(pt) anarkismo.net: A necessidade de um pensamento radical latino-americano by BrunoL

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Terça-Feira, 9 de Junho de 2015 - 08:48:21 CEST


Editorial Groupblimarocha at gmail dot com Recentemente tive a oportunidade de fazer uma 
comparação de cenários políticos em um programa de rádio do Rio Grande do Sul. Estamos em 
um momento onde os governos de centro-esquerda ou vivem em crise (caso do Brasil e 
Argentina), ou aderem parcialmente às teses do Império (caso de Chile e Peru) ou estão sob 
uma severa crise institucional, tal é o que ocorre na Venezuela. Vale observar que nestes 
países (Bolívia, Equador e o já citado país de Bolívar) as instituições não são sólidas e 
este é o labirinto. Quando há arranjo institucional fortalecido, o regime se mantem, mas 
as chances de transformação são pequenas. Já, quando não há estrutura fortificada e 
separação entre governo e Estado, há a tendência de que as elites dirigentes e suas sócias 
majoritárias transnacionais exerçam um poder discricionário. Ainda assim, pouca 
institucionalidade implica em maior poder da mobilização popular. E esta é nossa única 
chance, sempre.

A participação limitada na América Latina mostrou seus limites e hoje já vivemos a crise 
dos governos bolivarianos como modelo de desenvolvimento autônomo, sendo que a mais aguda 
delas é justamente da Venezuela pós-Chávez.

Debatendo com gente bem mais à direita, afirmei que o limite da justiça social no 
liberalismo latino-americano era o Palácio de La Moneda sendo bombardeado no fatídico dia 
11 de setembro de 1973, com o presidente eleito Salvador Allende lá dentro. O médico 
chileno é um paradigma e exemplo, pois acreditava nas instituições liberais mais que os 
próprios liberais-conservadores que as criaram. Quando os operadores políticos não aceitam 
os dados de realidade, terminam sendo convencidos da pior forma imaginada.

Por um lado, Allende se recusou a quebrar a hierarquia de tipo prussiana das forças 
armadas chilenas; logo, ficou à mercê dos reacionários que em tese defendiam seu país. A 
falha estratégica da Unidade Popular deixou nítida a barreira concreta que os povos do 
Continente têm quando tentam um caminho por dentro da democracia liberal. Considerando que 
os caminhos de partido único e Estado autárquico estão esgotados, qual a via 
latino-americana para a emancipação social, combinando desenvolvimento das forças 
produtivas, democracia popular, justiça social e garantia das liberdades individuais e 
coletivas?

As ilusões autoritárias deram lugar ao pragmatismo da democracia liberal. Logo, a 
participação limitada na América Latina mostrou seus limites e hoje já vivemos a crise dos 
governos bolivarianos como modelo de desenvolvimento autônomo, sendo que a mais aguda 
delas é justamente da Venezuela pós-Chávez.

Em um período mais recente, o presidente eleito do Paraguai Fernando Lugo, sofrera um 
processo de impeachment em tempo recorde. Sua virtude, a de começar a reforma agrária no 
país; e seu maior erro, não convocar as forças sociais mobilizadas para garantir a 
continuidade do governo eleito. Antes de Lugo, o oligarca travestido de nacionalista 
Manuel Zelaya Rosales, presidente eleito de Honduras, foi derrubado também por um golpe 
branco, votado às pressas e baseado em uma constituição redigida por militares treinados 
na Escola das Américas.

Cinquenta e um anos atrás, na noite de 1º para 02 de abril de 1964, o Brasil encontrou com 
o limite do populismo nacionalista, quando o presidente eleito (na eleição de 1960 o vice 
fora eleito em chapa separada do presidente) João Goulart se recusou a resistir ao golpe 
de Estado articulado pelo embaixador do Império Lincoln Gordon. A esquerda da época, 
caminhando a reboque de Goulart e Brizola, ficou esfacelada, não recrutando nem 5% do 
contingente popular mobilizado em 1961 (na Campanha da Legalidade), para confrontar contra 
a ditadura a partir do Ato Institucional de número 5 (AI-5). Não foi por falta de aviso ou 
condições, mas sim falta de radicalidade.

Diante da crise de fim de ciclo e modelo de desenvolvimento subordinado ao capital 
rentista, é urgente que a América Latina encontre seu caminho por dentro da democracia 
radical e bem distante do paradigma liberal. A única certeza dos povos latino-americanos 
passa pela afirmação da América Latina e a construção de instrumentos de poder popular 
independente da traição dos governos de turno.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais.

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28241


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