(pt) www.anarkismo.net: A encruzilhada do Curdistão socialista by BrunoL (ca)

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Sexta-Feira, 28 de Agosto de 2015 - 22:32:32 CEST


Introdução ---- O advento da primavera árabe e a rebelião sunita contra o governo Assad na 
Síria oportunizou o exercício de soberania da população curda residindo dentro dos limites 
deste Estado falido. Em novembro de 2013, isto se concretizou no estabelecimento dos três 
cantões de Rojava (oeste em curdo), Efrin, Kobane e Cyzire, implicando na construção de 
uma sociedade de tipo socialista, democrática e feminista. As instâncias de poder são de 
acesso coletivo, os cargos executivos rotativos e a economia tem base familiar, 
cooperativada e com experimentos de coletivização. ---- Desde o início do conflito na 
Síria, o governo de Ankara apoia de forma implícita e por vezes explícita o Estado 
Islâmico e faz o possível para aumentar a repressão sobre Rojava e as linhas de apoio do 
outro lado da fronteira.

A resposta à tamanha ousadia societária veio com o avanço do jihadismo mais brutal, 
operado através do Estado Islâmico (ISIS), cujo cerco a Kobane durou mais de 120 dias, 
resultando no equivalente à Batalha de Stalingrado para os povos do Curdistão. Com a 
vitória da esquerda em Kobane e as seguidas derrotas militares impostas aos wahhabitas 
comandados por Al-Baghdadi (líder do ISIS cuja origem vem de um racha da Al-Qaeda, no 
Iraque), chamaram a atenção mundial para a luta armada iniciada em 1984 e cuja repressão 
na Turquia implicou em mais 40 mil mortos e em 3.800 vilas e vilarejos removidos pelas 
forças armadas kemalistas (os militares turcos têm sua origem moderna na reconstrução do 
Estado promovida por Kemal Ataturk). Desde o início do conflito na Síria, o governo de 
Ankara apoia de forma implícita e por vezes explícita o Estado Islâmico e faz o possível 
para aumentar a repressão sobre Rojava e as linhas de apoio do outro lado da fronteira.

A partir de julho de 2015, após a vitória eleitoral do HDP (Partido Democrático do Povo), 
frente política da esquerda do Curdistão dentro da Turquia, o Poder Executivo vem 
utilizando suas potestades especiais e intensificando a incidência militar contra as 
forças curdas. Alegando bombardear e reprimir o ISIS e tendo o aval da OTAN (a Turquia tem 
o segundo maior contingente da Aliança do Atlântico Norte) para criar uma zona tampão de 
100 quilômetros a partir da fronteira com o Estado falido da Síria, Erdogan e os 
conspiradores militares do alto-comando (as conhecidas redes Ergenekon) praticamente 
obtiveram carta-branca de seus pares para exterminar esta impressionante experiência 
democrática.

Breve trajetória e contexto do PKK

O Oriente Médio vive um momento dramático, dando sequência aos mais de cem anos de 
conflitos ininterruptos, boa parte destes promovido pelo interesse das potências 
ocidentais, como também pelo jogo realista e amoral das potências regionais. Os países com 
ascensão regional e atualmente com status de Estados-pivô na região são Israel, Arábia 
Saudita, Turquia e Irã. Neste seleto clube outrora participava o Egito no período de 
Nasser, mas desde os acordos de Camp David (1978), selando a paz entre Egito e Israel 
tendo em troca a plena devolução do deserto do Sinai, o país que foi o berço do moderno 
pan-arabismo inclinou-se para os interesses de sua nobreza e cleptocracia de Estado, 
abandonando os discursos de emancipação dos árabes.

O pensamento e a postura mais à esquerda vêm sendo progressivamente abandonados por uma 
concorrência de tipo sectária entre as elites dirigentes dos Estados ali localizados. A 
grande exceção a esta regra é a esquerda curda, representada pelo Partido dos 
Trabalhadores do Curdistão (PKK), cujo embrião remonta ao ano de 1973 e a fundação fora em 
1978. Os curdos são considerados a maior nação sem Estado no planeta e a busca pela 
criação de um Estado-nacional de maioria curda e modelo socialista centralizado foi o 
objetivo estratégico do PKK até o ano de 1999. Desde então, esta força político-militar 
passou por dez anos de reconstrução e debates internos, remodelando seu programa e 
ultrapassando qualquer marco de luta nacionalista. A partir de 2010, o PKK tornara-se o 
núcleo duro e irredutível de um gigantesco movimento social e popular dos povos do 
Curdistão (curdos e não curdos) vivendo — majoritariamente — como cidadãos de segunda 
categoria debaixo da soberania e opressão de Turquia e Irã, e de forma mais autônoma 
dentro dos territórios dos Estados falidos da Síria e do Iraque.

A força político-militar a rivalizar com o PKK é oriunda do domínio oligárquico do clã 
Barzani, líder inconteste do Partido Democrático do Curdistão (KDP) e homem forte do 
regime à frente do Governo Regional Curdo (KRG), cuja capital é Irbil e ocupa uma mancha 
territorial no Curdistão iraquiano. Ao contrário da força liderada por Abdullah Ocalan, o 
KDP é considerado coirmão do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), legenda do 
presidente islamita turco, Recep Erdogan e inimigo estratégico do PKK. Após a primeira 
guerra do Iraque, a região onde hoje se localiza o KRG passou por uma guerra civil entre a 
direita curda (KDP e os clãs oligarcas aliados) e o PKK. Os primeiros foram apoiados pela 
Turquia, Irã, financiados por empresas transnacionais de petróleo — detentoras de 
contratos de exploração — e com auxílio da aviação militar dos EUA. Isto resultou em uma 
vitória pontual da direita e uma trégua armada com a esquerda curda. O empate estabilizou 
os santuários do PKK nas montanhas do Curdistão, controlando suas rotas e podendo operar 
como autodefesa de massas contra os ataques da Turquia e do Irã.

O objetivo estratégico da Turquia

O provérbio oriundo desta região e mais conhecido internacionalmente é emblemático da 
situação. Este afirma que “os curdos não têm outros amigos além de suas montanhas”. Logo, 
controlar as montanhas implica em salvaguardar tanto a reserva estratégica do PKK como o 
local de treinamento de novos militantes do partido e voluntários das forças de autodefesa 
popular (o HPG). A partir dos acampamentos, o PKK alimenta as forças coirmãs do PJAK 
(Partido da Vida Livre no Curdistão) no Irã e o PYD (Partido da União Democrática) na Síria.

Pela lógica do conflito, o avanço turco por terra na Síria e sobre as montanhas do 
Curdistão rompe — de fato — com o cessar-fogo estabelecido pelo PKK e visa tanto acabar 
com a soberania popular no oeste do Curdistão como aniquilar as bases político-militares 
de seus adversários permanentes. Diante do avanço da Turquia, o governo da direita curda 
aplaudira a iniciativa, vendo nesta ofensiva militar a chance ideal para dar fim à única 
força política capaz de quebrar a hegemonia pró-ocidental nos domínios do KRG. A única 
saída para o Curdistão socialista é garantir um impasse militar contra a Turquia e, na 
sequência da vitória definitiva sobre o ISIS, também derrotar a direita curda em todos os 
níveis.

Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e de relações internacionais

Site: www.estrategiaeanalise.com.br
Email: strategicanalysis  riseup.net
Facebook: blimarocha  gmail.com

http://www.anarkismo.net/article/28437


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