(pt) Brazil, Coletivo Quebrando Muros - Criminalizar a combatividade: isso sim é fazer o jogo da direita

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Segunda-Feira, 12 de Dezembro de 2016 - 17:23:37 CET


Em um artigo de opinião publicado em 02 de dezembro no site oficial da Insurgência, 
corrente interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o militante Eduardo 
d'Albergaria apresenta uma análise sobre os acontecimentos do dia 29 de novembro, quando o 
Senado Federal aprovou, em primeira votação, a Proposta de Ementa Constitucional nº 55 
(antiga PEC 241, que congela em 20 anos os investimentos em serviços públicos) por 61 
votos a 14 enquanto do lado de fora da Casa se estabelecia um cenário de guerra entre 
manifestantes de todo o Brasil e as polícias da capital. ---- A análise se configura em 
uma crítica à atuação do chamado Black Bloc não apenas nesse ato em específico e sim, de 
forma generalizada, no Brasil, sendo motivada por um recente retorno da prática de 
desqualificação e criminalização de ações mais radicalizadas por parte de determinados 
setores que reivindicam a luta das massas. Essa prática volta à tona no momento em que a 
tática Black Bloc torna a ganhar expressão no cenário de mobilizações nacional contra o 
processo de medidas anti-povo acelerado por Michel Temer, mas já vinha acontecendo desde o 
levante de junho de 2013 e, com força ainda maior, durante as manifestações contra a Copa 
do Mundo de 2014. Durante esse período, tais setores da esquerda - principalmente ligados 
ao petismo - fizeram coro uníssono com a direita contra a juventude combativa que tomava 
as ruas convicta de sua luta e autonomia e inovando em táticas, reforçaram a narrativa 
reacionária que distingue manifestantes de "mascarados" e inclusive chegaram a confrontar 
e entregar manifestantes para a polícia, atuando como a P2 do próprio movimento.

O texto apresenta diversas falhas de leitura sobre os fatos que sucederam no dia 29 de 
novembro, algumas mais "inofensivas" como ao comemorar uma suposta baixa adesão de 
(ex)governistas ao ato quando a presença desses setores e o papel cumprido por eles de 
recuar a manifestação foram nítidos, ou então ao apontar o número de "mascarados" entre 50 
e 100. Outras falhas, porém, são mais sérias e não podem ser vistas como mero descuido: o 
artigo literalmente responsabiliza as ações dos adeptos da tática pela truculência 
policial, como se a força policial que mais mata no mundo fosse incapaz de atacar uma 
manifestação pacífica e como se qualquer manifestação que incomodasse minimamente aqueles 
que terão seus interesses protegidos pela PEC 55 não seria reprimida pelo braço armado do 
Estado que só governa para os de cima.

O Black Bloc é uma tática essencialmente de defesa das manifestações e seus adeptos se 
utilizam de diversos materiais para evitar danos maiores aos manifestantes. Então, ao 
invés de alegar que não haveria repressão policial caso não houvesse ação dos Black Blocs 
em Brasília, por que não se perguntar como seria a repressão policial caso não houvesse 
resistência em Brasília? O confronto não teria durado horas, a manifestação teria 
dispersado logo no início e todo mundo voltaria para suas cidades (e só com muito cinismo 
com a sensação de dever cumprido). Como seria o massacre de 29 de abril em Curitiba se não 
houvesse "mascarados" com seus escudos a frente da manifestação para que uma quantidade 
menor de bombas e balas de borracha atingissem os presentes, chutando as bombas de volta 
para a polícia, carregando os feridos para longe do confronto e ajudando-os, distribuindo 
materiais que amenizam o efeito das bombas, etc.?

É de extrema irresponsabilidade colocar a polícia e o Black Bloc como atores de um mesmo 
papel que protagonizou as imagens que a mídia burguesa precisava para desmoralizar a 
manifestação, esvaziando todo o debate político que ela deveria trazer. Assim como o 
empresariado, banqueiros, grandes proprietários de terras e caciques políticos, os 
detentores dos meios de comunicação da grande mídia fazem parte de um pequeno grupo que 
trabalha para manter seu poder e privilégios. A maior parte da população será prejudicada 
pela PEC 55, mas se informa principalmente através destes veículos de comunicação e não 
está consciente disso - não porque um grupo de manifestantes quebrou algumas vidraças e a 
mídia foi obrigada a retratar isso de forma negativa, mas sim porque a imprensa promove 
cotidianamente propaganda favorável à PEC 55 e a qualquer outra medida que continuará 
privilegiando os velhos privilegiados enquanto ataca a nossa classe.

Agora, se a mídia "alternativa" (que de independente não tem nada) reproduz o mesmo 
discurso que criminaliza as ações mais radicalizadas - como os Jornalistas Livres que 
insinuaram que os jovens que estavam no front em Brasília eram infiltrados - se faz 
necessário analisar as coisas com muito mais cautela do que simplesmente comprar e 
reproduzir esse discurso. É curioso notar que, logo após o impeachment de Dilma e as 
primeiras movimentações pelo "Fora Temer", essas ações, mesmo que desordenadas, foram 
recebidas de forma até mesmo amigável pelas organizações e mídias com maior proximidade 
com o governo que acabara de ser deposto. A partir do momento que esses setores percebem 
que não podem parar essa juventude no canetaço e acordaço com os patrões como fazem com as 
greves de seus sindicatos aparelhados ou que não podem organizar esses jovens em suas 
fileiras por rejeitarem a representatividade e a verticalidade que são tudo o que essas 
organizações têm a oferecer, o discurso muda. Aqueles que, por sua coragem, disposição e 
desbravamento, são várias vezes convidados a contribuírem para o movimento, agora são 
inimigos e devem ser combatidos - no discurso ou não.

O artigo aponta ainda para uma suposta despolitização e desorganização dos adeptos da 
tática Black Bloc, coisas que eles não podem provar pura e simplesmente por falta de 
contato. Desconsideram esse setor, em sua maioria da juventude periférica, que vai às ruas 
ardendo pela transformação social e está aprendendo, a partir da prática, a importância da 
organização popular cotidiana. Estas pessoas não reconhecem nas velhas formas um campo 
fértil para sua atuação, o que não quer dizer que não possam avançar no processo crítico 
para uma construção coletiva mais efetiva.

É muita ingenuidade ou falta de autocrítica afirmar que apenas a violência nos protestos 
afasta as massas da luta. O povo que ainda não se organiza e vai às ruas também rejeita 
boa parte das bandeiras, organizações e partidos que compõe os atos. O PT e a esquerda 
institucional têm responsabilidade nessa rejeição, mas a grande culpada é a mídia burguesa 
que cumpre o seu papel de fazer com que a população tenha aversão à organização e luta 
populares, pois é isso que dá as condições de libertar a classe trabalhadora de sua 
condição de explorada.

É claro que o Black Bloc enquanto tática utilizada pelos movimentos sociais tem muitas 
limitações e nunca foi intenção de seus adeptos derrubar sozinhos a PEC. Nós entendemos 
que apenas a organização de base nos diferentes locais de estudo, trabalho e moradia e 
outros que torna possível acumular força suficiente para barrar esses ataques. Não existem 
atalhos para reverter décadas de despolitização e burocratização nos movimentos, e para 
isso é preciso trabalhar junto ao povo desde já. No entanto, é necessário superar essa 
falsa distinção entre ação direta e trabalho de base, porque as duas coisas são 
perfeitamente possíveis e complementares. Conforme os movimentos sociais se fortalecem, 
devemos avançar no planejamento estratégico e nas instâncias de democracia direta para 
aplicar força da maneira mais eficiente no alcance de nossos objetivos. A radicalidade 
leva acúmulos históricos para o movimento. Nesse sentido, sendo a tática Black Bloc 
bastante recente no Brasil, entendemos como perfeitamente natural que haja problemas de 
organização e que a atuação até o momento não seja a ideal, mas a crítica que tem sido 
feita não vai ao sentido de aperfeiçoá-la, mas sim de criminalizar e silenciar toda 
expressão de combatividade.

O ponto mais preocupante que o texto levanta é a afirmação de que a lógica do 
enfrentamento seria "macho-centrada" e, portanto, afastaria mulheres e LGBT's. Além de 
desconsiderar a realidade de movimentos como o Zapatista do México, a Revolução Curda no 
Oriente Médio e o papel fundamental das mulheres na Revolução Espanhola, o autor também 
demonstra desconhecimento sobre as raízes do próprio Black Bloc. Vale lembrar que LGBT's 
também protagonizaram levantes extremamente radicais contra a perseguição 
institucionalizada pelo Estado. O que teria sido Stonewall (nos EUA), se não uma 
demonstração de força do movimento LGBT contra a violência policial? É impossível negar a 
contribuição daquela rebelião para a luta e organização pelos direitos desse setor 
oprimido da sociedade. LGBT's e mulheres cerraram fileiras e resistiram nas barricadas em 
Brasília e em outras lutas ao redor do mundo. Enfrentamento é coisa de mulher sim e 
reivindicar fragilidade e incapacidade de se autodefender é que é machista e LGBTfóbico!

A desinformação acerca da tática Black Bloc propagada por esse campo da esquerda volta a 
se estabelecer, mas é preciso tomar cuidado para que ela não ganhe espaço e assuma uma 
face ainda mais perigosa e reacionária: da criminalização posta em prática e não apenas em 
discurso, como algumas organizações já se demonstraram capazes de fazer. É necessário 
combater o quinta-colunismo e esvaziar seu discurso, nos afastar do purismo tático e 
debater para longe do oportunismo toda ação autônoma e combativa.

Seguir organizando a revolta popular com independência de classe e de forma autônoma a 
disputa do Estado, pela força das ruas!

https://quebrandomuros.wordpress.com/2016/12/09/criminalizar-a-combatividade-isso-sim-e-fazer-o-jogo-da-direita/


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