(pt) [texto histórico do movimento operário brasileiro] JOSÉ OIT ICICA CONTESTA VICTOR SERGE

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Segunda-Feira, 16 de Junho de 2008 - 01:50:52 CEST


MEMÓRIA OPERÁRIA
MEMÓRIA LIBERTÁRIA
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> JOSÉ OITICICA CONTESTA VICTOR SERGE
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> Abrem-se debates em torno dos rumos da Revolução Russa, já agora do
> conhecimento público, ou pelo menos de uma grande maioria do proletariado
> e do homens de idéias.
>
> Victor Serge dirige aos anarkistas uma espécie de apelo, datado de
> Petrogrado, em 5 de junho de 1921. Entende ele que não devemos negar os
> processos bolchevistas de ditadura proletária, aferrados aos nossos
> princípios, à teoria da Revolução preconizada pelos anti-marxistas.
> Cumpre-nos, segundo ele, atender às circunstâncias e rever as idéias
> anarkista à luz da experiência russa. Pede aos anarkistas que discutam com
> calma, sem prevenções, sem dogmatismo, para que dessa discussão saia um
> novo anarquismo, para que cesse a hostilidade, por eles manifestada, ao
> bolchevismo e à Revolução Russa.
>
> Vamos analisar o folheto de Victor Serge, mas antes é importante
> esclarecer logo um ponto. Não é exato que os anarkistas sejam hostis à
> Revolução Russa. Não há, penso eu, um só verdadeiro anarkista no mundo que
> não tenha exultado com ela e ajudado, acompanhado com o máximo interesse o
> seu desenvolvimento
>
> Eis o que diz claramente Sebastian Faure, por exemplo: “Sou amigo
> fervoroso da Rússia revolucionária. Quando, em março de 1917, nos chegou a
> nova da queda do czarismo rasputiniano, foi indizível a alegria que senti.
> Enfim! Estava então por terra esse regime de sangue e lama que, sobreposto
> a Europa à Ásia, era para todo o mundo um foco de putrefação e odiosos
> centro de despotismo!”
>
> Muito menos somos hostis aos bolchevistas.
>
> Eis ainda as palavras de Faure a esses revolucionários: “ Ninguém esqueceu
> dos atos, das declarações, das medidas pelas quais eles estrearam. Essas
> medidas, atos e declarações tiveram o dom de sublevar contra eles a cólera
> e a indignação de todos os governos e da burguesia inteira e, ao
> contrário, por conseqüência lógica, receber a aprovação e incitar o
> entusiasmo dos revolucionários de todos os países.”
>
> Depois de rasgar os maiores elogios à organização política soviética
> prossegue ele: “Concebe-se que furor desencadearam, nos meios burgueses,
> na imprensa e nas esferas governamentais de todos os países, declarações
> tão categóricas, medidas tão revolucionárias e a noticia de um governo
> assim constituído. Compreende-se também que entusiasmos e esperanças
> provocaram no coração dos revolucionários de todas as nações. Não era,
> convenhamos, a realização completa e imediata do ideal anarkista; mas
> seria possível franquear de um salto o abismo que separa a sociedade
> burguesa da sociedade comunista libertária? Todavia era a porta aberta a
> todas as possibilidades de  futuro; era, no coração do continente europeu
> e do continente asiático, o capitalismo vencido num país imenso de 130
> milhões de habitantes; era o exemplo precedente e chamando as imitações;
> era o ponto de partida de uma série incalculável de programas garantidos;
> era, na noite, e que facho! Era no silêncio u a voz e que voz!”
>
> De toda parte vejo os mesmo aplausos, a mesma admiração. Eu próprio a
> tenho defendido e a defendo com calor a meus camaradas do Brasil, embora
> condenando os processos bolchevistas, compreendem que passo extraordinário
> compreendem que passo extraordinário e que profundo exemplo foi para a
> humanidade a queda do czarismo em nome do comunismo.
>
> Não há, pois, hostilidade dos anarkistas à Revolução Russa . Os anarkistas
> apóiam qualquer movimento revolucionário. Vê com bons olhos mesmo as
> revoluções meramente políticas, por que estas servem de lições à
> propaganda e desmoralizam o regime burguês.
>
> O que os anarkistas condenam sã certos princípios bolchevistas e certas
> práticas contraproducentes, irrevolucionárias, perigosíssimas para a
> própria Revolução.
>
> Tudo quanto aqui afirmo é fácil comprovar, sem me valer, muito de
> propósitos, de outra fonte que não seja o próprio Victor Serge no seu
> opúsculo: ‘Les Anarchistes et l’Experience de la Revolution Russe’.
>
> Convêm, ademais,  assinalar, de ante-mão, uma incoerência fundamental de
> Victor Serge. Ele pretende necessária a criação de um novo anarquismo (pg.
> 3) e, entretanto, intitula o capítulo XI do seu folheto: ‘As Grandes
> Confirmações do Anarquismo’. Nesse capítulo mostra que ao fazer-se um
> balanço final da Revolução Russa “certas conclusões familiares ao
> anarkismo se imporão desde logo a todos os espíritos críticos...”. Quais
> são essas conclusões?
>
> Duas essenciais: 1ª - Nocividade temível da ‘autoridade’; 2ª - Nocividade
> do estatismo e da centralização autoritária.
>
> As demais conclusões caras ao anarkismo são conseqüências dessas. Victor
> Serge* não assinala outras conclusões também importantíssimas,
> confirmativas do anarkismo anterior à Revolução, conseqüências lamentáveis
> previstas por nós, anarkistas, e ameaçadoras da própria Revolução Russa.
>
> Ora, se as conclusões tiradas da experiência russa vêm confirmar as
> doutrinas do velho anarkismo, perguntarei a Victor Serge: para que diabo
> havemos de inventar um novo? Este neo-anarquismo seria evidentemente
> calcado o velho anarkismo, segue-se que o novo seria igual ao velho.
>
> Ergo, nós não temos de modificar em coisa alguma as doutrinas assentadas.
>
> Podemos completá-las, discuti-las mais e alicerçá-las com fatos novos.
>
> Modificá-las não! Mormente quando a Revolução Russa as confirmam in totum.
>
>
> Professor José Oiticica
>
> * Victor serge, depois da more de Lênin, foi preso, deportado e precisou
> exilar-se no México, onde faleceu. É muito elucidativo seu livro de
> memórias escrito e publicado no México.
>
> _______________________________________________
> (Texto extraído do livro “UM SÉCULO DE HISTÓRIA POLÍTCO-SOCIAL EM
> DOCUMENTOS”, Vol. II, de Edgar Rodrigues, 2007)
>
> O COLETIVO LIBERTÁRIO
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