(pt) «A BATALHA» N. 221 - Visto da parvónia

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Domingo, 11 de Março de 2007 - 10:47:57 CET


Júlio Palma

A grande tramóia
Há coisas que só lidas, porque vistas pode-se pensar que se está com
alucinações. Quem viu, se é que alguém viu, o trabalho de alguns
executivos em Islamabade, em Estocolmo ou em Milão, certamente nunca supôs
que se tratava de agentes da CIA à caça de presumíveis suspeitos não se
sabe bem de quê. Leu-se depois que os enfiaram no «Expresso de Guantánamo»
(uma aeronave que tem autonomia para fazer Washington-Cabul em 12 horas
sem paragens) e que os entregaram em diferentes cidades europeias ou
africanas a especialistas de tortura, até que eles confessassem, se é que
confessavam, não se sabe bem o quê. E também se leu que a tal aeronave
fazia escala no Porto.
E é aqui que não se acredita. Como é que o governo em Lisboa, que é tão
autoritário e fica tão cheio de nervoso miudinho quando os militares se
passeiam pela Baixa, fardados ou à paisana, descobrindo logo quem é que
tem de ser punido com detenção, não consegue atinar com as profissões dos
passageiros do «Expresso de Guantánamo» que aterrou no Porto? Será que há
aí manigância?
Se calhar até era mais fácil dizer que não queriam dar informações, porque
amanhã até se pode descobrir e ler nos jornais. E depois vai haver alguém
(pode ser uma multidão) que chamará ao governo aldrabilhas com todas as
letras e com todas as sílabas bem pronunciadas. E no plural.

A queda dum anjolas
O futebol não é apenas um jogo de onze contra onze. Há também muito
dinheiro em jogo. E multidões. E uma psicologia das multidões. E agora
parece que também uns acessórios. Pelo menos a avaliar por aquilo que
lemos nos jornais sobre um livro que ainda não lemos mas que parece que é
já um bestseller – Eu, Carolina.
Até apetece cantar:
Os dedos da Carolina
Tocaram num dragão dormente.
Tem cuidado Carolina
Que o dragão ferra-te o dente.

Mas parece que o livro trata da bola fora dos estádios. Contudo, até
podemos imaginar a coisa dentro das quatro linhas. Por exemplo, pomos a
Carolina a libero. O avançado Jorge Nuno tenta por todos os meios entrar
na área. Mas depara-se-lhe sempre o autocarro estacionado em cima da linha
limite da grande área. Até que descobre que uma porta está entreaberta.
Força, a porta fecha-se, ele tenta a janela, mas fica preso. O árbitro sem
hesitação e sem medo assinala a marca de grande penalidade. Confusão
instalada e jogo interrompido.
Pode-se também optar por colocar Carolina a defesa-central. Há um
cruzamento da direita. Jorge Nuno está perto da meia lua, de costas para a
baliza. Carolina marca por trás, de braços abertos e calcanhares
afastados, tentando fazer barreira. Jorge Nuno, num pontapé espectacular,
à chilena, como se dizia no Chile, ou de chalaca, como se dizia no Peru,
envia a bola para a baliza. Mas cai mal e bate com a nuca entre os
calcanhares de Carolina, que apesar do frio joga à inglesa, sem collants.
O avançado Jorge Nuno, meio atordoado, de olhos muito abertos, parece
sonhar: Onde é que eu estou? Será que estou no Brasil? Em que estado? Mato
Grosso? Pernambuco? Em que cidade? Belo Horizonte?
O árbitro, ao vê-lo neste estado, manda entrar a equipa médica. Jogo
interrompido. Mais sururu.
Jorge Nuno não recupera, vai para o hospital onde fica internado. E
enquanto o tempo passa vai ouvindo na Antena 1 os golos do FC Porto e nos
intervais aproveita para ler algumas páginas d’A Morgadinha dos Canaviais.
Claro que nada disto vem no Eu, Carolina, que nós não lemos. Mas se se
pretende que o livro é uma acusação ao «homem do Norte», convinha
verificar quantas vezes é que lá aparece a locução verbal pensar de que ou
a expressão aqui, na capital do Império. Porque se essas expressões não
aparecem, então o homem está salvo, não é ele, é um sósia.

A «cooperação estratégica»
Já se sabia que o Presidente Silva tinha limitações no que diz respeito à
análise concreta da situação concreta. A mensagem de ano novo mostra que
tem tendência para piorar. Como é que se pode exigir resultados palpáveis
nos campos do crescimento económico, da educação e da justiça, a um
governo que já deu manifestas provas de que não sabe lidar com isto? E
ainda por cima resultados do estilo rapidamente e em força logo em 2007?
Mas não leu nos jornais o que se disse sobre o orçamento deste governo? O
problema da educação e do ensino tem soluções complexas e sempre
transitórias. E sempre uma década ou duas mais tarde... Quem é que estava
lá em 1985-1995? Então? Claro que agora nos dizem que é passo a passo. Mas
não nos dizem que é a passo de caranguejo. (Também podia ser passo a passo
marcando passo ou então passo a passo em passo de ganso.) Talvez seja por
isso que o Presidente Silva diz que chegámos atrasados à Índia. Então não
fomos nós que descobrimos o caminho marítimo para lá há mais de cinco
séculos? Ou será que querem reduzir o processo histórico a uma taxa de
inflação e a uma taxa de juro? Quem é que não soube ler a tendência em
1992? Será que «cooperação estratégica» quer dizer «a desmemoriação
continua»?

As respostas de Luandino
Luandino Vieira, que recusou o Prémio Camões, deu uma entrevista a
Alexandra Lucas Coelho publicada no «Mil Folhas», suplemento do Público de
15-12-2006.
A conversa tem quatro páginas, mas vale a pena realçar cinco perguntas e
cinco respostas.
«Qual é o regime em que acredita?
Não acredito em nenhum. (...)
O regime democrático é o ideal?
Não é um regime ideal. (...)
Dê-me exemplo de um grande estadista.
Nelson Mandela.
E depois?
Depois... acho que o Che não devia ter feito a última parte da vida.
A última parte começa onde?
Quando aceitou ser ministro.»
Era bom que os Angolanos (e não só eles) meditassem nestas respostas de
Luandino, porque elas indicam que há outro mundo a descobrir.






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