(pt) Carta de opinião da FAG - A saída não vem de cima!

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Domingo, 10 de Janeiro de 2016 - 08:55:31 CET


A situação política e econômica do país encontra-se num momento delicado. A aceitação do 
pedido de Impeachment contra Dilma Rousseff (PT) por parte do presidente da Câmara dos 
Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) abre margem para diferentes e divergentes posições. A 
polarização entre os que defendem o governo Dilma Rousseff e os que defendem seu 
Impeachment precisa ser questionada. E seu questionamento deve ser feito através da 
afirmação e da construção de uma saída alternativa, de uma terceira posição, própria e 
característica dos de baixo, daqueles e daquelas que independente do desenrolar dos fatos, 
terão seus direitos sociais, suas condições de trabalho e a dignidade de suas vidas 
destroçadas e dificultadas ainda mais.

A saída não vem de cima!

Desde a eleição de Dilma Rousseff à presidência da república, e mesmo antes, as classes 
oprimidas vêm sofrendo duras penas com a retirada de direitos trabalhistas, ajuste fiscal 
que corta verbas da saúde e educação e com projetos de austeridade que encarecem o custo 
de vida. Tudo ao contrário do que prometia Dilma em sua campanha eleitoral. Na verdade, 
Dilma se elegeu com margem apertada com o verso de que não tocaria nos direitos dos 
trabalhadores. Imediatamente aplica as receitas de ajuste fiscal defendidas pelo seu 
adversário Aécio Neves (PSDB). Um verdadeiro estelionato eleitoral que indica, mais uma 
vez, o caráter nefasto da democracia representativa burguesa e a falsa representação dos 
interesses populares.

Mas os setores da direita na oposição, representantes diretos das ideias conservadoras e 
neoliberais de pura cepa, não contentes com o modo petista-peemedebista de governar 
(através do pacto de classes que dá pouco aos pobres para dar muito aos ricos) decidiram 
que é hora de governar diretamente, descartando de uma vez por todas o PT junto com o 
verniz social e popular que lhe é atribuído. Na visão de uma fração das classes 
dominantes, o PT já não serve a seus interesses, mesmo que essa seja uma reclamação de 
barriga cheia já que em mais de 12 anos de governo Petista lucraram e se privilegiaram 
como nunca.

Essa briga de cachorro grande, de vizinhos de um mesmo condomínio é, assim, uma luta feroz 
entre as elites dirigentes pela máquina do poder político para aprofundar ainda mais os 
ataques aos direitos dos de baixo que já vem pela mão do PT. Não se trata de luta de 
classes, em que os interesses dos trabalhadores são defendidos contra os interesses dos 
patrões. Essa polarização entre “impeachment e governo” não representa os nossos 
interesses enquanto oprimidas/os. A luta de classes não vai sair de cena para deixar lugar 
a essa falsa polarização.

A guerra de nervos do impeachment e a democracia que deve ser defendida

As investigações das várias operações em curso (Zelotes, Lava Jato, etc.) indicam o que há 
tempos nós anarquistas da FAG procuramos afimar: a corrupção é algo estrutural e sistêmico 
que atinge a todos, entre partidos da ordem, bancos, empresários e patronais. Aliado a 
essa corrupção sistêmica, se encontra um modo suprapartidário de governar que não toca nos 
privilégios das oligarquias, no poder dos grupos econômicos e financeiros e no regime 
ideológico das práticas institucionais. Quem governa pelo sistema, pelo sistema é 
governado! Nesse sistema, todos são sócios na corrupção e na impunidade. Uma mão lava a 
outra. Todos têm sua vez. Quem não pactua com esse esquema não governa.

É nesses termos que encaramos o corrupto Eduardo Cunha (PMDB), investigado por corrupção e 
lavagem de dinheiro, assim como encaramos os corruptos de todos os partidos da ordem em 
conluio com os patrões e os banqueiros.

Portanto, a democracia que aí está, não foi criada para garantir os interesses e as 
vontades do povo. Seu funcionamento expressa muito bem isso em cada estelionato eleitoral, 
em cada manobra regimental, em cada lobby patronal, no racismo institucional cotidiano que 
condena sem julgamento a juventude negra das periferias, nos conchavos de toda ordem, nas 
redes subterrâneas que roubam e desviam recursos públicos e em cada fuzil que diariamente 
extermina o povo negro e indígena em todo o Brasil. A lista não termina aqui.

O impeachment é, portanto, uma carta a mais no jogo que vai mudar algumas peças para 
manter tudo como está. Pois as regras do jogo não vão ser alteradas e o Estado Democrático 
de Direito, que é mais de direito para alguns do que pra todos, vai continuar reproduzindo 
privilégios e práticas que excluem os oprimidos de toda e qualquer decisão fundamental 
sobre nossas vidas. Pois o núcleo duro da dominação capitalista continuará intacto. Porque 
os mais de 13 anos de governo “progressista” não representaram a vontade de mudanças 
estruturais e sim uma variável de administração, um modo de operar a máquina que ao final 
não põe em causa as suas engrenagens, não questionam as suas regras de funcionamento.

A democracia que deve ser defendida nesse momento, na nossa visão, é a democracia direta e 
de base dos lutadores sociais, das assembleias populares, dos conselhos e plebiscitos na 
vida pública, nas ocupações de escola e nas lutas sociais que defendem direitos e que na 
prática exercitam um modo próprio de gerir seus interesses, de tomar decisões sobre os 
assuntos que nos afetam diretamente, de fazer política desde baixo enquanto povo oprimido. 
Será pela luta popular e sem recuar um centímetro que defenderemos os direitos sociais e 
as liberdades de reunião, associação e de manifestação, buscando ampliá-las e 
aprofundá-las para além da ilusão oferecida pela democracia representativa. Não cederemos 
um passo para a judicialização da política pois queremos um Povo Forte que faça da 
política a gestão direta dos bens comuns.

O que fazer então nesse momento?

Nós anarquistas da FAG nos posicionamos por uma terceira posição que afirma a 
independência de classe dos trabalhadores contra o ajuste econômico, a democracia direta e 
de base em oposição ao sistema corrupto da representação da política burguesa e a 
generalização das lutas pelas ruas, greves e ocupações fora dos controles burocráticos e 
dos cálculos eleitoreiros. Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e 
tampouco com o governismo ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a 
patronal e o sistema financeiro.

A ocupação das escolas estaduais pelos estudantes secundaristas em São Paulo contra o 
projeto de reorganização escolar que fez recuar o governo Geraldo Alckmin (PSDB) 
suspendendo a reforma que previa o fechamento de 94 escolas é para nós um exemplo do que 
deve ser feito nesse momento. Talvez seja, depois das reduções das tarifas de ônibus que 
provocaram as jornadas de junho de 2013, a maior conquista da luta social contra o ajuste 
nesta conjuntura. Uma conquista parcial certamente, mas que gerou moral rebelde de peleia, 
calçada em outras práticas, que produz outros sentidos e que não se deixa capturar pela 
polarização das elites. Não há saída no curto prazo que passe por fora da luta direta dos 
oprimidos. Buscar atalhos nesse momento é cair novamente na armadilha do pragmatismo que 
não vai levar a lugar nenhum. A saída não vem de cima, da política feita por 
profissionais, mas deve vir de baixo, da política feita com ação direta e democracia de 
base por parte de todas as classes oprimidas.

Outra ideologia, outra cultura política, que faça caminho pra nova geração de lutas 
rebeldes que defende seu trabalho, território, direitos sociais, saúde, educação e 
radicaliza a democracia pela auto-organização. Que não joga mais sua sorte e suas 
esperanças no esquema trapaceiro dos partidos da ordem e semeia núcleos de poder popular 
como fatores de resistência.

A radicalidade de uma alternativa está no plano das práticas e a produção de força social 
de uma resistência combativa vem de baixo, dos lugares vitais do cotidiano de trabalho, 
estudo e comunidade. A unidade que pode forjar uma terceira posição tem que pulsar dessas 
dinâmicas e da união dos organismos de democracia de base das classes oprimidas. Para nós, 
estes são os fatores que podem mudar a correlação de forçar nessa etapa.

Por uma terceira posição: independência de classe e unidade pelas lutas!

Nem com o bando reacionário do impeachment e do congresso e tampouco com o governismo 
ajoelhado que passa a faca na carne do povo em conluio com a patronal e o sistema financeiro.

Democracia direta e de base com Assembleias, Conselhos e Plebiscitos na vida pública!

Generalizar as lutas para mudar a correlação de forças!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

https://anarquismorj.wordpress.com/2016/01/06/fag-a-saida-nao-vem-de-cima/
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