(pt) anarkismo.net: Duplo discurso do PT e a hipocrisia no Fórum Social Mundial de 2016 by BrunoL

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Sexta-Feira, 29 de Janeiro de 2016 - 08:54:52 CET


Tem horas que mesmo para pessoas experientes – ou pretensamente com experiência política 
como este analista aqui escrevendo – o cinismo político surpreende. Dizem na Espanha, e 
entendo ser o dito válido aqui também, é que há uma diferença fundamental entre o Partido 
Progressistas (PP, a direita política pós-franquista) e o Partido Socialista Operário 
Espanhol (PSOE) no que tange a ações repressivas e medidas anti-populares. O primeiro, 
bate e retira direitos sorrindo, com júbilo de prazer recordando o período do 
generalíssimo Francisco Franco. Já o segundo, de um dos ídolos de Fernando Henrique 
Cardoso (FHC), o ex-premiê Felipe González, bate e arrebenta assim como retira direitos e 
pactua com o demônio na forma de capital industrial ou financeiro, mas na frente das 
câmaras derrama “lágrimas de crocodilo”. No Brasil do lulismo, o PSOE daqui é o Partido 
dos “Trabalhadores” (PT). O exemplo que trago abaixo, já deveras repercutido em redes 
sociais da província, materializa a analogia.

Nesta altura do momento político, restam poucas alternativas para quem ainda se posiciona 
à esquerda do partido de governo e de seus aliados stalinistas e trabalhistas.

Na tarde desta 3ª 19 de janeiro, escutei como de hábito o melhor programa político do 
rádio rio-grandense, transmitido por emissora centenária. Presentes como convidados 
estavam um vereador pelo PT da capital da província, o engenheiro de origem 
ítalo-brasileira. Escutá-lo falar diante de um microfone que é um canhão, tergiversando a 
respeito da correlação de forças do governo de coalizão é ter uma aula de cinismo 
político. Perguntado por uma das condutoras do programa do porquê do veto de Dilma a 
auditoria da dívida pública, recebemos uma espécie de lição de aplicação do pensamento 
gramsciano vulgar. O edil simplesmente não respondeu e ficou se esquivando de qualquer 
autocrítica, colocando na conta do governo de coalizão a covardia política e a traição 
sistemática aos interesses das maiorias.

Realmente o problema político na interna do partido de governo é maior do que se imagina. 
Agora, nesta semana de revivido Fórum Social Mundial Temático (FST), a ex-esquerda e os 
então esperançosos da virada democrática de 2001 se veem no dilema de sempre. Se dizem 
ainda “pessoas que acreditam”, fazem presepada durante eventos como o enfraquecido FST – 
afinal, como falar de poder das pessoas e vontade das maiorias e uma democracia 
democratizada quando nenhuma mudança estruturante foi feita no Brasil após mais de 12 anos 
de governo dos ex-reformistas?!

Apresentar resultados sócio-econômicos sem garantia de continuidade é como antever a 
tragédia anunciada já vivida pela Europa do Sul – e por nós mesmos latino-americanos – por 
tantas vezes. Para completar o absurdo, o mesmo político profissional do partido de 
governo, na frente do muito capaz sociólogo português Boaventura de Souza Santos tentou 
fazer pose de “radical”. Não podia ser mais ridículo. Boaventura caracterizou o governo 
Dilma como de direita e não houve resposta. Nesta altura do momento político, restam 
poucas alternativas para quem ainda se posiciona à esquerda do partido de governo e de 
seus aliados stalinistas e trabalhistas. Sugiro algumas

– Caracterizar o PT como sendo o PSOE espanhol, o que não é elogio algum.

– Rogar, debater e de forma fraterna debater com os militantes e filiados petistas que 
ainda têm algum sistema de crenças em um mundo igualitário a partir da luta popular e 
afirmar o óbvio: “tal e qual a carcomida social-democracia europeia, quem assegura a 
legitimidade do burocrata e do corrupto é a militância que ainda constrói o tecido social 
dos oprimidos”, portanto, abandonem esta caravela furada e optem por canoas de caiçaras e 
pescadores nativos;

– Denunciar e dar combate a todas as políticas deste governo de direita, não entrando na 
balela que “a correlação exige”, ou as “condições não estão dadas”; não estão dadas agora 
porque não foram construídas em doze anos, jamais estarão presentes em cinco ou dez anos 
se não forem construídas a partir de agora.

– Por fim, combater o cinismo político de centro-esquerda e construir uma base 
argumentativa e de mobilização abaixo, com democracia direta e bem à esquerda da política.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29009


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