(pt) anarkismo.net: Que esquerda é essa? Ou porque a posição da CAB está correta – 2 by BrunoL

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Quarta-Feira, 20 de Janeiro de 2016 - 14:50:41 CET


Como construir um partido político de esquerda sem projeto político? Como falar em 
socialismo sem uma projeção de sociedade? Como caracterizar uma etapa se não há objetivo 
finalista, sem uma via estratégica, sem a dimensão tática correspondente? O maximalismo só 
atende ao nível da filosofia política, mas fazer política de forma séria, consequente e 
por esquerda prevê um – ou alguns – projetos de acumulação de forças que vão se encontrar 
ou desencontrar ao longo da via. Desde que o muro caiu a maior parte da esquerda restante, 
da ex-esquerda, no caso da América Latina do campo classista e nacional-popular, perdera 
esta dimensão de metas de médio e longo prazo na política e acabam jogando o jogo do 
liberalismo, mesmo que por tabela.

Até o final da Guerra Fria era mais “fácil”, ainda havia abundante ilusão e fantasia 
autoritária, como a tese absurda de partido único e formação de vanguardas políticas.

Até o final da Guerra Fria era mais “fácil”, pois mesmo com críticas ao carcomido e 
horroroso modelo soviético, ainda havia abundante ilusão e fantasia autoritária (não entre 
os libertários), como a tese absurda de partido único e formação de vanguardas políticas. 
Centenas de milhares de militantes sinceros em nosso Continente deram a vida por projetos 
semelhantes, com especial ênfase nas organizações político-militares, alternativa do 
nacionalismo de esquerda e do marxismo latino-americano ao modelo de partido comunista, 
seja este descendente do SPD original – onde Marx militou – ou de sua derivação mais 
conspiratória, com origem leninista. Em nosso país, o exemplo acabado e reivindicado – 
pelo exemplo – é o de Carlos Marighella e seus correligionários. Mas, não há uma linha 
sequer em algum documento da ALN afirmando como seria o sistema político, o sistema 
jurídico, a base econômica sob controle coletivo e outros aspectos fundamentais da vida em 
sociedade. Todo o respeito para quem se jogou por um mundo melhor, mas ajuda saber como 
pensavam o que seria – será – este mundo. O que não existe em teoria não se realiza na 
sociedade.

A crise política pós-Guerra Fria vem daí, da ausência de teoria de ruptura. O que temos de 
viúvas do eurocomunismo reivindica este Marx já criticado do SPD e acabam compondo a 
social-democracia como ideário máximo dentro do sistema capitalista. Não adianta 
tergiversar, buscar debates escapistas ou fugir da polêmica. De forma e séria e 
contundente há de se perguntar para toda força política no campo da esquerda: 
“Companheiro, companheira, o quê vocês querem? Onde querem chegar? Qual o caminho para 
atingir este objetivo? Porque tem ou não adesão às vias eleitorais? Qual o limite do jogo 
institucional para vocês?” Sem esse debate franco não há caminho a seguir e tudo não passa 
ou de luta reivindicativa – o que é bom, mas sem projeto não acumula para além dos 
momentos de ascensão – ou pior, termina esta energia social sendo canalizada para a 
jogatina eleitoral.

Utopia não é devaneio e nem demência, é o lugar a ser construído, o ideário onde de forma 
racional e consequente aqueles e aquelas aderentes a um conjunto de ideias (ideologia) se 
organizam politicamente para tal. Especifismo (o anarquismo politicamente organizado como 
força classista e popular) é isso, é só isso, é tudo isso. É tudo isso com a democracia 
direta em todos os níveis, sem aderir à venda casada do liberalismo, aonde a “democracia” 
vem junto da “liberdade” econômica.

É este o debate que deve ser feito – sim estou defendendo que sejamos francos uns com os 
outros ao menos uma vez na existência – sem subterfúgios, sem manobras de assembleias com 
boiada votando conforme o capa preta manda, sem papagaiada de formação hierárquica e jogo 
de cena para a torcida. E, pasmem, este é o debate que todas as forças evitam, evitam ao 
máximo, porque esta discussão consequente obriga a um nível de compromisso e autocrítica 
que não condiz mais com as práticas autoritárias, personalistas, descomprometidas, e não 
sobrevivem a chavões que são aplicados como panaceia autoexplicativa, como: “os fins 
justificam os meios”; “política é um jogo dialético”, “tem de ver a correlação de forças e 
fazer as alianças possíveis para o momento”…Sim, e para que? Por quê? Com quem? Com quais 
ferramentas?

O debate está aberto e este analista não tem delegação para falar em nome do coletivo, mas 
sim, como todos e todas que aderem ou apoiam, tem o dever de levar adiante as ideias 
coletivas e torna-las socialmente aplicáveis e compreendidas. A palavra de ordem e ideia 
guia construir um povo forte é isso. Criar, reforçar, um conjunto de entidades de base ou 
movimentos massivos que tenham a articulação interna e o poder necessário para tentar 
vetar o que não é favorável às maiorias e acumular forças para modificar a correlação de 
forças com independência de classe. É o mínimo para apontar no rumo de uma política 
massiva, de base, mesmo dentro desta democracia indireta mas com disposição para 
transformar as relações sociais a partir das lutas coletivas.

Aonde chegar e qual sociedade se quer organizar é outro debate. Há consensos bastante 
ampliados a este respeito e pode ser tema de outro texto. Por agora, fica a pergunta: Se 
não há um projeto concreto de poder do povo, que esquerda é essa?

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28991


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