(pt) Coletivo hip hop anarquista da África do Sul

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Segunda-Feira, 4 de Janeiro de 2016 - 09:52:58 CET


Como fazer as pessoas perceberem que estão acorrentadas? Para o Soundz of the South (Sons 
do Sul, SOS) – coletivo de resistência anticapitalista de Khayelitsha, Cidade do Cabo – 
você dá hip hop a elas. ---- Essa conjunção acontece desde as origens do hip hop em Nova 
Iorque. Em festas de rua no sul do Bronx dos anos 1970, equipamentos de som eram muitas 
vezes ligados aos postes de iluminação de parque. As origens do hip hop foram estritamente 
“faça você mesmo” e, o que é mais importante, uma reação direta à marginalização 
estrutural de comunidades e do racismo da grande mídia. O SOS mantém esse espírito inicial 
através de seu ativismo hip hop relevante às suas lutas. ---- Sendo um coletivo tanto de 
ativistas quanto de artistas, estão comprometidos com a descentralização, a ação direta, a 
autonomia e a independência. Tal como os pensadores anarquistas Emma Goldman ou Mikhail 
Bakunin, acreditam que hierarquias corrompem e que somente a organização horizontal pode 
eliminar a desigualdade. Além de gravar discos, o SOS realiza reuniões regulares e 
apresentações “críticas” de documentários, seções semanais deSlam e organiza protestos e 
debates, participam de conferências regulares e iniciaram campanhas como a “Não vote! 
Organize-se!” ou iniciativas para salvar Philippi High (uma escola na planície da Cidade 
do Cabo). Também iniciaram a Caravana de Hip Hop Africano, uma série de eventos anuais 
(esta é a terceira edição) que está acontecendo agora no final de dezembro.

Uma de suas músicas recentes foi diretamente inspirada pelo envolvimento do coletivo com 
os protestos estudantis #FeesMustFall (Abaixo as mensalidades).

Quando entrevistei os membros Milliha, Anele, Khusta, Sipho e Monde, eles estavam 
convictos de que a sua música precisa ser política. “O hip hop precisa ser sobre a 
responsabilização daqueles que estão no poder”, diz Anele. A razão é a de que trata-se de 
um gênero com o qual os jovens se identificam e têm acesso, pois, ao contrário da música 
punk, “Você só precisa de papel e caneta, a batida vem por si mesma”.

O sentimento é o de que, quando a principal virtude do presidente do país, Jacob Zuma, é 
uma dança carismática, e o bling bling, bebidas e mulheres inundam a grande mídia, o hip 
hop de raiz é a mídia alternativa.

Como também fazem parte de outras organizações ativistas, tais como a Assembleia de 
Moradia e a ILRIG (International Labour Research and Information Group – Grupo 
Internacional de Pesquisa e Informação dos Trabalhadores), os membros do SOS compreendem 
que para a mudança social é necessário mais do que música. Para participar do coletivo, é 
necessário estar envolvido em discussões, protestos e reuniões regulares, assumir tarefas, 
organizar, bem como identificar-se com os princípios. Muitas vezes o trabalho de base vem 
primeiro, e ele inspira as ideias para as músicas. Mas Anele ressalta que o que o hip hop 
faz é ajudar os ouvintes a despertarem e se mobilizarem para a ação. “Ele desmistifica 
grandes questões e traz a política de volta para o povo”, diz. Ou, como Monde coloca, 
“estamos pegando o que está lá e trazendo para perto de quem não podia alcançar.” O 
objetivo da Caravana de Hip Hop Africano é levar esse tipo de consciência por todo o 
continente. Ela foi concebida em 2011 pelo SOS, pela Uhuru Network e por diversos 
ativistas culturais.

Em cada cidade africana que participe, haverá uma Conferência de Hip Hop Africano para 
encorajar a discussão do papel do hip hop nas lutas das comunidades, e um Concerto de Hip 
Hop Africano, dando ao hip hop reprimido e underground uma plataforma para se expressar. A 
edição de 2015 começará em Arusha, Tanzânia, e o foco principal será a migração contra o 
pano de fundo dos recentes ataques xenofóbicos na África do Sul, a crise de refugiados na 
Europa e as mortes de adolescentes negros nos Estados Unidos. Inspirados por artistas de 
hip hop do Dakar, que se reuniram para impedir o presidente Abdoulaye Wade de reeleger-se 
inconstitucionalmente a um terceiro mandato, a ideia é explorar a origem de certos 
problemas, relacioná-los a questões atuais e transcender fronteiras.

O envolvimento do SOS na caravana, bem como tudo o que fazem, é autofinanciado. Rejeitando 
estritamente qualquer financiamento de marcas corporativas (dizendo não ao Red Bull, por 
exemplo, me diz Khusta) para manter a autonomia, o SOS decide coletivamente o que acontece 
com qualquer entrada de recursos. Ninguém recebe dinheiro para gastar como quiser. Em vez 
disso, explica Khusta, ele volta para a comunidade. Como grupo sem número exato de 
membros, não estão interessados em ter nem registrar uma marca. “Não fazemos músicas para 
rádio”, diz Anele.

Na África do Sul, a música tem tido um papel importante na luta dos povos oprimidos. O 
presidente Jacob Zuma deve saber bem o poder de convencimento de um ritmo – em época de 
eleições, ele leva DJs famosos aos povoados. É por isso que o SOS não quer que os ouvintes 
desliguem seus ritmos. Seguindo Bakunin, acreditam que uma democracia “doce”, que exige 
gratidão por pseudo-liberdades, acaba distraindo das realidades importantes. “E é isso que 
temos, e é por isso que estamos fazendo o que fazemos, para fazer as pessoas perceberem 
que estão acorrentadas. Elas trabalham e criam riqueza para outros usufruírem, explica 
Anele. Infelizmente, ele continua, muitos camaradas anarquistas não entendem o hip hop – 
“eles vêem muito poder negro e acham se tratar de nacionalismo” – mas ele está convencido 
de que não há linha divisora entre o anarquismo e o hip hop. O hip hop é a voz da classe 
trabalhadora.

Fonte, vídeos e músicas aqui: 
http://africasacountry.com/2015/12/south-africas-anarchist-hip-hop-collective/

Tradução > G Montenegro


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