(pt) anarkismo.net: Pílulas de reflexão libertária na América Latina (2) – a defesa de uma by BrunoL

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Segunda-Feira, 25 de Janeiro de 2016 - 10:29:54 CET


O debate comunicacional é um problema permanente e passa por um período crítico na América 
Latina. Crítico porque de forma correta os donos de meios são caracterizados como bastião 
ideológico tanto da direita como dos capitais transnacionais. Para comprovar a tese, basta 
observar o papel da SIP (Sociedade Interamericana de Impresa), do GDA (Grupo Diários 
América) e ver a atuação dos maiores conglomerados de comunicação social e entretenimento 
midiático em cada um de nossos países. ---- Quem amarra os fragmentos do povo e das 
classes subalternas é justamente a capacidade de comunicar e aglutinar, estando de portas 
abertas as mídias massivas sob o controle popular. ---- O período também é crítico porque 
de forma equivocada, a centro-esquerda ainda insiste na tese leninista da comunicação 
social como agitação e propaganda da direção ou governo de turno e não para conformar um 
espaço público dos debaixo. Como para esta gente ideologia ainda é, em grande parte, um 
dilema de falsa consciência, logo não espanta tal equívoco ou posição autoritária e 
conservadora. Na ausência de um espaço público das esquerdas e do movimento popular, 
simplesmente não temos onde e com quem debater. Pela belicosidade que marca o pensamento à 
esquerda desde o racha da 1ª Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), associamos 
o debate a uma disputa de ideias para convencimento da audiência (subordinando as 
audiências) e para desconstrução da validade das ideias dos adversários políticos. Se em 
termos de política de base isso ocorre, o mesmo fenômeno é devastador em termos de grandes 
públicos receptores, ainda mais falando para quem está desorganizado.

Como disse já venho afirmando aqui, é necessário garantir ou ao menos brigar de forma 
estratégica – logo de longo prazo – para constituir espaços não monetários e onde possamos 
reproduzir como modelo em pequena escala o que queremos como sociedade e suas formas de 
acumulação de força para atingir este lugar. Se o modelo de debate em pequena escala é uma 
insana e sectária disputa por direções e hegemonias reais ou fictícias, logo, estamos 
reproduzindo – novamente – a pior tradição leninista com as práticas mais tolerantes com a 
convivência pacífica com o inimigo de classe. O pior dos mundos resultou nisso mesmo. Uma 
relação ambígua com o inimigo interno (na busca incessante pela tal burguesia nacional 
progressista) e a subordinação do movimento popular para o governo de coalizão da direita 
para garantir a tal da governabilidade.

Se em algumas pautas a agenda social melhorou, na democracia na comunicação foi tudo ao 
contrário. O exemplo brasileiro é entre o péssimo e o horroroso, mas mesmo onde houve mais 
avanços materiais – como na Argentina e na Venezuela – a subordinação e o atrelamento a 
Linha K na primeira e aos chavismos da segunda – matam na raiz a riqueza e a potência da 
comunicação popular com democracia de base como um espelho de um espaço público horizontal 
entre os diversos setores oprimidos e explorados. Não por acaso, a maior parte destes 
setores carrega no lombo a herança maldita do colonialismo e precisa construir e 
reconstruir as culturas do povo a todo o momento.

Quem amarra os fragmentos do povo e das classes subalternas é justamente a capacidade de 
comunicar e aglutinar, estando de portas abertas as mídias massivas sob o controle 
popular. O tecido social é a base do embrião de poder popular, desde que combine vida 
cotidiana, atividades associativas e lutas diretas através de sujeitos coletivos. Esta 
combinação de realização organizativa e reivindicação de direitos passa pelo poder das 
pessoas comuns e desorganizadas e como tal só pode se dar de forma difusa através da 
comunicação social em escala massiva, mas de forma autogestionária.

Infelizmente estamos anos luz desta realidade, mas temos saídas – múltiplas – de forma 
parcialmente consolidada ou embrionária. Esta frente de luta popular não pode depender dos 
governos de turno embora esteja visceralmente ligada – em contraposição – aos níveis 
decisórios do aparelho de Estado. Para isso é preciso bloquear a sedução e a cooptação 
ideológica de delegados e negociadores. Não é aceitável que a cada audiência ou recepção 
com o sub do sub do sub do quarto escalão de um ministério percamos um ou mais militantes 
para a sedução ideológica de uma bandeja prateada de cafezinho ou água gelada com tapinha 
nas costas e promessas protocolares nunca cumpridas. É preciso sempre lembrar que do lado 
de lá do balcão está o representante do inimigo e não apenas um burocrata equivocado ou 
carreirista de plantão. Se alguém em posição de coordenador ou coordenadora esquecer desta 
obviedade, daí o controle coletivo e a cobrança política tem de fazer esta dura lembrança.

A política do povo em luta é cheia de armadilhas. Audiência demais e peleia de menos é o 
método mais eficiente para gerar mais um traidor de classe, ainda mais com microfone de 
rádio na sua frente.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/29017


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