(pt) Do desgaste do modelo neoliberal ao ciclo de lutas - A rebelião de 2001 na Argentina [ca]

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Sexta-Feira, 20 de Janeiro de 2012 - 11:43:02 CET


Antecedentes
Os eventos conhecidos como o "Argentinazo" ocorreram durante os dias 19 e 20 de
dezembro de 2001 e foram parte de um ciclo histórico de lutas (com altos e baixos
níveis de conflito) iniciado em 1993 na província de Santiago del Estero, onde os
trabalhadores do Estado iniciaram uma greve para resistir aos processos de ajuste
aplicados a este setor pelas medidas neoliberais do governo de Menem. Essa greve,
após ser duramente reprimida, teve uma contundente resposta unificada por parte do
povo santiagueño, o qual se amotina e transborda à polícia, ataca e queima as casas
de políticos (alguns chegam a ser linchados) e as sedes dos três poderes da
província.
De dezembro de 93 a dezembro de 2001, segundo historiadores transandinos, foram
registrados um total de 7.643 focos de rebelião, sendo que a insurreição espontânea
de 2001 foi o ápice da agitação política e um acontecimento significativo na
história política da Argentina, já que rapidamente o povo a transformou em uma crise
múltipla, ou seja, de uma crise econômica a uma crise do sistema político em seu
conjunto (principalmente de legitimidade da classe política que dominava naqueles
anos), deixando somente o poder do Estado em pé, questão que veremos brevemente mais
adiante.

Ao analisar a história, é possível sustentar que aquele ciclo ascendente de lutas a
que nos referimos (1993-2001) experimentou seus altos e baixos. Por exemplo,
observando os registros de imprensa, é possível ver a estagnação das greves gerais
(uma medida de repercussões nitidamente políticas) e os bloqueios de rua (os que
ajudam a medir os níveis de conflito da classe trabalhadora desempregada) durante o
lapso compreendido entre os anos 1997 e 1999, já que, durante este período, se
convocaram 3 greves gerais (2 em 97 e 1 em 99) em comparação com as 8 declaradas
entre 1994 e 1999.

Todo este ciclo de lutas viria a se encerrar no ano 2002 com o massacre da Ponte
Pueyrredón, em que os companheiros Darío Santillán e Maximiliano Kosteky foram
baleados pela Polícia Federal Bonaerense, a qual recebeu a ordem do carniceiro
Duhalde, que atualmente - após as ocupações de terreno em Villa Soldati, em dezembro
de 2010, que resultaram na morte de 3 pessoas - é candidato presidencial e segue
agitando para que a repressão aos que lutam seja o caminho da ordem e da paz social.


"Bloqueio de rua e assembléia". A origem do movimento piquetero

É o desgaste do neoliberalismo e de suas medidas de crescimento econômico para os
ricos o que viria a engendrar o movimento piquetero e a Argentina de 2001. Mas
pontualmente, sua origem pode ser rastreada a partir do ano 1996, quando as
demissões na YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales) levaram os trabalhadores a
bloquear a rua na praça Cutral-Co e Huincul, buscando desta forma desabastecer de
insumos a produção de hidrocarbonetos e, por sua vez, cortar a distribuição e venda
do mesmo.

Em meio a este acontecimento e com a rápida massificação dessa forma de luta no país
(bloqueio de ruas) surgem os piqueteros. Movimento composto por trabalhadoras e
trabalhadores desempregados, os piqueteros articularam com outros setores do povo,
que também lutavam contra os ajustes do neoliberalismo (docentes e trabalhadores de
empresas estatais) e que, nos fins da década de 90, se transformaram no elemento
mais dinâmico da classe trabalhadora transandina.

Para conhecer detalhadamente este movimento social teríamos que dedicar mais alguns
parágrafos, mas o que nos importa aqui é mencionar que os piqueteros fazem seus dois
métodos para pautar suas reivindicações no centro das questões nacionais: o bloqueio
de rua resgatado dos Montoneros e a tomada de decisões em assembléias (meio e fim
para um processo revolucionário) pelo conjunto dos implicados nas lutas.


"Que se vayan todos, que no quede ni uno solo". Os acontecimentos do 19 e 20

A rebelião de dezembro tem seus antecedentes diretos no pacote de medidas
antipopulares (as mais recorrentes foram os aumentos de impostos, a redução de
salários e de aposentadorias) impulsionadas pelo ministro da economia para poder
pagar a grande dívida externa criada pela convertibilidade (o "um para um", ou seja,
um peso equivalia a um dólar, uma bomba relógio que necessitou de empréstimos do FMI
para se manter em pé, os quais foram aplicados com o suposto objetivo de frear o
veloz e incontrolado aumento dos preços ou hiperinflação, o que significa que o
dinheiro perde constantemente o seu valor), as quais foram enfrentadas com variadas
manifestações de descontentamento.

No dia 1 de dezembro o governo dá ordem ao Banco Central para que decrete o
"corralito", o qual nega a possibilidade de retirar dinheiro dos bancos, criando
desta forma um descontentamento nos setores médios e altos do país, derivando na
unidade do "piquete e do panelaço" nas ruas.

Enquanto o governo buscava um meio de pagar a dívida, a fome seguia crescendo, o
desemprego superou 20%, levando a incrementar as medidas de força dos piqueteros
assim como seu respectivo nível de organização nos MTDs (Movimentos de Trabalhadores
Desempregados), os quais começaram a proliferar e coordenar-se em nível nacional.

O detonador final seria o chamado do dia 13 a uma paralização geral por parte das
centrais sindicais que começou a se interligar lentamente com saques que se
prolongariam de forma ascendente até o dia 19.

O tempo se esgotava para a classe dirigente, a qual apelando à sua última medida de
força declara o Estado de Sítio, militarizando os bairros e cortando o transporte
para que os bairros periféricos e cidades do entorno de Buenos Aires não confluíssem
para as áreas centrais. A indignação e a revolta por falta de pão e trabalho
rapidamente se fez sentir com a consigna "que se vayan todos" soando por todos os
rincões da cidade de Buenos Aires e do país, o povo se apodera das ruas deixando
claro que a democracia representativa já não mais os representava. Desempregados,
classe média, os eternamente postergados, os poupadores, todos os oprimidos se
expuseram sem distinção até as quatro da madrugada exigindo a renúncia dos políticos
que exerciam cargos.

Ninguém deixava a barricada na Praça de Maio apesar da forte repressão com balas de
borracha e a chuva que em algum momento silenciou: "no se va, el pueblo no se va",
"y llueve y el pueblo no se mueve" eram as consignas que agitavam a resistência.

Ao meio-dia do dia 20, o povo novamente toma as ruas, era o momento de lutar ombro a
ombro, inclusive os que trabalhavam abandonaram seus respectivos trabalhos e se
somaram à rebelião, a solidariedade de classe se manifesta para qualquer um que se
encontrasse com problemas, a repressão se intensifica mas ninguém retrocede seus
passos.

Finalmente, após 39 mortos e 80 sequestros de pessoas, o governo desmorona e De la
Rua não tem outra saída a não ser deixar a presidência e fugir da Casa Rosada em um
helicóptero, começando assim uma maravilhosa história de resistência, organização e
luta, de ocupação de bancos, terrenos abandonados e fábricas sob autogestão
operária; um momento onde as assembléias se massificam e se estendem por todas as
partes com a participação de centenas de pessoas de forma horizontal e
participativa.


O papel dos meios de comunicação e apontamentos para um balanço

Os meios de comunicação desempenharam dois papéis fundamentais que buscavam um
objetivo comum. Por um lado como promotores da desestabilização, dando cobertura aos
saques realizados por aqueles que não tinham o que comer. Com isso se buscava
claramente demonstrar a ausência de governo, criar um medo nos setores mais
conservadores e buscar elevar as ideologias fascistas para uma possível saída
militar.

Por outro lado, buscavam o conflito entre pobres para evitar sua unidade, fazendo
correr o boato de possíveis saques nos bairros, de tal forma que as pessoas se
armaram para defender o pouco que tinham em casa (a mesma artimanha utilizada
durante o último terremoto no Chile). Ambos papéis buscavam criar um desfecho
favorável à burguesia: uma mudança de governo antecipada, com contornos
progressistas (anti-neoliberal) para deixar o poder do Estado intocável e assim
manter o seu posto de poder e privilégios.

A mudança de dirigentes buscava a imposição de um programa burguês renovado, com
características nacionais e populares para lograr uma influência no amplo campo
progressista. Um objetivo que alcançaram facilmente devido a falta de amadurecimento
das experiências do movimento operário, ausência de programa revolucionário (como e
por quê, por sua vez, reflexo do avanço real da maioria) e objetivos de longo prazo,
o que se traduz na baixa inserção das idéias de intenção revolucionária (forte
influência do peronismo e sua lógica vertical e de clientelismo) e a falta de
autonomia das iniciativas.

As próprias restrições da experiência (as quais necessitavam um balanço mais
profundo), a cooptação (mediante o clientelismo e a reivindicação dos direitos
humanos) de amplos setores do movimento popular (MTDs e Madres de Plaza de Mayo) por
parte do kirchnerismo e o terrorismo de Estado (massacre da Ponte Pueyrredón em
2002, 300 sequestros em 2003) para os setores classistas e combativos que mantiveram
a autonomia e a independência de classe para impulsionar suas reivindicações,
limitaram as possibilidades de transformação social para o povo.

Por outro lado, ainda que a burguesia soubesse manejar a seu favor o processo e
conseguiu recuperar seu lugar hegemônico, nada pode negar o que foi acumulado pelos
setores populares: as organizações da classe trabalhadora se constroem com os
valores e formas da sociedade revolucionária, ou seja, a democracia de base e a ação
direta de grandes grupos.

Os acontecimentos de 2001 nos demonstram que a dinâmica do capitalismo traz consigo
uma contínua recriação de contradições e conflitos entre trabalhadores, empresários
e o Estado. Se bem que é certo que em momentos de crise o capitalismo busca se
acomodar para que os empresários não sejam tão golpeados, este reordenamento sempre
deriva em uma nova ordem social e, portanto, traz junto dela novas formas para
encarar a luta e novas camadas de trabalhadores as enfrentam para dar o golpe final
na sociedade de classes. Por exemplo, dessa forma é que os trabalhadores vão se
deparar com a subcontratação (terceirização e outras formas atuais de contrato)
imposta pelos de cima e necessitamos impulsionar novas formas de luta que nos sejam
capazes de garantir novas conquistas.

Somente o povo organizado é capaz de conseguir um avanço de sua consciência e dessa
forma se criam as condições de elaborar um programa sustentado em sua experiência
prática, em sua história de lutas passadas e recentes. Um programa que seja capaz de
acabar com a realidade que nega a vida livre e solidária, que nos ajude a destruir
um sistema que promove e origina o pior da humanidade, ou seja, os privilégios, o
egoísmo, a injustiça social, etc.

Horacio Vergara Tello


Tradução: Daniel Augusto de Almeida Alves
Publicado originalmente no jornal chileno "Solidaridad"
http://periodico-solidaridad.blogspot.com/




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