(pt) anarkismo.net: Por uma geoestratégia dos povos – 1 by BrunoL

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Quarta-Feira, 13 de Janeiro de 2016 - 09:16:06 CET


Introdução – Nesta nova série, inicio um conjunto de textos de difusão que visam ganhar a 
densidade até se tornarem um ensaio posterior. A meta não é necessariamente polemizar de 
fora para dentro da academia, e sim servir como apoio da frente teórica dentro da corrente 
para os debates, proposições e perspectivas em termos de política internacional, economia 
política internacional e relações internacionais. Muitas vezes, diante da impossibilidade 
teórica, há impossibilidade estratégica, logo, nada se realiza e quase tudo se copia ou 
mimetiza. A razão desta nova série é aportar uma contribuição para diminuir esta lacuna. 
---- A história dos povos neste contexto fica subordinada ao arranjo temporário entre 
elites dirigentes e classes dominantes a partir de suas respectivas posições em Estados 
pivô geopolíticos e Agentes Geoestratégicos.

O cenário internacional é quase sempre marcado através de grandes eventos e situações onde 
ocorrem tomadas de decisão a influenciar a vida de milhões e até mesmo bilhões. A história 
dos povos neste contexto fica subordinada ao arranjo temporário entre elites dirigentes e 
classes dominantes a partir de suas respectivas posições em Estados pivô geopolíticos e 
Agentes Geoestratégicos. Os primeiros são observados pelas agendas midiáticas como os 
países regionalmente poderosos e que podem influenciar – a partir de sua condição 
local-regional e sua relevante posição geográfica – a “estabilidade” de um território 
ampliado. Os segundos têm seus excedentes de poder ultrapassando a determinação geográfica 
(em termos espaciais) e incidem para além de suas fronteiras físicas. Esta relação tensa 
projetada sobre um tabuleiro territorial costuma ser chamado de O Grande Jogo. Ir além 
desta condicionante é um grande desafio para pensar e analisar o mundo através de um viés 
libertário (igualitário e democrático).

Os conflitos internacionais e o chamado Grande Jogo costumam abafar ou subordinar os 
movimentos de libertação dos povos. Uma das maiores dificuldades em realizar uma linha 
crítica e comprometida nas relações internacionais e estudos de política em escala 
mundializada e o desenvolvimento de uma teoria que fuja da armadilha derivada do realismo 
e do pensamento stalinista, de base leninista. A soma do pragmatismo político (real 
politique), com o realismo ofensivo (a maximização de interesses em todos os níveis sem 
nenhum escopo ou limite moral para exercer tal vontade), passando pelo jogo de interesses 
e cinismo em distintas escalas (geopolitik), faz com que o pensamento da esquerda restante 
termine por se encantar por governos autoritários, embora os mesmos se contraponham ao 
“ocidente” como tal. É sempre positiva a existência de poderes mundiais para 
contrabalançar um pouco do excedente de poder da Superpotência. Mas, por outro lado, 
nenhum jogo entre Estados pode servir ao interesse e aos projetos estratégicos dos 
movimentos dos povos.

Para contribuir neste esforço, proponho uma análise bastante acessível, ao dividir o Jogo 
Internacional em três níveis. O primeiro nível é o Grande Jogo, em nível geoestratégico – 
portanto, ultrapassando o determinismo geográfico e o posicionamento original dos Estados. 
Este Jogo não atende em hipótese alguma o interesse dos povos, menos ainda das classes 
subalternas dos países subdesenvolvidos, semi-periféricos e potências eternamente em 
ascensão, como o Brasil. Não deveríamos em quase hipótese alguma embarcar no engajamento 
neste Grande Jogo, sendo que no momento a nova Guerra Fria ocorre entre Estados Unidos e 
União Europeia X China e Rússia; isto sem falar nas rivalidades intra-blocos ou entre aliados.

O segundo nível talvez seja o mais perceptível, onde em regiões bastante conturbadas, as 
potências de nível médio, operando como pivôs geopolíticos e com aliados dispostos a fazer 
guerras indiretas se aliam impondo suas pautas também a grandes potências. No caso 
específico do Oriente Médio, verificamos o jogo de Israel, Turquia, Arábia Saudita e Irã 
com níveis elevados de autonomia diante da força de proteção de EUA, Otan, EUA e Rússia, 
respectivamente. Quase sempre os grupos dominantes domésticos costumam ter poderes 
absolutos de veto dentro do jogo regional quando há um nível elevado de conflito. O jogo 
de nível dois confunde-se com os aliados domésticos e pode pender de lado segundo a 
condição de domínio nos Estados e territórios soberanos.

O terceiro nível é, de fato, o único onde os protagonistas são os povos em luta. Estes 
podem ter dimensão doméstica ou mesmo regional, sempre e quando há o protagonismo dos 
agentes que atuam a partir de países ou pertencimentos, como através da etnicidade, tal é 
o caso da esquerda do Curdistão. O desenho destes conflitos de nível três é onde podem se 
desenvolver formas de vida coletivas com autonomia das novas instituições sociais, onde a 
democracia direta e a economia autogestionária podem ser exercidas em média e larga 
escala. A defesa destes territórios ou ao menos a condição de veto dos povos em luta, é a 
única chance para garantir um agendamento internacional que vá ao encontro dos anseios da 
maior parte da humanidade, em geral colocada na condição de vítimas ou massas de manobra 
das decisões tomadas pelas elites dirigentes e frações de classe dominante em escala mundial.

Em termos normativos, as propostas que saem das agências da ONU (FAO, UNESCO, mesmo a OIT, 
ACNUR, dentre outras), além das redes transnacionais de defesa de causas (advocacy, como a 
Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras, dentre outros) são bastante aceitáveis, mas 
não têm a força necessária de serem implantadas. Tal condição de força depende 
necessariamente do protagonismo dos povos nos conflitos e lutas sociais de nível três. É 
neste nível que os interesses das maiorias vêm a ser exercidos de forma direta, através da 
luta coletiva e radicalmente democrática.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com
http://www.anarkismo.net/article/28972


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