agora estamos diante de um novo ministério, enxuto, um típico pacto oligárquico com o 
capital financeiro e abalado pelo neoliberalismo vende pátria e gorila, a exemplo de 
Maurício Macri – presidente menemista eleito na Argentina – tal como o cinismo do Partido 
Democrata com Barack Obama à frente. Constatações a parte, é necessário observar o nefasto 
papel para as esquerdas através do pacto lulista (hoje moribundo), papel este 
protagonizado pelo PT nos últimos treze anos e acima de tudo por seu líder político e cabo 
eleitoral, o ex-sindicalista, que segundo o próprio, nunca foi de esquerda.

Não se trata de coerência livresca ou buscar a perfeição de um discurso intelectual (ou 
intelectualóide) estéril e distante das realidades sociais. É justo ao contrário. Afirmo 
aqui que morre e deixa-se de matar de ilusão endêmica quem crê fielmente nas instituições 
da legalidade burguesa e mais ainda, em uma base política mercenária e de direita. Nas 
palavras que seguem, trago uma coletânea das análises dos últimos dias de governo Dilma. A 
coerência, repito, é no sentido de provar teórica e analiticamente, a viabilidade do poder 
do povo por em cima das traições estruturais - como a crença inexorável no pacto de 
classes – e das eternas promessas da democracia - mesmo que liberal e de procedimentos – 
que não cabem no capitalismo e menos ainda são toleráveis pelo andar de cima e pelos EUA 
para nossa América Latina.

A ex-guerrilheira do triste discurso

No triste discurso de Dilma Rousseff, a presidente enumera suas dores, todas respeitáveis. 
Mas, sinceramente, o que mais dói é ver uma ex-guerrilheira ser derrubada por uma base de 
direita com a qual ela própria aceitou como aliada de conveniência.

Isso é o que mais dói ex-companheira, o que mais dói é ver ao teu lado discursando na 
partida de governo uma defensora da flexibilidade do trabalho escravo; o que mais dói é 
ver a ex-esquerda transformando-se em caricatura de republicanismo e legalismo burguês.

A democracia é reivindicável, mas não esta fábrica de traidores de classe ou cleptocratas 
a serviço do capital. A democracia é a fonte de poder legítimo e não pode caminhar 
distante da igualdade social e a distribuição de renda e poder.

Na véspera do golpe no Senado, O Globo assassina a economia política brasileira

Na matéria intitulada “A soma de todos os erros: Dilma abriu buraco fiscal e comprometeu 
ganhos sociais: com estímulos artificiais, Dilma deixou PIB retroceder ao nível de cinco 
anos atrás” (assinada por Flávia Barbosa, em 11 de maio de 2016) , O Globo prova de onde 
vem, traça um libelo anti-desenvolvimentista, mente descaradamente ao associar a expansão 
dos gastos públicos apenas com às políticas de subsídio a indústria e a agroindústria, e 
não se comprometendo com a rolagem da dívida pública interna e os ganhos absurdos da 
agiotagem oficial. A expansão dos gastos cometeu, segundo os economistas consultados - 
poderia dizer os neoliberalóides consultados - na matéria, como "pecado keynesiano" ou 
algo semelhante.

Não há como manter política de crescimento econômico, mesmo auxiliando o capital atuando 
no Brasil, sem romper as amarras do rentismo. É simples, de tão simples, ninguém fala o 
óbvio. O Globo omite a relação causal mais importante, logo, ao omitir o mais relevante, 
MENTE.

Para concluir o mesmo enfoque na matéria; aliás, para concluir, em rede nacional, Miriam 
Leitão (na manhã do Golpe no Senado) disse o mesmo no telejornal Bom Dia Brasil: "o maior 
problema, a maior expansão dos gastos não foi com as políticas sociais e sim com o apoio a 
indústria e a agroindústria!". Pecado keynesiano, tardio, tímido e sem contar com o apoio 
incondicional do empresariado brasileiro que, aliás, não hesitou em puxar o tapete da 
presidente assim que pôde. Ninguém mandou a ex-esquerda acreditar no pacto de classes.

A farsa da farsa

Alegam querer derrubar um governo "populista e bolivariano" (ai quem dera! especialmente o 
segundo); para tal criminalizam o Plano Safra, criminalizam repasses do governo Central 
para garantir suas políticas, o Congresso autoriza a expansão da meta fiscal e depois puxa 
o tapete; aceitam por motivo de vingança política um processo de impeachment escrito por 
uma tucana, um tucano e um recalcado serrista, o Senado indica um relator tucano e que 
cometera os mesmos "crimes" que ele relata como crime; na Câmara 298 deputados que são 
acusados por crimes contra a Justiça aprovam a admissibilidade e agora 58 senadores de 81 
que também estão com o seu na reta fazem o mesmo.

Querem derrubar os maiores entusiastas do capitalismo brasileiro, a começar por Lula, que 
de tão crente no capitalismo nacional resolveu crer e se misturar com os capitalistas 
daqui. Luiz Inácio se mistura com quem não devia, perdeu o rumo no pertencimento de classe 
e viu, sob o nariz do Palácio do Planalto, os Estados Unidos e seus sistemas de espionagem 
deitarem e rolarem no Brasil nos últimos cinco anos. Resultado:

- a cleptocracia a mando do capital transnacional vai cortar na própria carne (com as 
empreiteiras) e derrubar o governo que mais defendeu o capital nacional e traiu a dimensão 
combativa da esquerda.

Estamos em 2016, mas poderia ser 1954.

PT, onde está o populismo?

Proponho uma reflexão em forma de contabilidade de chegada: ou como o lulismo acabou com o 
que restava de combatividade no PT e assumiu o pacto de classes como única saída. Gente, 
vamos fazer contas? 44 milhões de beneficiados nos programas sociais. 10% deste total dão 
em 4,4 milhões de brasileiros e brasileiras. 1% dá em 400 mil pessoas. Se o PT organizasse 
como força "populista" um em cada 100 beneficiados de seus programas, teria um poder de 
veto sobre a base mercenária no Congresso e o pacto com os oligarcas. Se tivesse um 
organizador social em cada base de 100 beneficiados poderia contar com força de 
mobilização permanente, a exemplo do que faz o “populismo” em toda a América Latina que 
leve a sério este conceito, com o qual também não concordo integralmente. É por isso que 
esta palhaçada de golpe branco, de golpe paraguaio não anda na Venezuela.

Aqui foi tudo ao contrário. Preferiram nada fazer e confiar na sorte ou no destino ou em 
qualquer pensamento mágico. É por isso que Maduro não cai à toa. Porque o chavismo - para 
o bem ou o mal - organizou uma parcela razoável de sua base social beneficiada e aplica 
esta força como poder de veto por cima dos oligarcas e vende pátria. Populismo é isso; e é 
menos pior do que o pacto de classes sem poder de veto. Não foi por falta de aviso.

Última reflexão na tarde infeliz durante o golpe no Senado

Breve reflexão. Trata-se de golpe semiparlamentarista. A meta não é apenas a retirada da 
presidente Dilma e sim desmontar a rede de garantias constitucionais para a saúde, 
educação, direitos de 4ª geração e o mundo do trabalho. Foi alimentado por uma conspiração 
de Estado (república de Curitiba), com o apoio do PIG (quando a Globo derrubou sua grade 
na tarde de domingo 13 de março e quando da difusão da conversa privada da presidente com 
o alvo das investigações) e com rios de dinheiro para os neoliberalóides através da 
Fundação Koch e da Rede Atlas (já provei isso várias vezes). Logo, há um rombo de lealdade 
no aparelho de Estado, e se eu sei, a Abin sabe e as parcelas da PF que não conspiraram 
também sabem. Assim, se eu fosse um inocente útil de credo legalista e republicano, 
ficaria em depressão. Como tenho formação analítica e intensão estratégica, afirmo: 
governo ilegítimo algum aprova medidas antipopulares com facilidades. Tem muita luta pela 
frente, cai o lulismo, cai a pelegada, mas os direitos coletivos seguem inegociáveis.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

site: www.estrategiaeanalise.com.br
email: strategicanalysis  riseup.net
facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29308


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