(pt) Cuba, Comunicado: II Jornada Primavera Libertária de Havana (en)

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Sexta-Feira, 20 de Fevereiro de 2015 - 20:15:24 CET


A Oficina Libertária Alfredo López; Ocupação Cristo Salvador e O Guardabosques convocam a 
II Jornada Primavera Libertária de Havana, a realizar-se de 29 de maio a 7 de junho de 
2015. Um espaço aberto a processos e dinâmicas antiautoritárias e anticapitalistas, que 
contribuam com formas de sociabilidade e de consciência baseadas na horizontalidade, na 
aprendizagem mútua e na responsabilidade. ---- Pretendemos que a jornada seja, tal como 
seu nome indica, a evocação de um broto primaveril de ideais libertários, cujas raízes, 
apesar de toda adversidade histórica, buscam sempre as chaves justas para um novo alento, 
rotas para novas explorações e possibilidades de luta e transformação. ---- Convidamos 
para participar desde já, com inspirações e ideias para a geração do corpo temático do 
evento. Sejam, pois, bem-vindos, a partir do amor que desperta todo gesto honesto contra a 
opressão.

Esperamos sua comunicação e agradecemos de antemão toda ajuda na promoção deste encontro.

Havana, Sábado, 14 de fevereiro de 2015.

Para contatos e informação: primaveralibre  riseup.net

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agência de notícias anarquistas-ana

Muita brisa à noite.
Dos jasmineiros da rua,
perfumes e flores.

Humberto del Maestro

[Cuba] O quê ficou da I Jornada Primavera Libertária de Havana

  Por Marcelo “Liberato” Salinas

Entre as duas últimas semanas do mês de maio passado e as duas primeiras de junho ocorreu 
a I Jornada Primavera Libertária de Havana, um grupo de atividades organizadas entre a 
Oficina Libertária Alfredo López e o Espaço Social Cristo Salvador, para promover uma 
perspectiva libertária e antiautoritária sobre vários temas específicos e, sobretudo, 
contribuir como referência a um acionar organizativo em autonomia e horizontalidade, 
frente ao imbatível avanço vitorioso da colonização estatal, agora em aliança comercial, 
que vem ocorrendo na sociedade cubana, com o beneplácito de muitos daqueles que se 
autodefinem como “alternativos”.

A Jornada teve todos os ingredientes, tanto como para renunciar a voltar a fazer nada mais 
como isto, mas também para constituir um rico material de experiências para aqueles que 
desejem retomar e continuar experiências como esta. Em primeiro lugar, devemos dar 
constância da espessa solidão que acompanha estes empenhos, assim como o gasto de energia 
em detalhes, aparentemente insubstanciais, que se precisa usar para concretizar um 
trabalho de equipe em assembleia, que supere as formas habituais de gestão de atividades, 
assim como a preguiça que nos foi inoculada de mil formas por este sistema, que se 
internalizou em cada um de nós como uma segunda natureza.

Mas como já disseram outros, não devemos perder de vista que o desejo consciente é um 
elemento fundamental em projetos como a Primavera Libertária, para os quais nunca existem 
condições objetivas que garantam suas possibilidades de fecunda existência, dada a 
habitual má promoção que tem em todos lados as perspectivas libertárias e antiautoritárias 
que propõe o anarquismo.

Justamente, para romper a imagem do anarquismo como outra capela de certezas, organizada 
por sacerdotes monopolizadores das sagradas escrituras anárquicas, convocamos no primeiro 
encontro da Jornada ao círculo de diálogo “Meu anarquismo e o de meus amigos”, onde 
pretendemos dar conta das variadas formas de apropriação que pode gerar o anarquismo e 
como tem incidido mais que nada na vida concreta das pessoas e as dinâmicas coletivas 
daqueles que tem assumido o ideal, do que saiu uma documentação visual preliminar sobre 
esse encontro.

Aprofundando-nos em um tema que habitualmente nenhuma das correntes ideológicas e 
políticas existentes em Cuba prestam atenção, como é o caso da alimentação e a saúde, no 
segundo encontro organizamos a apresentação do livro “Cozinha Permacultural” da engenheira 
agrônoma e ativista Miriam Cabrera Viltre e pusemos em prática uma sessão de cozinha 
coletiva sob os princípios da Permacultural, a qual foi parcialmente documentada em 
crônica escrita e em vídeo, e constituiu uma gratificante e intensa experiência coletiva, 
que se soma ao que Miriam vem  fazendo durante anos. Uma experiência que fez denotar a 
profunda afinidade  entre esta proposta culinária, as perspectivas libertárias e a vida 
cotidiana e, por outro lado, permite ver que o comunismo não é um horizonte nebuloso para 
dias melhores, mas sim um fato comum, se existem desejos para comunizar os espaços em que 
nos movemos.

O terceiro encontro da I Jornada foi um vídeo debate sobre o documentário “Cuba: Memória 
sindical de Claudio Castillo e Jorge Mazetti”, um material que permitiu o acesso a uma 
história do sindicalismo em Cuba, vista a partir do prisma das correntes sindicais 
revolucionárias, incluídas as anarcosindicais, que foram desarticuladas pela aliança entre 
os estalinistas e castristas entre 1960-61. Esta projeção deu lugar a um diálogo muito 
substancioso sobre a paisagem social cubana contemporânea e as possibilidades de 
intervenção que ficou resgatado na crônica “Otra Memoria sindical para pensar el futuro de 
Cuba”.

O quarto e último encontro da Primavera Libertária de Havana foi a excursão urbana pela 
rota dos anarquistas em Havana, uma atividade que recebeu uma promoção solidária de uma 
inusitada variedade de mídias digitais, que identificaram nesta ação algo pouco comum no 
entorno cultural de Havana. Em contraste com esta ampla promoção, a atividade teve uma 
baixa participação, causada por várias coincidências adversas, mas também como resultado 
das exitosas modalidades com que o Estado cubano dosificou o medo nas pessoas, na hora de 
fazer uso autônomo dos espaços coletivos. Apesar de todos os fatores adversos, a atividade 
transformou-se em um intenso diálogo em movimento pelas ruas de Havana e cumpriu seus 
propósitos de visibilizar de maneira direta, no tecido da cidade, a variada e ampla 
presença dos anarquistas na história do país, particularmente em Havana.

Do anunciado dentro da Jornada, ficou pendente o círculo de diálogo “Arte e anarquia”, um 
significativo tema que organizaremos nos próximos meses. Sua não realização foi expressão 
concreta dos limites organizativos do grupo coordenador da Jornada, mas também da profunda 
ausência de uma perspectiva libertária na hora de ver a produção criativa, que atentou 
diretamente contra este eixo temático. Não obstante se encontram os caminhos…

Então, o quê ficou da I Jornada Primavera libertária de Havana? Estabeleceram-se vínculos 
com valiosas pessoas que fazem parte de outros circuitos, que podem ser muito proveitosos 
para o trabalho social e a ampliação dos espaços e as perspectivas libertárias no contexto 
cubano. Ficou selada uma mais firme e amorosa relação entre a Oficina Libertária Alfredo 
López e o coletivo do espaço Cristo Salvador, um dos locais mais respeitados por sua 
autonomia e autenticidade no mundinho contracultural de Havana, que permite desenvolver um 
trabalho sustentável. Ficou a experiência de uma maneira diferente de fazer o que 
habitualmente fazemos, que permite concentrar a energia e dar mais visibilidade ao 
trabalho dos anarquistas em Havana, e do que podemos contribuir para esses diversos 
empenhos por sanear nossa ilha, que se fazem novamente visíveis.

Um propósito fundamental dos que organizamos esta I Jornada Primavera Libertária foi 
cumprido, apesar de todas as falências: gerar referentes críticos para incitar a ação 
antiautoritária dentro do anêmico movimento contracultural de Havana, diferente do 
habitual, baseado em demandar reconhecimento oficial, cooptação, neutralização, ou 
simplesmente em conseguir visibilidade internacional para fugir do país, de forma tal que 
possamos transcender a perda de sentido em que se tem enterrado muitos dos projetos e as 
vidas daquelas pessoas que nas últimas décadas em Cuba pretenderam ser “independentes”, 
“alternativos”, ou mais recentemente “autônomos”. Parafraseando o escrito em um dos tantos 
carros antigos que circulam pelas ruas de Havana, não só critiquemos, superemos!!!

Fizemos visível que nós libertários em Havana possamos encaminhar uma agenda austera de 
atividades, mas de forma coerente, sem necessidade de patrocinadores empresariais, nem 
auspiciadores estatais, só com a solidariedade de nossos companheiros no exterior e nossa 
energia e persistência libertária. Igualmente nos demostramos que sem o medo e o 
pessimismo, não importa o número dos envolvidos, se pode fazer muito mais que o triste 
realismo político que estes sentimentos indicam. Nossos ideais não são peças desmontáveis 
para vender ou trocar no animado mercado de identidades políticas. Tampouco são carne 
inerte para pôr a congelar, esperando melhores tempos ou um melhor preço.

Como sempre, não conhecemos os planos da temida Segurança do Estado cubano, para nós, nem 
as razões de por quê não tivemos esta vez, de maneira visível, sua presença. Talvez 
simplesmente estejam preparando uma melhor resposta repressiva ou esperando que se cumpra 
a mesma lei de gravidade geopolítica do Tio Sam a respeito da ilha: que amadureça a fruta 
para que caia em suas mãos. Mas em qualquer caso, a barreira do possível foi alterada 
novamente. A relação entre o que dizem e o que fazem os poucos anarquistas que habitam 
Havana se tem concretizado e ampliado ao mesmo tempo, e os desejos por continuar fazendo-o 
também. E já se sabe que frente aos desejos absolutos de emancipação, a repressão só 
produz mais terror, mas também mais vergonha de viver neste mundo de opressão.

De nosso lado fica claro que devemos seguir buscando os mais limpos e coerentes procederes 
para alimentar esses desejos de fraternidade, convivência sem domínio, nem medos e 
criatividade livre. Do lado deles, só eles sabem…

Que as energias dos espíritos libertários que descansam nesta terra e em muitas outras 
sustentem estes esforços!

Rede Observatório Crítico: observatoriocriticocuba.org

Tradução > Sol de Abril

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Camisas alegres
gangorram agosto
no varal.

Yeda Prates Bernis


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