(pt) "Se a esquerda internacional é solidária com o povo de Cuba, ela deve repudiar a ditadura " [fr]

a-infos-pt ainfos.ca a-infos-pt ainfos.ca
Sábado, 12 de Agosto de 2006 - 01:30:04 CEST


de   avoixautre  no-log.org    (traduzido por M. B. para «A-Infos»)

Fidel hospitalizado. O pós Castro. Entrevista com Canek Guevara
A 31 de Julho, na sequência de uma operação aos intestinos, o Presidente
cubano Fidel Castro transmitiu «provisoriamente» os seus poderes a seu
irmão, Raul. Pela primeira vez em 48 anos de ditadura, Fidel cede o poder
durante várias semanas, pelo menos. Isto dá ocasião para regressar ao mito
de Cuba, com Canek, o neto do Che Guevara, membro do Movimento Libertário
Cubano. Nesta entrevista, Canek Guevara aborda, entre outros assuntos, o
que devem ser as preocupações dos anarquistas de Cuba.
De charuto cubano na mão, com a barba mal implantada, cabelo castanho e de
estatura alta,  Canek é neto de  Che Guevara, filho de Hildita Guevara, a
primeira filha do guerrilheiro argentino e cubano. Reside hoje em dia no
México, fazendo parte dos «filhos rebeldes da revolução», sendo membro do
MLC (Movimento Libertário Cubano).

Nesta entrevista, exprime o seu ponto de vista sobre Fidel Castro, o
«Velho», sobre a revolução cubana, e sobre a rejeição que esta lhe
suscita. O seu testemunho põe em evidência a sua necessidade de romper com
os mitos da revolução, os quais embalaram a sua infância e adolescência.
Para Canek, a revolução cubana não passa de um vulgar capitalismo de
Estado. Ela pariu uma burguesia de Estado, que se serve hoje em dia dos
órgãos repressivos de uma ditadura para manter os seus privilégios.  A
revolução foi abafada pela burocracia, pela corrupção, pelo nepotismo e
pelo domínio hierárquico.
Canek descreve-nos o que é a criminalização da diferença em Cuba, as
perseguições contra aqueles que recusam a cultura oficial e preferem viver
à margem da sociedade : homossexuais, punks, livres-pensadores,
sindicalistas, poetas, etc.

Este anarquista heterodoxo tem uma visão muito pessoal do papel que devem
desempenhar os libertários para conseguirem libertar Cuba da burguesia
socialista.  Temos de compreender o seu realismo e a necessidade que ele
sente de romper com certos esquemas libertários, tão pouco apropriados
para uma transformação social na grande ilha das Caraíbas.

As suas opiniões, o seu relato sobre o que é uma educação cubana, o seu
olhar  fixado sobre o passado da sua existência em Cuba, onde se realizou
uma parte do destino da sua família, fazem que esta entrevista seja um
testemunho único permitindo-nos colocar definitivamente o mito de Fidel
Castro e de revolução tropical no caixote de lixo da História.
ENTREVISTA | "O socialismo deve assemelhar-se a um organismo vivo"

- Porque vives tu hoje no México ?

C.G: O meu pai é mexicano, a minha mãe também o era. Frequentei a escola
primária no México. A partir do momento em que senti necessidade de deixar
Cuba, a primeira opção para viver fora a ilha, foi o México. Por razões
administrativas essencialmente, visto que possuo documentação de
identidade mexicana e não precisava de fazer pedidos de autorização de
residência, nem de autorização laboral.
Queria comparar tudo o que estudei em Cuba com a realidade mexicana, reler
a História cubana. Não a História oficial que me tinham ensinado. Tinha
necessidade de ler um grande número de coisas proibidas na ilha.
Necessitava de uma participação que não pude ter em Cuba, onde se negam os
cidadãos. Quanto mais não seja ao nível do 	quotidiano, sem falar da
participação nos grandes acontecimentos, nas grandes discussões
transcendentais, nos grandes projectos, o exercício da cidadania é a
primeira c coisa interdita em Cuba. Fui então atacado por alguns sectores
de esquerda pelas minhas tomadas de posição em relação à ilha. Estas
pessoas pensam que se tu não estás com a revolução cubana, estás contra
ela.
De qualquer maneira, não era a indisponibilidade à crítica por arte das
pessoas de esquerda que me metia medo. Mas precisava de pensar de outro
modo, de participar no debate sem passar por ser um homem de direita.
Queria que as coisas fossem claras, o que não é fácil para esta esquerda
muito fechada. Quando saí de Cuba, não conseguia situar-me. Vivia uma
rejeição visceral e total


- Nesta entrevista, referes-te ao teu avô Ernesto Guevara de la Sema. Hoje
em dia, o que é que ele representa para ti, agora que ele se tornou num
mito ?

C.G.: Esta imagem do revolucionário puro, sem mácula, que é reproduzida na
esquerda, é uma simplificação. Tal como é grotesco dizer que era um
criminoso internacional, como o fazem os anticomunistas radicais. O Che
era muito mais do que isso era um homem que se dedicou plenamente às
ideias que defendia, numa espécie de investigação pessoal.  Tenho
admiração por ele, mesmo se tenho um profundo desacordo em relação às suas
ideias sobre os «focos revolucionários» e sobre o «homem novo» [1], mas eu
só posso julgá-las a partir da perspectiva actual.  Se alguém chega hoje e
diz-me : «Vamos criar ma guerrilha e fazer a revolução», eu mando-o
passear. A sua experiência na Bolívia mostrou infelizmente ao Che que não
chegava criar um «foco revolucionário» para que a revolução aconteça. Eu
sou guevarista, porque o Ernesto Guevara era um homem que respeitava os
seus compromissos. Cometeu erros ao dar o seu apoio a uma revolução que se
transformou em ditadura. Não posso renegar o Che Guevara devido ao facto
de que não partilho todas as suas ideias. Também não desejo parecer-me com
ele. Isto lembra-me a maneira como se doutrinava as crianças, com slogans
em Cuba : « Pioneiros pelo comunismo ! Seremos como o Che!»
Não penso em Ernesto Guevara como sendo meu avô. Eu  leio-o como leio Marx
ou Bakunin ou outra personagem histórica qualquer.  Tem ideias geniais e
outras que são absurdas, pretensiosas e patéticas.  Não o conheci, nasci
sete anos depois do seu assassinato. A minha mãe contava-me alguns
episódios de sua infância que fazem com que um laço familiar profundo se
atou. Nessa época cresci em contacto com pessoas que admiravam
profundamente o Che.

- Imagino que, na medida em que eras o neto do Che, durante todos os anos
que viveste em Cuba, foram muito exigentes contigo.

C.G. : Tinha 12 anos quando voltei para Cuba. O meu pai era perseguido no
México, então viemos para a Europa. Durante todo esse período eu não era o
neto do Che. Não se devia saber que tínhamos laços familiares com os
Guevara. Era uma criança como as outras, mesmo se estávamos em situação
ilegal. No momento do meu regresso a Cuba, ao entrar na escola secundária,
converti-me em neto do Che. Sem o saber tinha pertencido a uma espécie de
aristocracia revolucionária, a uma burguesia socialista que já existia
então, e com a qual nunca simpatizei. Ia à escola do meu bairro, não à dos
filhos «bem». Mas havia uma exigência particular dos professores em
relação a mim. Devia portar-me bem, devia dar o exemplo, mas eu fui sempre
rebelde, não se pode impor nada a mim, senão aço exactamente o oposto. O
meu percurso liceal foi um desastre, eu devia ser o melhor e era o pior
dos alunos.

- Li, num dos teus relatos, que recusaste e entrar numa academia militar,
em Cuba.

C.G. : É verdade. Logo que acabei o último ano do secundário, tipos da
academia militar Camilo-Cienfuegos convidaram-me a fazer parte deste
centro educativo. Em Cuba, vivíamos com o estatuto de estrangeiros.
Disse-lhe: «sou mexicano e não pode haver estrangeiros nas instituições
político-militares cubanas, então não posso pertencer a essa academia».
Eles responderam-me que não havia problema nenhum, que tudo estava tratado
ao mais alto nível, então eu respondi não, muito obrigado. De qualquer
maneira, nunca pertenci à União das juventudes comunistas, nem a qualquer
outra organização oficial.

- Parece que a tua vide esteve mais ligada ao mundo da cultura que ao da
política. Tu pertenceste em Cuba, a um grupo que vivia á margem da vida
cultural oficial. Como é que viveste esta experiência ?

C.G. : Fiz parte do universo cultural punk, marginal dos bairros mal
afamados. Sentia-me mais à vontade neste meio que no seio da nomenclatura.
Mas isso não quer dizer que a política não me interessasse. Infelizmente,
em Cuba, a política é assunto do Estado. Nas ditaduras a política é
assunto dos governos, e não deve implicar as gentes.
- Nos países do Leste europeu, a nomenclatura tomou conta – após a queda
do muro de Berlim - dos comandos económicos. Isso é um cenário possível em
Cuba ?

C.G. : A nomenclatura controla as empresas mistas, meio-capitalistas,
meio-«socialistas». O poder não instala aos comandos as pessoas mais
competentes para dirigir as empresas, mas as incondicionais apoiantes do
regime.  Além disso, as máfias controlam o mercado negro desde há
decénios, e isto só é possível com a tolerância e competência de gente
pertencendo ao aparelho de Estado.  É destes meios que irão sair os
grandes capitães de indústria e os grandes homens políticos de amanhã.  É
evidente que no próprio seio do Partido Comunista vai haver uma guerra
pelos despojos, pelo trono, pelo poder.  Raul Castro não poderá exercer o
poder [2]. Não tem dimensão política nem apoio em Cuba. Ele é totalmente
desconsiderado, nem sequer é temido, é simplesmente desprezo. Nada lhe
tirará a sua imagem de bêbado. E no entanto, estamos a falar de uma
sociedade onde o rum se bebe ao mesmo ritmo que a água.

As pessoas que hoje em dia aplaudem Fidel, vão romper com isso tudo.
Quando se acabar o constrangimento da obediência absoluta, a sociedade vai
mudar. O cubano é um falador, não gosta de ficar mudo, tem de opinar sobre
tudo.  Se ele não fala sobre política é porque não o deixam. Uma das
minhas grandes inquietações é que após o processo de ideologização
forçado, se produza o efeito inverso ao que é desejado hoje pelo poder,
que ninguém mais queira ouvir falar de coisas relativas às ideologias. Os
jovens não querem mais saber nada sobre o comunismo, o socialismo , o
anarquismo, nem outro «ismo» qualquer. É uma rejeição víscera das ideias. 
Na realidade quotidiana de Cuba, pode-se constatar que algumas destas
ideias se transformaram em mentiras.  Estas ideias, não dão entrada nas
pessoas pela cabeça, mas pelo cu ; a toda puta de hora, na escola, no
trabalho, na TV e na rádio.

é aqui que se situa o principal perigo para uma sociedade pós-castrista :
que exista um perigo ideológico que será imediatamente ocupado pelo
capitalismo selvagem. Dadas as carências materiais de que sofre o povo
cubano, quando os produtos americanos puderem entrar livremente na ilha e
que os cubanos poderão ter acesso livremente a estas, ninguém se irá
ocupar de política. Os cubanos vão alimentar-se, fazer obras nas suas
casas e tentarão possuir tudo o que lhes faltou durante quarenta anos. Há
um perigo de apatia que pode favorecer uma viragem à direita. A direita
triunfa quando não existe participação dos cidadãos? Se não for praticada,
a democracia cessa de existir.

- Que preocupações principais devem ter os anarquistas em Cuba ?

C.G. : Em Cuba, há anarquistas, mas não há anarquismo [3]. Os anarquistas
não podem editar um jornal, nem ter uma estação de rádio. Não podem sequer
dizer em voz alta que são anarquistas.  A primeira prioridade será a de
fazer subir o mais possível o nível de vida dos cubanos. É preciso
reconstruir as instituições que têm, apesar de tudo, de continuar a
existir e que estão hoje em ruínas: o sistema educativo, a saúde, os
órgãos próprios do «poder popular» [4], esta organização assembleária que
no papel é uma organização horizontal mas que na prática é de uma
verticalidade total.

Parece-me que um dos pontos fundamentais é a apropriação cidadã do
anarquismo. Não pode ser uma coisa sectária e de tipo vanguardista.  Isto
quer dizer continuar a luta para não permitir que os políticos
profissionais confisquem o exercício do poder, sem perder de vista os
objectivos que temos no longo prazo, estes ideais que termos no longo
termo, que nos fazem caminhar em direcção a um ideal. Devemos investir-nos
nas lutas que os diferentes sectores da sociedade travam: as associações
de bairro, as associações ecologistas, etc. Não ambicionamos o poder, mas
devemos minar o corpo social até às suas fundações. Devemos participar em
todas as batalhas pela igualdade, a democracia, o respeito. Na medida em
que existam anarquistas que intervenham na sociedade, as ideias acratas
serão difundidas.  Se nós não nos desfizermos dos últimos vestígios do
sectarismo libertário, continuaremos a estar condenados à Seia, à minoria

 Trata-se de insistir na via por nós escolhida desde os últimos decénios.
Desde que o anarquismo abandonou os métodos violentos.
.
Hoje, Cuba está arruinada do ponto de vista económico, mas também ao nível
ético. A miséria é muito importante, há uma grande fractura social, com
diferenças abissais, às vezes mais violentas que nas sociedades
capitalistas, a única diferença é que em Cuba, supostamente, «está-se a
construir uma sociedade sem classes». Para os anarquistas cubanos, na
época pós-Fidel, o único caminho será o de participar na reconstrução da
sociedade civil, na reconstrução do Estado. Afirmo isto sem fetichismo
porque é claro que uma certa forma de Estado se irá substituir ao Estado
actual. Nós, os anarquistas, devemos participar na discussão acerca de
qual Estado nos convém a nós todos.  Isto implica a aceitação momentânea
do capitalismo enquanto modo futuro de desenvolvimento. A nossa obrigação
é de o colocar em postura de acusado, aproveitar ao máximo, pressioná-lo,
«explorá-lo». Isto é fundamental, é preciso destruir o sistema baseado
sobre a repetição, sobre o embrutecimento, sobre o enfado
.

- Qual é a tua posição relativamente à esquerda cubana e latino americana
em geral. Como de situas neste movimento de oposição ?
C.G. : existe também uma esquerda cidadã e civil, que não está ligada a
nenhum partido.  A esquerda, por infelicidade, está carregada de rituais,
de hierarquias e de discursos extravagantes, que apenas são aparências,
mas que corrompem o fundo. Uma subversão que reproduz dentro de si própria
as formas do poder estabelecido, jamais será totalmente subversiva. Por
deformação cultural, sou melhor diletante do que bom militante. Não sou de
qualquer partido. Situo-me na esquerda crítica da esquerda. Um movimento
de indivíduos de esquerda está a desenvolver-se hoje em dia. Conseguem
investir-se nas organizações ecologistas, estudantis, culturais, de
bairro, cidadãs no sentido mais lato do termo, têm uma incidência sobre
pequenas coisas da vida local. As pessoas já não querem um futuro, os
amanhãs que cantam, o comunismo etc. O que interessa as pessoas, é a
solução do problemas do momento e a esquerda deve trabalhar nisso, se quer
ter uma incidência sobre esta abstracção que são «as pessoas». São os
cidadãos que irão resolver os seus problemas. A única maneira de limitar
os poderes do Estado, é de não fazer apelo a ele. Nós devemos insistir, é
aí que se encontram os germes da autogestão, da autonomia, do
auto-governo, mesmo se isso tudo está no estádio embrionário.
- Militas no Movimento Libertário Cubano [5]
(www.movimentolibertariocubano.org)... Que projectos tendes?

C.G. : É um movimento que se situa numa prática anticonstitucional, que
não pretende alcançar o poder político, mas ter influência, com um certo
número de ideais e um certo número de soluções que são praticáveis
Neste
momento, estamos na fase de difusão das nossas ideias e também de
desenvolvimento de contactos com diversos sectores em Cuba e no exterior.
O objectivo é fazer ruir o mito do regime cubano e de tomarmos posição
face a um público politizado. Em Cuba, não existe apenas uma dissidência
de direita, como se quer fazer crer. Infelizmente muitos sectores da
esquerda internacional crêem nesta ideia.  Toda essa merda que se despeja:
«todos os dissidentes cubanos são pagos pela CIA e pelo governo dos
Estados Unidos», tudo isso é uma mentira chapada. Claro que existem grupos
ligados à direita americana, mas não é o caso de toda a oposição. A
prioridade é de retirar o  apoio da esquerda latino americana ao regime
cubano e de amplifica a discussão.

Penso que sou um dos membros mais jovens do MLC e um dos últimos a ter
deixado Cuba, há quase dez anos. Alguns companheiros partiram desde 1959
ou 1960 e Cuba mudou definitivamente para eles. Eles viveram o início do
socialismo, eu conheci o seu fim
 hoje, em Cuba, existe um estranho regime
híbrido, que se nutre das piores coisas deste mundo. A exploração
capitalista e a ditadura própria do socialismo messiânico e autocrático
cubano, uma dupla exploração, ao fim e ao cabo. Como explicar a este povo
que isso não é o socialismo, como explicar que o socialismo é uma coisa
melhor do que isso ? As palavras foram corrompidas. Hoje, em Cuba,
socialismo ou comunismo evocam a ditadura e a anarquia evoca o terrorismo
e o caos ou, no melhor dos casos, uma causa de uns adolescentes
revoltados. Por isso é que desenvolver contactos na ilha é uma prioridade
e é uma das coisas mais difíceis. Há muitos controlos e por consequência
muito medo, em Cuba. Qualquer pessoa que se atreve a escrever umas linhas
sobre a situação cubana leva com vinte anos de prisão. Não se trata de
procurar mártires, nem nada do género. A isto devemos adicionar as
restrições ao nível das comunicações e estás perante uma realidade muito
difícil.

O capitalismo já existe em Cuba, está à espera do sinal verde para se
lançar à conquista do poder, do mesmo modo que a direita e todas as outras
correntes políticas estão prontas
Actualmente, deve-se insistir no facto
de que Cuba é um país como os outros e que os cidadãos cubanos têm
necessidades similares às dos cidadãos de outros países. Toda essa
história que o «Velho» inventou, dizendo que somos uma excepção, uma
vanguarda para o mundo e que Cuba é um exemplo, tudo isso é chauvinismo
barato. O mundo contemporâneo tem a particularidade de viver uma
homologação ou homogeneização das sociedades e das suas necessidades. Este
sentimento de ser uma excepção não é positivo para Cuba, nem para nenhum
outro país, pois conduz ao isolamento


Na realidade, trata-se de ma sociedade como qualquer outra, com as mesmas
diferenças no seu seio, as mesmas contradições. Sobretudo hoje, quando o
Estado já não consegue exercer um controlo absoluto sobre as consciências.
O discurso oficial está demasiado em contradição com a realidade
circundante, para que esse discurso se possa auto sustentar.
.

O papel que representam as contra culturas é patente na sociedade cubana,
que é hoje em dia muito mais tolerante que á vinte anos atrás. Apesar dos
esforços do governo para se opor às contra culturas, a sociedade cubana
diversifica-se, deixando atrás de si os defeitos do pensamento único, da
moral absoluta. E esta transformação vem das camadas mais humildes da
sociedade. Além disso, há o fenómeno do cruzamento dos costumes cubanos e
de modas provenientes do exterior
 Eu tive de sofrer a última vaga de
proibições culturais em Cuba. Não éramos apenas reprimidos pelo Estado,
mas pela própria sociedade. Fazer parte de uma das tribos urbanas era
muito mal visto. Na escola, no bairro, no trabalho ou em qualquer lugar
onde te fizesses notar. O rock, em particular, era visto como a música do
inimigo a música do imperialismo.  Chamavam a isso desvio ideológico.
Chamavam-nos de anti-sociais e, claro, nós acabávamos por reivindicar essa
apelação.
 - Existia, há alguns anos um cantor muito conhecido no mundo da contra
cultura : Carlos Varela...

C.G. : Ganhou a simpatia da juventude com uma canção sobre o filho do
Guilherme Tell onde ele gritava : «E agora é a vez do pai de ter a maçã
sobre a cabeça !» [6] OS concertos eram impressionantes pelo significado
que adquiriam para uma juventude que se sentia constantemente perseguida e
sempre excluída.
Não é em Cuba que se está a jogar o futuro da humanidade, nem do
imperialismo, nem de nada desse estilo. É o futuro dos cubanos que está em
jogo e nada mais. E se a esquerda internacional está verdadeiramente
solidária do povo de Cuba, ela deve então repudiar a ditadura. Isso não
implica renunciar às ideias anti-imperialistas e anti-capitalistas.

A ideia segundo a qual a cultura deve ser objecto de culto é uma
enormidade. O estado cubano, no debate sobre o objectivo e o subjectivo,
acabou por converter a cultura, a História, a pátria, o socialismo, o
povo, a revolução, em objectos. Ele acabou por desvalorizar o subjectivo
que é o sujeito, o indivíduo. O socialismo não é um edifício que se deve
construir. Deve ser aparentado a um organismo vivo, composto por milhões
de células (os indivíduos) que se desenvolvem. São coisas que se forjam a
partir de baixo, que têm a ver com a ruptura da unidade material e com a
aceitação desta diversidade celular que forma a realidade.  Esta aceitação
social da diferença é muito importante. Se o «Velho» tivesse morrido nos
anos 60, no momento em que ainda não existia um tal nível de aceitação da
diversidade, talvez o regime tivesse sobrevivido à morte do seu
«comandante-chefe», mas hoje não. O fidelismo vai morrer porque a
sociedade já não aceitará mais um modelo único, e porque não existe
ninguém  na esfera castrista que possua a capacidade de coesão de Fidel
Castro.

[entrevista feita por Daniel Pinos, em exclusivo para Le Monde libertaire,
fora-de-série 29, Janeiro 2006]

* «Le Monde libertaire», semanário da Fédération anarchiste :
www.federation-anarchiste.org
* Movimento Libertário Cubano : www.movimentolibertariocubano.org
* «A voix autre», boletim do grupo «Ici et Maintenant» da FA :
www.avoixautre.be

Notas :

[1] O « foquismo » era uma estratégia de guerra baseada no desenvolvimento
de focos revolucionários em várias partes de um território. Che Guevara
delineou esta estratégia que era desenvolvida por grupos de guerrilha
activos em vários países nos anos 1960-1970.

O «homem novo» não é nada igualitário em Guevara. Segundo ele, existem
três níveis : em primeiro lugar Fidel, com um culto da personalidade
claramente afirmado, em segundo lugar «os melhores de entre os bons» ou
seja a vanguarda organizada e por fim, o «povo no seu conjunto». Estes
níveis definem o tipo de sociedade a construir. Além da visão bastante
militarizada das massas populares, «a imensa coluna», o que chama a
atenção é a noção de sacrifício.
 [2] Raul Castro foi designado pelo seu irmão mais velho Fidel para lhe
suceder, após a sua morte, na qualidade de Comandante-chefe.
 [3] Desde 1960, desde o princípio da revolução cubana, os anarquistas,
que se opunham às primeiras medidas autoritárias de Fidel Castro, foram
vítimas da repressão. As suas organizações foram proibidas, os militantes
foram perseguidos, executados, presos ou forçados a exilarem-se.
 [4]  o Estado, além da televisão e das rádios que servem sustentáculos,
apoia-se no exército, na polícia e nos Comités de Defesa da Revolução,
órgãos do « poder popular » que esquadrinham o país, bairro por bairro.
Os representantes do «poder popular» são eleitos a partir de uma lista
única e são totalmente enfeudados ao Partido Comunista.

[5]  O Movimento Libertário Cubano tenta estimular o nascimento, apesar
dos riscos da repressão, de um activismo revolucionário em Cuba, de
maneira a construir um movimento que participe nas lutas dos oprimidos. É
uma rede de coordenação de indivíduos em Cuba e em todo o mundo.

[6]  O papel do pai era desempenhado em Cuba por Fidel Castro, mas – claro
- sem o nomear !

http://www.avoixautre.be

http://red-libertaria.net/noticias/modules.php?name=News&file=article&sid=1140




More information about the A-infos-pt mailing list