(pt) Portugal, Acção Directa #5 P6 - Movimentos sociais - 2MÉvora: foi bom, masnão conseguimos fazer melhor?

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Sexta-Feira, 29 de Março de 2013 - 18:38:24 CET


Estive profundamente envolvido na convocação da manifestação de 2 de Março em Évora e 
conto estar presente em idênticas convocatórias, apartidárias e feitas a partir da base, 
sem interferências das estruturas político-partidárias que, em geral, mantêm um apertado 
controlo sobre qualquer iniciativa a que se associem. E, como eu, ontem estiveram na rua, 
por todo o país, muitos anarquistas e antiautoritários, gente com que se pode contar. --- 
Não me reconheci na totalidade do manifesto assinado pelo grupo que convocou esta 
manifestação, a nível nacional, e que integra o autodenominado movimento “Que se Lixe a 
Troika”, mas, globalmente, concordo com o que ali está escrito. Discordo profundamente de 
que a demissão do Governo tenha lá sido colocada como objectivo desta caminhada de 
protesto. É um objectivo pequenino para tanta coisa que nos falta fazer.

O mais importante é demonstrar nas ruas que
nada está garantido aos de cima, aos do po-
der, e aos que, criticando os que lá estão,
espreitam a oportunidade de actuarem do
mesmo modo. E não é só o PS.

Dito isto, empenhei-me a fundo nesta ma-
nifestação como cidadão e como anarquista.
Outros elementos do Colectivo Libertário de
Évora posicionaram-se como muito bem
entenderam. Nos movimentos sociais cada
um está enquanto indivíduo, na plenitude das
suas características próprias, e não enquanto
militante deste ou daquele grupo. Estive de
corpo inteiro, sem ambiguidades, neste pro-
testo e estaria amanhã por várias razões. É
importante dizer não, colectivamente , ao
fartar vilanagem em que este governo de-
monstrou ser perito, na peugada do governo
de Sócrates, e que está a fazer com que a
“balança” pese cada vez mais para o lado dos
mais ricos e dos que continuam a deter e a
reforçar o seu papel de domínio sobre a soci-
edade em detrimento dos mais
fracos, dos mais pobres e dos
excluídos. O Estado e os negó-
cios (o Poder e o Capital) sem-
pre se confundiram, mas hoje a
promiscuidade é total e é preci-
so dizer na rua que estamos
fartos. Fartos deles e das suas
instituições corruptas. Fartos
deles e das suas negociatas.
Fartos de uma classe que ape-
nas se representa dizendo que
nos representa. Mas não nos
representam de modo algum.
Para além disso, no caso de
Évora (e noutros muitos locais
do país), é necessário demons-
trar também, pelo exemplo e
pela combatividade, que é possível haver
organização e mobilização à margem dos
partidos e que o monopólio da rua não per-
tence a ninguém, ao contrário do que até há
muito pouco tempo alguns pensavam.

Haver um grupo de pessoas, individual-
mente consideradas – embora se o quiserem
ser que sejam militantes deste ou daquele
partido, fiéis desta ou daquela igreja, segui-
dores desta ou daquela filosofia, leitores
deste ou daquele poeta – que se organizam e
desencadeiam acções como as de 15O, 12M,
15S ou agora 2M não é irrelevante para os
dias que estão para vir.

Em Évora a manifestação deste
sábado foi também muito participa-
da (tanto ou mais do que a de 15 de
Setembro) e emotiva e teve as ca-
racterísticas de outras regiões: os
manifestantes eram mais velhos e os
jovens eram poucos, muito menos
do que em Setembro. E isso percebe
-se: aos jovens, aos desempregados,
aos que já perderam quase tudo é
necessário acrescentar um outro
patamar de luta – e, apesar de todo o
simbolismo, de toda a força e de
toda a energia manifestada no sába-
do hoje resta quase que um amargo
de boca: é preciso mais, fazer mais,
sermos muitos é bom, mas isso não
chega...

Muitas pessoas, ontem e hoje,
passado o grande “banho” e a catar-
se colectiva, repetem o mesmo:
fomos muitos e tudo ficou na mes-
ma. Não ficou exactamente na mes-
ma, mas quase. Os políticos do PS,
PCP, BE acham que podem apro-
veitar – politicamente falando e dela
extraindo dividendos – esta mani-
festação. Eu nem nisso acredito.
Acho que da manifestação apenas
ficou esse rasto ténue de que afinal
temos força. Mas o objectivo último
da manifestação, imposto muito
pela participação do BE e do PCP
no grupo que a convocou, era quase
imbecil: a demissão do governo.
Haveria alguém que acreditasse que
o governo se iria demitir fosse qual
fosse a dimensão da manifestação?
Talvez. E, por isso, hoje este senti-
mento de muitos parecido com fra-
casso.

Mas há tanto a fazer, tantos objec-
tivos a cumprir. Esta manifestação
deveria ter-nos dado força para nos
associarmos, criarmos solidarieda-
des e redes, partilharmos a alegria
da revolta nas ruas, criarmos espa-
ços de luta e afirmação. No entanto,
tudo foi demasiado sereno, demasia-
do virado para o consenso, para as
cantigas que nos animam a alma e,
apesar delas, do seu simbolismo e
da sua força, é como se beliscásse-
mos apenas a couraça de um elefan-
te que se recusa a mudar de posição.
Será que as centenas de milhar de
pessoas que nos manifestámos, gen-
te como nós, não conseguimos fazer
melhor? Ou, como refere Gui Cas-
tro Felga,: “lutar é um verbo, não
um substantivo. Conjuga-se.” O que
falta para o conjugarmos colectiva-
mente?

frederico

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Exortação breve

Repito-o portanto a todo e qualquer revolucionário de boa vontade e de franqueza:
Separa-te dos partidos. Rompe com a tradição e o nacionalismo. Caminha o
teu caminho sem olhar se te precedem ou se te seguem. Não fiques à espera
da palavra de ordem de ninguém; aquele que ta desse seria o teu amo. Grita
o teu pensamento tal como te vem, quando te vem, nos termos que te pare-
cem justos; proclama-o nas ruas largas e sobre as altas torres. Não é bom
que o homem seja mudo; todo aquele que escuta fica desarmado bem de-
pressa. Escreve a tua reflexão com a tua própria mão, com a tua própria
ortografia; assina-a com o teu nome e atira-a aos quatro ventos. Não digas
que não és nem bastante sábio, nem bastante célebre para isso. Não mediste
tu a altura dos grandes homens do dia e julgar-te-ias, por acaso, mais peque-
no do que eles? Espalha pelos ares tudo o que tens sobre os lábios, luz ou
chama. Temos que caminhar com a tocha numa mão e o facho na outra.

Homem deserdado!, afirma-te na tua personalidade, na tua dignidade! Sobre
a tua cabeça proscrita coloca, com mão firme, o mais brilhante dos diade-
mas, aquele que trazia o homem livre no grande jardim do Éden e que lhe
arrebataram jóia a jóia. Põe-te de pé na tua própria causa, pelas ofensas que
te fizeram, para a tua reivindicação! Levanta-te por ti só, sem partido, como
se levantou o heróico caçador furtivo de Saône-et-Loire! O papel de carras-
co histórico não está feito para nós.

Ernest COEURDEROY (publicado em “O Meridional no 4/Julho 1978)


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