(pt) colectivo libertario evora: (ANARQUISMO NO MUNDO) NICARÁGUA: UMA REVOLUÇÃO NA MANÁGUA DE HOJE

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Terça-Feira, 27 de Dezembro de 2016 - 13:31:36 CET


Gabriel Pérez Setright é artista, anarquista e anticapitalista. "A minha esperança para o 
futuro é que as pessoas confiem no poder que têm para mudarem as coisas". ---- Dánae 
Vílchez ---- Numa pequena rua sem saída da Colónia Miguel Bonilla, em Manágua, há uma casa 
com algo que a distingue: uma grande bandeira com um arco-irís ondeia à entrada. Contrasta 
com o intenso azul das paredes, uma delas marcadas pelas letras que anunciam que chegaste 
a La Rizoma, um centro cultural fundado por Gabriel Pérez Setright. ---- Este jovem de 24 
anos converteu a sua casa num centro comunitário e denomina-se a si próprio como 
anarquista e anticapitalista. É escritor e artista visual e apresentou recentemente a sua 
obra "outro (fim do) mundo é possível", na qual contrapõe às icónicas fotografias da 
revolução Sandinista, capturadas por Susan Meiselas, imagens da Manágua moderna, com 
grandes edifícios e empresas transnacionais.

A sua proposta gira à volta da pós-memória, uma corrente da teoria histórica que afirma 
que as recordações sobre um determinado evento ou sobre um momento específicio provêm de 
outras fontes e não apenas da própria experiência. A literatura, as artes e as imagens são 
boas ferramentas para compreender uma época. Para Gabriel, o facto de não ter vivido a 
revolução, não o limita na crítica de fundo que faz ao que foi e é na actualidade um dos 
factos históricos mais importantes da Nicarágua

  "Eu introduzo um termo que é a dissonância geracional. Sei que é muito feio dizer que a 
revolução não funcionou e que não gerou o que se propôs gerar, mas a fase neoliberal foi o 
exemplo claro de que se perderam todos os valores que supostamente se tinham fomentado nos 
anos 80 e tudo se converteu numa  socidedade incrivelmente capitalista e individualista", 
explicou o artista.

A sua proposta consite em várias montagens fotográficas que actualmente se encontram em 
exibição no Insituto de história da nicarágua e da América Central (Ihnca) da Universidade 
Centroamericana (UCA). Aí pode-se ver o homem do "molotov" na sua batalha frente a uma 
loja da McDonalds, ou os guerrilheiros a celebrarem o triunfo da revolução no parque das 
Galerias Santo Domingo.

  "Procurei ícones facilmente reconhecíveis, quero que pesnemos no contexto actual do 
neoliberalismo e pô-lo em contraste com os valores que vêm dos anos 80 e, por outro, como 
seria se tomássemos as Galerias ou se houvesse uma revolução na Manágua de hoje.  Também 
para nos darmos conta de que as coisas mudaram radicalmente. Questionar a Manágua em que 
estamos hoje a viver", indicou Gabriel.

"Os centros culturales têm muita burocracia"

Gabriel é licenciado em Psicologia e Filopsofia pela Universidade Warren Wilson, na 
Carolina do Norte, Estados Unidos. O seu trabalho formal consiste em atender e coordenar 
delegações universitárias desse país, organizando excursões académicas a Matagalpa,à Costa 
do Caribe e a Cuba. O seu pai é nicaraguense e a sua mãe norte-americana

O seu trabalho habitual gira, no entanto, em torno a três eixos. Três projectos principais 
que embora funcionem em separado se retroalimentam e complementam entre si. O primeiro, é 
a Casa Cultural La Rizoma. Gabriel converteu a casa em que cresceu num espaço aberto ao 
público. Gere-o com duas companheiras, Kenia Castaldo e Aparecida Argüello, e em conjunto, 
organizam concertos, exposições artísticas e espaços de reflexão. Além disso, albergam 
investigadores estrangeiros que estão de passagem pela Nicarágua para desenvolverem projectos.

O nome provém de uma teoria criada pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari que 
conceptualiza um modelo ou diagrama sem centro, subterrâneo, fluído, activo e em constante 
movimento. Na botãnica, um Rizoma é um sistema de raízes que cresce horizontalmente. 
Segundo Gabriel, é um conceito aplicável aos valores emblemágticos do seu colectivo: 
horizontalidade, experimentação e interconexão.

  "Nós queremos criar espaços seguros. Não queremos cobrar pelas iniciativas, ou fazer 
coisas que gerem dinheiro, não é esse o tipo de comunidade que queremos criar, queremos 
criar uma comunidade baseada no respeito, na horizontalidade e que esteja aberta a todos. 
Aqui os centros culturais operam de uma maneira muito burocrática, elitista até certo 
ponto e muito inacessível. Trabalhamos para descentralizar o poder das ONGs e destes 
centros que t~em muito dinheiro", manifestou  Gabriel.

  "Precisamos de mais espaços pequenos por toda a cidade para podermos gerir iniciativas 
sem a necessidade de ir através do Estado ou dos centros culturais que têm fama e 
dinheiro. Nâo é que os seus eventos sejam maus, só que têm o poder de decidirem que 
projecto avança e que projecto não avança. Se se criar uma rede de pessoas à margem destes 
centros cada um pode autogestionar os seus projectos", acrescentou o jovem.

Os outros dois projectos são o blog Dissensus Nicaragua e o grupo artístico Experimental 
Colectivo.

A dissensão no sistema actual

Gabriel considera que cada uma das acções que realizamos tem uma conotação eminentemente 
política. Para ele, a base da sua postura, como escritor e como artista, é questionar-se 
sobre o que sucede no país e para isso retoma correntes ideológicas como o anarquismo, o 
feminismo e o antineoliberalismo.

No seu blog, Dissensus Nicaragua, reflecte sobre coisas como a moda e no uso de elementos 
culturais em benefício do capitalismo e das grandes empresas. Além disso, analisa o 
discurso actual e dá outras perspectivas e significados à prática política.

  "A minha posição é de trabalho comunitário e relacional, num lugar pequeno, de actores 
que se conhecem e partilham uma história, não nos interessam soluções que possam vir 
através das eleições. O anarquismo está contra a centralização de tudo através do Estado. 
Para mim, as necessidades podem ser resolvidas através de organizações comunitárias. A 
minha esperança para o futuro é que as pessoas confiem no poder que têm para transformar 
as coisas", revelou o artista.

O anarquismo é uma corrente de pensamento entre cujos principais expoentes se encontram o 
russo Mikhail Bakuni e o britânico William Goldwin. A sua filosofia política e social 
pretende a desaparição do Estado, dos seus organismos e instituições representativas e 
defende a liberdade do indivíduo por cima de qualquer autoridade.

Mas o que significa ser um anarquista na sociedade moderna? Segundo Gabriel, implica estar 
consciente do sistema em que vivemos e enfrentá-lo diariamente através de acções 
quotidinas. Num mundo que se desenvolve tendo o enfoque na conformação do Estado como 
centro e regente da vida, para além de uma economia baseada eminentemente na produção de 
riquezas para o grande capital, para os anarquistas como Gabriel o poder está em conhecer 
quais são as contradições que pode enfrentar e repensar as maneiras tradicionais de 
participar na política do país.

  "Aos jovens deram-nos um certo número de ferramentas e disseram-nos: fica com estas 
ferramentas para mudar o mundo. Nós o que fazemos é questionar as próprias ferramentas que 
nos estão a dar para modificar o mundo. Quando o jogo político se faz através do Estado, e 
a juventude vê que isso não funciona, procura novas formas de fazer política, seja através 
da arte, dos contos, da dança, da música", manifestou o artista.

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/12/22/anarquismo-no-mundo-nicaragua-uma-revolucao-na-managua-de-hoje/#more-19155


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