(pt) As frentes, a unidade e os anarquistas faguista / 16 horas atrás Por Neto (militante da Federação Anarquista Gaúcha)

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Quinta-Feira, 14 de Janeiro de 2016 - 16:49:40 CET


Muito se fala sobre as opções disponíveis para que o conjunto da esquerda de intenção 
revolucionária, ou mesmo a de intenção reformista, possa contribuir de uma maneira mais 
efetiva na criação de uma conjuntura mais favorável para o enfrentamento das classes 
oprimidas à retirada de direitos, intensificação da criminalização ao protesto e a 
pobreza, aumento do custo de vida e ao sucateamento dos serviços públicos que os de cima 
vêm colocando sobre nossas costas. ---- Enquanto anarquistas organizados politicamente e 
nos reconhecendo como parte de uma esquerda de intenção revolucionária que toma como 
trincheira de luta o interior dos movimentos sociais, sindicais, estudantis e populares – 
desde baixo e à esquerda – gostaríamos de compartilhar a nossa opinião sobre algumas 
dessas opções e o que consideramos como alternativas a esse contexto de ofensiva dos de 
cima e resistência dos de baixo.

A importância da unidade

A matriz socialista da qual extraímos muitos ensinamentos em mais de 100 anos de luta e 
organização e dentro da qual nos forjamos como corrente libertária e anti-autoritária, 
ainda no âmbito dos debates e polêmicas da 1º Internacional dos Trabalhadores, muito tem a 
dizer sobre o valor e a importância da unidade. Muita polêmica e propaganda foram feitas 
por centenas de militantes anarquistas na defesa de idéias e práticas caras à nossa 
concepção organizativa, ética e política. É certo que houve um esforço sistemático de 
nossos adversários e inimigos (de esquerda e de direita) para encobrir esse pedaço da 
história do socialismo e que, conseqüentemente, o teor dessas polêmicas seja amplamente 
desconhecido pela maioria da militância da esquerda. Mas o esforço sistemático da geração 
de anarquistas dos anos 80, 90 e 2000 em retomar a inserção social, a organização política 
e a crítica anarquista das relações de poder e dominação, está ai para desmistificar e 
acabar com a ignorância com relação a nossa ideologia.

A unidade foi e continua sendo de extrema importância para nós. Mas qual unidade? Que 
unidade precisamos no atual contexto e, que unidade é condição imprescindível para avançar 
estrategicamente? A nosso ver, unidade de baixo pra cima, materializada na articulação 
entre instâncias organizativas e de mobilização de base. Unidade que se expresse em um 
programa mínimo de reivindicações e que tenha como projeção lutas reivindicativas 
concretas. Mas e o lugar dos partidos (não eleitorais) nessa unidade? Em segundo plano e 
como minorias ativas, como impulsores e motores dessa unidade. Alguns poderão dizer que 
isso não está no horizonte das possibilidades imediatas. A estes respondemos que sim, 
sabemos que estamos falando de um horizonte estratégico. Mas como a esquerda parece estar 
desacostumada a colocar horizontes estratégicos naquilo que faz!

Mas para nós esse horizonte é condição para sairmos do lamaçal em que nos encontramos. De 
imediato, apostamos num esforço de criação de espaços de articulação inter e 
multisetoriais a partir dos locais em que temos inserção. Pois é essa experiência de 
organização por local de trabalho, estudo e moradia – não apenas a mobilização – que será 
pedagógica no sentido da politização, da construção de uma alternativa concreta que escape 
da armadilha do dirigentismo vanguardista, das esperanças em governos de turno e das 
burocracias que emperram sistematicamente a disposição pra luta.

As frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular

Seria possível dizer que as frentes Povo Sem Medo e a Brasil Popular são embriões desse 
espaço de unidade desde a base a que nos referimos anteriormente? Do nosso ponto de vista 
elas projetam publicamente a fauna partidária da esquerda mais ou menos eleitoral, seus 
métodos de ação e estilo militante e, portanto, não.

Enquanto militantes organizados, não temos e não tivemos problemas em nos colocar junto e 
ao lado nos processos de luta (em unidade) com diversos partidos e organizações políticas 
que participam de ambas construções. Mas o fizemos a partir de outros critérios. O 
sectarismo não faz parte da nossa concepção, assim como não faz parte a ideia de partido 
único, de vanguarda auto-esclarecida e de construção de uma ditadura, seja ela burguesa ou 
proletária.

Achamos que os partidos e organizações ideológicas, assim como as organizações 
político-sociais, possuem um lugar importante no interior das lutas. Por isso nos 
organizamos politicamente enquanto anarquistas e tomamos o lugar que nos corresponde. No 
entanto, entendemos que a unidade permitida pelas duas frentes não dá conta dos esforços 
que precisam ser despendidos pra criar participação e organização de base, pois esta é uma 
unidade por cima, entre dirigentes, entre a “vanguarda”, e que não é capaz de produzir 
ideologia de transformação, de confiança nas próprias forças das classes oprimidas.

São frentes que reproduzem os mesmos vícios que as direções sindicais – conscientemente ou 
não – acabam reproduzindo no cotidiano das lutas sindicais, estudantis e populares. A 
prática consequente e necessária para impulsionar a unidade entre os de baixo e a partir 
de suas iniciativas, inclusive para construir sólidas alianças políticas que ampliam o 
escopo de ação nesse sentido, acaba ficando em segundo plano. Tudo em nome de uma 
conjuntura que em boa medida se gestou pelo “deixa pra depois” no que toca a participação 
organizada, independente e autônoma das classes oprimidas no terreno político que lhes é 
próprio: a rua, o bairro, a fábrica, a escola, o campo e a floresta. Tudo em nome da 
política como a disputa no parlamento, feita por profissionais, seja com vistas a 
administrar ou a tomar o Estado. Tudo em nome do “meu programa é mais revolucionário que o 
seu”, enquanto os diretamente atingidos pelos ataques dos de cima sequer opinam sobre qual 
o programa deve ser construído e levantado.

É por isso que escolhemos o nosso caminho e apostamos em uma construção tático-estratégica 
que construa Poder Popular. Certamente estaremos ombro a ombro nas peleias com uma centena 
de companheiros e companheiras que escolhem outros meios que não os nossos e, assim como 
nós, não podem ser acusados de sectarismo. Que os diversos esforços possam confluir para 
forjar povo forte e que a correlação de forças muda ao nosso favor. Mas para isso estamos 
certos que não há atalhos e caminhos curtos.

https://federacaoanarquistagaucha.wordpress.com/2016/01/11/as-frentes-a-unidade-e-os-anarquistas/


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