(pt) Anarkismo.net, Ratzinger e o paradoxo do conservadorismo - by Bruno Lima Rocha (en)

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Segunda-Feira, 4 de Março de 2013 - 14:12:11 CET


Karol Wotjyla e Joseph Ratzinger, o papa pop e seu ideólogo, um mineiro e um intelectual, 
criador e criatura do conservadorismo no Vaticano moderno. O polaco fora supremo em seu 
reino superficial, já o germânico não conseguira ser protagonista no próprio reinado. ---- 
Por mais paradoxal que possa parecer, debatemos a renúncia do Papa Bento XVI passada a 
euforia do carnaval, a maior festa do país, e por sinal, profana. Como sempre, analiso o 
ocorrido sob o prisma da base da pirâmide. No caso, a partir de duas décadas de 
convivência com agentes de pastorais leigos, padres e freis vinculados a quase moribunda 
Teologia da Libertação, versão popular do cristianismo que o ex-secretário do polonês 
Karol Wotjyla tanto combateu.

Joseph Ratzinger, possivelmente, deixa o cargo por exaustão física e desgaste mental, ao 
perceber a incompatibilidade entre a produção intelectual de alto nível e a gestão 
executiva de um Estado supranacional, com burocracia autônoma e formas de financiamento 
pouco ou nada justificáveis. Se analisarmos as relações de força por dentro da Cúria 
Romana e das congregações hoje hegemônicas, verificaremos que alas conservadoras como Opus 
Dei, Comunhão e Libertação e Legionários, brigam entre si como facções rivais sem 
distinção de projeto teológico. No alto da pirâmide do apostolado romano, as relações 
entre fé e dinheiro são no mínimo promíscuas. Esta afirmação comprova-se com o império 
imobiliário denunciado pelo The Guardian e antes a falência fraudulenta do Banco 
Ambrosiano. Em sua base, o conservadorismo católico afasta-se do dia a dia das pessoas 
comuns, reforçando a predileção pelo rito e disputando o rebanho com outras instituições 
religiosas de conversão massiva.

No Brasil, podemos fazer uma comparação nada esdrúxula. Qual seria a diferença substantiva 
entre um pastor neopentecostal fazendo pregação conservadora em um horário pago de TV e um 
padre ou bispo, realizando as mesmas pregações em um canal próprio? Talvez, a única 
distinção seja a da responsabilidade, pois para ser ordenado padre é preciso no mínimo 
oito anos de estudo, equivalente a dois cursos de nível superior. Vivemos na plenitude da 
hipocrisia. Condena-se um pastor por sua grotesca pregação de homofobia, mas calamos 
diante de intelectuais de batina, em sua maioria filósofos e teólogos, falando exatamente 
a mesma coisa. Após servir lealmente para o avanço conservador no papado de João Paulo II, 
Ratzinger exauriu suas forças por também colher o que semeou.

O paradoxo da tristeza é ver, na América Latina, as obras de pessoas como Camilo Torres, 
Óscar Romero, Samuel Ruiz, Pedro Casáldaliga, Ignacio Ellacuría, Hélder Câmara, Paulo 
Cerioli, dentre milhares de outros religiosos, submetidos a este tipo de hierarquia eclesial.
Bruno Lima Rocha

Related Link: http://estrategiaeanalise.com.br


More information about the A-infos-pt mailing list