(pt) «A Batalha» N. 218: COMO CONHECI EMÍDIO SANTANA

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Quinta-Feira, 14 de Setembro de 2006 - 14:58:13 CEST


Por Fernando J.Almeida
 “Para além da Ruptura, só a Utopia pode
sugerir um mundo humano e harmónico”
Emídio Santana, in “Memórias de um
Militante Anarco-Sindicalista

Não sei, não posso, nem devo ser eu a escrever uma biografia, mesmo que
sucinta, de Emídio Santana, de que agora se cumpre o centenário do seu
nascimento, em 4 de Julho de 1906. Se tal o fizesse, penso que seria uma
tarefa intelectualmente pouco honesta, pois limitar-se-ia a recolher
elementos de livros autobiográficos, como “História de um Atentado”
(1976), “Memórias de um Militante Anarco-Sindicalista” (1985) e “Onde o
Homem acaba e a Maldição começa” (1989) ou a compilar declarações do nosso
companheiro, em entrevistas concedidas a várias publicações (“Análise
Social”, “Manifesto”, por exemplo).
Penso que a tarefa de biografar Emídio Santana deverá competir aos seus
companheiros de sempre, como o João Freire ou o Hipólito dos Santos, visto
que muitos outros, tão ou mais habilitados para o fazer, já não se
encontram, pelas leis da Vida e da Morte, entre nós.

Aquilo que eu poderei dizer do Santana, talvez peque por soar, um pouco, a
lugar-comum: que era um ser afável e modesto, tolerante e bem-humorado,
vertical e persistente. Estas são, no entanto, opiniões partilhadas pelo
malogrado historiador do Movimento Operário César de Oliveira, que o
considerava um “homem íntegro e de grande verticalidade” (Os Anos
Decisivos”, 1993) ou pelo antigo dirigente do Partido Revolucionário do
Proletariado (PRP), Pedro Goulart, que “admirava a dureza e a persistência
da sua luta” (“Resistência”, 2002).
A primeira vez que vi e ouvi falar Emídio Santana foi durante a Campanha
Eleitoral de 1969, numa sessão de esclarecimento promovida pela CDE
(Comissão Democrática Eleitoral), no Palácio Fronteira, propriedade de um
singular aristocrata antifascista e companheiro de jornada da Oposição de
Esquerda. Santana era um dos oradores, ao lado de António Galhordas e José
Manuel Tengarrinha. Naquela sessão, fiquei a saber que os
anarco-sindicalistas ainda existiam e que alguns deles estavam ligados à
Associação dos Inquilinos Lisbonenses (AIL). Também fiquei a saber que
havia mais vida para além do Marxismo


Nos anos 60 do século XX, as minhas referências ideológicas pouco
ultrapassavam o marxismo ortodoxo, quer de signo soviético quer chinês.
Devo a César Oliveira a “descoberta” do Anarquismo ou de outros marxismos
(Rosa Luxemburgo, Kollontai).
O “boom” editorial despoletado pelo Maio de 68 e a relativa abertura da
“primavera” marcelista deram-me a conhecer o rico e variado leque de
opções ideológicas revolucionárias, fora dos limites estreitos do
Leninismo: Situacionismo, Conselhismo Operário, Trotskismo, marxismo
heterodoxo (Bordiga, Gramsci, Guérin) e os múltiplos cambiantes das ideias
libertárias. Naquele tempo, eu lia, semi-clandestinamente, as edições
“Spartacus” ou “Socialismo ou Barbarie”, e trazia a bagagem repleta de
livros “subversivos”, adquiridos em Paris, Madrid, Barcelona


Sempre não-alinhado, como o sou hoje, vagueei pela Esquerda lusitana,
convivendo com maoistas, comunistas ortodoxos, guevaristas, trotskistas,
mas sem “descobrir” anarco-sindicalistas ou afins. Conhecia a História do
sindicalismo revolucionário português, pelas leituras de livros sobre a I
República, embora com a óptica preconceituosa de historiadores liberais,
sociais-democratas ou marxistas. Só, e novamente, César Oliveira, apesar
de marxista, me deu uma perspectiva correcta do que foi a acção do
Anarco-Sindicalismo em Portugal. Mais tarde, ampliaria os meus
conhecimentos, ao fugir às peculiares interpretações, de feroz
anti-anarquismo, dos órfãos de Stalin.

Depois do 25 de Abril, foi tornado público o endereço do Movimento
Libertário Português (MLP). Para aí me dirigi, e constatei que era o mesmo
endereço da AIL. Tornei-me assinante de “A Batalha”, e passei a frequentar
a sede da R.Angelina Vidal, embora estivesse filiado num partido político,
o PRP, onde integrava a a Redacção do “Revolução”, porta-voz daquele
partido. Foi, pois, na Angelina Vidal, que melhor conheci Emídio Santana e
outros companheiros, alguns deles já desaparecidos do nosso convívio.
Após o 25 de Novembro, desliguei-me da luta partidária e aproximei-me,
ainda mais, dos libertários, tornando-me redactor de “A Batalha”, a
convite do Santana. Nos anos em que vesti a pele de “jornalista
libertário” (1978-1981), convivi de perto com Emídio Santana e com os seus
anseios de construção de uma organização específica e respectiva formação
de grupos de afinidade. Foi quando conheci melhor o Moisés, o Matos, o
Machadinho, o Alberto, o Eurico
 A minha passagem por organizações
unitárias levou-me a cooptar Emídio Santana para se juntar a uma Comissão
de Apoio aos Presos do PRP, onde interveio numa sessão na “Voz do
Operário”, lado a lado com Otelo Saraiva de Carvalho e outros (1979).

A minha pouco consistente militância (questão de feitio
) extinguiu-se,
quando “A Batalha” saiu da Avenida Álvares Cabral. Pode dizer-se que o CEL
e o nosso jornal me “perseguiram”: quando a sede estava na Angelina Vidal,
eu trabalhava na vizinha R.Damasceno Monteiro; quando foi para a Álvares
Cabral, eu vivia (como vivo) no próximo bairro de campo de Ourique e
trabalhava na Lapa, ainda mais perto da sede. A saída da Álvares Cabral
fez-me perder o contacto com os Libertários e com a própria “A Batalha”.
Um dia, deparei-me com a triste notícia da morte de Emídio Santana,
quando, finalmente, eu encontrei “A Batalha”, num quiosque da Baixa
lisboeta. Decorria o ano de 1988, o Santana tinha falecido em 16 de
Outubro.
Foi como uma homenagem póstuma ao velho amigo e companheiro que regressei
à colaboração com o nosso jornal, nos princípios dos anos 90; para
regressar, de novo, ao isolamento (discordei da orientação do então corpo
redactorial
) Em 1997, qual filho pródigo, regressei para, até à presente
data, não deixar de escrever, com a regularidade possível, n’ “A Batalha”
que, na sua segunda existência legal, é o produto da incansável militância
do nosso inesquecível companheiro Emídio Santana, nascido em Lisboa, há
cem anos atrás.





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