(pt) [Espanha] Conferência anarco-feminista: 100 anos da CNT

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Sábado, 10 de Abril de 2010 - 08:28:30 CEST


"Reivindicaram a importância de não separar o problema feminino do
problema social"
[Durante todo o mês de março, em Barcelona, realizaram-se umas ambiciosas
jornadas sobre anarcofeminismo, integradas nas comemorações do CeNTenário.
Centenas de pessoas passaram pelas conferências, mesas-redondas e oficinas
para discutir aspectos tanto históricos como atuais relacionadas com as
mulheres e com o anarquismo.]
Porquê uma conferência sobre mulheres e anarquia integrada entre os
eventos da comemoração do CeNTenário?
A questão de gênero teve um espaço relevante na organização desde o
momento do seu nascimento. Foram muitas as companheiras que se envolveram
nas lutas cotidianas da nossa organização, com uma menor presença que os
homens, mas dispostas a contribuir com a sua força e conscientes do seu
papel no objetivo revolucionário. A luta dessas mulheres, para  lá da
intenção de melhorar as condições de trabalho, centrou-se sobre questões
que afetam a qualidade de vida e abrangem toda a comunidade. Foram muitas
as companheiras que compartilharam de forma anônima as greves e reflexões,
muitas vezes por trás de um pseudônimo ou identificando-se com valentia
para defender pontos de vista, muitas vezes controversos, mesmo dentro da
organização.
Perseguindo o humanismo integral que a organização ambiciona,
reivindicaram a importância de não separar o problema feminino do problema
social, embora essas mulheres não se afirmassem feministas nunca,
rejeitando assim um rótulo que as ligaria à mulher burguesa e sufragista
feminista que liderava o feminismo, à época.
Quais os objetivos pretendidos quando planejaram a organização desta
conferência?
Por um lado, quisemos contribuir para os eventos de celebração do
centenário da CNT, abordando, numa perspectiva de gênero, uma análise
estrutural da situação da mulher militante e/ou libertária, de modo que a
evolução específica das suas lutas não fique diluída e disseminada em todo
o processo.
Por outro lado, acreditamos que a conferência poderá contribuir para
aumentar o grau de visibilidade das mulheres que participam dia a dia, e
cremos que se encontraram estratégias para incentivar essa participação.
Além disso, formou-se uma plataforma para difundir as idéias libertárias
fora da CNT. Finalmente, serviu para que as pessoas que compõem esta
organização levantem e analisem questões sobre a desigualdade que ainda
hoje está presente até mesmo dentro do movimento libertário.
Uma das áreas temáticas abordava as mulheres, trabalho e sindicalismo. O
que poderia destacar sobre isso?
Ana Sigüenza, companheira, ativista e primeira mulher a fazer o trabalho
de Secretária Geral do Comitê Nacional da CNT, foi responsável pela
abertura da conferência, e fez uma interessante análise histórica da
participação das mulheres na CNT, fornecendo dados sobre a situação das
mulheres no mercado de trabalho atual, destacando a segregação por gêneros
presente desde o momento em que as jovens escolhem a sua formação. Ana
salientou a importância da análise setorial e da estrutura das seções
sindicais para promover a participação sindical e o ativismo das
trabalhadoras. Estava acompanhada por Laura Vincent, professora de
História e doutorada em História Contemporânea na Universidade de
Alicante, que afirmou que "o que somos é resultante do que nos foi legado:
o regime de Franco insistiu numa ruptura e em parte conseguiu, mas devemos
recuperar o passado para nos conhecermos, recuperar o precedente" e
ofereceu-nos uma interessante análise sobre os fundamentos do feminismo
anarquista, que, segundo afirmava, estruturava-se em três temas
principais: a educação, o trabalho e o debate sobre as relações livres.
E para lá da teoria? Que experiências foram compartilhadas pelas mulheres
que se organizam em torno das idéias libertárias?
A companheira Vanessa Ortiz, do Coletivo Juana Julia Guzmán, de Bogotá,
explicou como estão trabalhando a partir de uma perspectiva feminista e
libertária, do outro lado do mundo. Falou-nos sobre as condições sociais e
políticas tão adversas em que vive a mulher na Colômbia e de como as áreas
fortemente militarizadas afetam o livre desenvolvimento das mulheres no
país. Também explicou o trabalho que fazem tentando disseminar as idéias
através de programas de ação nos bairros. Vanessa estava acompanhada pela
companheira Miriam da coletividade de Manzanares, que revelou outra forma
aparentemente diferente de organização à volta das idéias libertárias.
Ambas salientaram a importância da formação e da responsabilidade ao mesmo
tempo em que evidenciavam as fortes resistências encontradas pelas
mulheres, na sociedade em geral e no ambiente próximo, no momento em que
decidem passar da teoria à prática no ativismo libertário.
Sobre a difusão das idéias anarquistas, arranjaram um espaço para analisar
a participação das mulheres na propagação das idéias libertárias?
Sim, através da experiência pessoal de Marilés García Maroto, companheira
do sindicato de Alcoil, jornalista e escritora, entendemos a especial
necessidade que, ao longo da história e, hoje, as mulheres têm na
propagação das idéias libertárias. Marilés explicou como tinha resolvido
dedicar-se à análise e à difusão da idéia e como tinha trabalhado na
recuperação em termos históricos do papel que companheiras tiveram nesta
área, continuando a publicar material. Atualmente trabalhando para expor a
ordem patriarcal e o machismo que nos rodeia. Naquele dia, Marilés
compartilhava a mesa com várias companheiras de diferentes projetos
editoriais que são estruturados com base nos princípios anarco-feministas,
como as companheiras do coletivo RAG da Irlanda, Herstory, Mujeres
Preokupando...
Também desfrutaram da participação de outra grande investigadora e
escritora, Martha Ackelsberg...
Sim, sim, outra das áreas das apresentações foi dedicada a Mujeres Libres
e tivemos a sorte de contar com a Martha. Ela fez uma apresentação sobre a
pesquisa que desenvolveu em torno da organização Mujeres Libres, a
experiência mais relevante em termos históricos que podemos recordar.
Novamente, ajudou a aprofundar o contexto e necessidades que propiciaram o
surgimento desta organização. A conferência foi completada pela presença
de algumas das companheiras do Congresso de Bilbao de 90 que refundaram
Mujeres Libres e que lutaram para o seu reconhecimento como uma
organização irmã da CNT e da FAI. Da mesma forma, podemos desfrutar da
experiência de companheiras que hoje trabalham num grupo, recentemente
formado, de Mujeres Libres na Extremadura. Todas contribuíram para
destacar a atualidade das premissas iniciais de Mujeres Libres: "Criar uma
expressão feminina consciente e responsável que capacite a mulher para o
ativismo".
Foi uma conferência muito completa pelo que conta. Que mais aspectos
abordaram?
Até terminar, há ainda o último fim de semana, iremos analisar a relação
discriminação de gênero, raça e classe e, finalmente, fechar a conferência
com uma apresentação sobre diversidade sexual e anarquismo, onde
participarão companheiros do coletivo pro- libertação sexual D-Gênero de
Madri. Também podemos participar em oficinas de auto-gestão da saúde,
auto-exploração e auto-defesa e projeções sobre a precariedade laboral das
mulheres.
Fonte: Jornal CNT Nº 366, abril de 2010.
Tradução > Liberdade à Solta
agência de notícias anarquistas-ana


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